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A ideia perigosa

Nunca duvide do poder de uma ideia. Ela pode incendiar o mundo. E a mais revolucionária de todas estava lá no princípio: Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Enquanto todas as nações da antiguidade nutriam a ideia de que o ser humano é um joguete nas mãos dos volúveis deuses, um povo preservava esse pequeno embrião de uma cosmovisão antropológica radicalmente diferente. Os hebreus detinham a ideia de que todos os homens, e não apenas eles, são portadores da imagem de Deus.

Isso fez daquele um povo muito peculiar, mas temos que ser honestos ao notar que a ideia da dignidade universal do homem não é jamais muito palatável, muito facilmente admissível, sobretudo em um contexto de guerras constantes entre povos. É preciso desumanizar o outro para garantir a fúria necessária para derrotá-los nas batalhas. E a despeito de nutrirem a ideia da dignidade universal, e a despeito de haverem sentido na pele a supressão dessa noção, passando 400 anos como escravos no Egito, na primeira oportunidade que se afigurou, os hebreus repetiram os mesmos padrões dos seus algozes: fizeram escravos. E alimentaram a ideia de que os descendentes de Isaque são mais puros que todos os outros.

Jesus apareceu gritando a dignidade da pessoa humana. Ele disse que, sendo Deus, reduziu-se à forma humana para salvar até mesmo os que O cuspiam e pregavam cravos nas mãos e pés. Ele recomendou o amor incondicional até pelos inimigos e mostrou o quão radical era seu entendimento da dignidade da pessoa humana parando no meio da rua para falar com mulheres de conduta sexual reprovável e incluindo entre seu círculo de amigos mais chegados até mesmo colaboradores do implacável império romano.

Mas sacumé, né? A ideia é revolucionária demais. É difícil engolir essa ideia de que o outro, o diferente, é igualmente portador da imagem do meu Deus. E, para minha total desolação, a verdade é que a religião, mesmo a cristã, fracassou rotundamente em reproduzir em suas práticas essa elevada teoria. Ao ver que a religião era impotente para fazer prático o seu discurso, veio o iluminismo, e especialmente Kant, e reintroduziu essa ideia sem sua roupagem religiosa. Acharam bonito, mas os séculos seguintes a negaram sistematicamente e foi apenas quando a barbárie alcançou níveis de desumanidade absolutamente apavorantes no holocausto que os homens se juntaram e redigiram uma Declaração Universal dos Direitos do Homem: gravaram na pedra a ideia louca e radical de que seres humanos precisam ser respeitados pelo só fato de serem seres humanos.

E, no entanto, na década seguinte, na nação mais protestante do mundo, negros ainda precisavam dar o assento nos ônibus para brancos, eram parados pela polícia sem a menor razão, apanhavam calados. E, no entanto, 70 anos depois, meus irmãos, que se assentam comigo nos bancos da minha igreja, celebram a derrocada de um prédio sobre pessoas sem moradia que o haviam invadido, se alegram quando a polícia mata bandidos, e, em suma, alimentam a negação daquela ideia radical reproduzindo o discurso de que as prerrogativas humanísticas da lei só valem para pessoas boas. Em suma, parafraseando sêo Orwell, todos os humanos são dignos, mas uns são mais dignos que os outros (direitos humanos para humanos direitos).

Nossa incapacidade de entender e praticar o discurso radical do Cristo me deixa bastante pessimista quanto ao gênero ao qual pertenço. A ponto de chegar a ter a tentação de duvidar que fomos de fato criados à imagem de um Deus que vive para amar e para servir e para dar.

Parafraseando meus irmãos de igreja: “intervenção divinal já!” (quem lê entenda)

Marco Aurélio BrasilA ideia perigosa

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