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Alimentando uma velha amizade

De repente você encontra aquele velho amigo e percebe com melancolia que a conversação abundante e gostosa de outrora parece que morreu. Vocês tentam um assunto, aí forçam outro, mas nada engrena. O fato de não se verem mais com tanta freqüência parece que minou toda a intimidade e com ela o viço da relação.

Se você está aqui há tempo suficiente para notar que não existe nada mais valioso que uma amizade, você certamente concluirá, como eu, que poucas coisas são tão tristes quanto um ótimo relacionamento que se degradou. E você vai concluir, decerto, que para evitar uma desilusão assim você precisa cuidar muito, muito bem, das amizades que tem agora. Cuidar de cultivá-las com a maior exclusividade possível e não apenas com algumas palavras apressadas no meio de muitas outras pessoas.

Fui lembrado disso pela retomada de uma amizade antiga dia desses. Eu não havia programado nada. Apenas cheguei em casa de viagem e constatei que estávamos sem luz. Família fora, então ali estava eu, sozinho, no escuro de uma noite fria e chuvosa, sem condições de tomar o banho quente que eu estava projetando mas também sem condições de ligar a televisão ou o computador.

O engraçado foi que no sábado anterior eu estava falando para a minha classe de escola sabatina sobre a importância e o poder da oração. Ou seja, eu estava falando do imperativo que é manter a intimidade e o contato substancioso para deixar sempre viva essa nossa principal amizade. Para vergonha minha, preciso confessar que foi preciso esse estado de coisas, fatores externos e além de meu controle, para que a minha mais importante amizade fosse retomada.
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Me enrolei em um cobertor, aconcheguei-me no meu sofá e orei durante uma hora inteira, sem pressa, de forma espaçada, tocando cada faceta de minha vida e da minha família, aspirações atuais, incertezas, amigos queridos, familiares, colegas de trabalho, de igreja, gente que há muito tempo não vejo, tudo.

Eu já vinha exercitando orar enquanto caminho da estação do trem até o escritório e por outros cantos, mas não dá para comparar com a experiência de um mundo desligado e escuro para que Jesus brilhe. Os aparelhos todos silenciosos para que Jesus fale. Sem nada concorrendo pela minha atenção, sem a pressão do relógio. Foi então, depois dessa deliciosa experiência, que recuperei os bons efeitos da amizade nos tempos da maior intimidade: com a ajuda de uma lanterna consegui rascunhar a letra de uma música que um amigo havia pedido e que eu ruminava fazia tempos. Porque essa amizade genuína inspira, anima, cura e dá norte e somos pequenos demais para abrir mão disso tudo.

Mas foi preciso um blackout para eu lembrar do mais importante. Registro aqui o fato na esperança de não esquecer jamais.

Marco Aurélio BrasilAlimentando uma velha amizade