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Arroubos românticos

Romantismo é o nome que designa aquele tempo em que gozava de muita popularidade o gênero artístico cheio de gestos extremados, personagens que iam às últimas consequências, geralmente por amor, mas também por fidelidade à pátria.

Esses dias achei um diário que escrevi em 1996. Eu já não era então propriamente um adolescente, a quem os tais arroubos românticos costumam causar mais impacto, de modo que, relendo o que escrevi, encontrei páginas muito comedidas e razoáveis. Mas isso só até chegar no ponto em que relato a vitória que o coral no qual eu cantava teve em um concurso nacional de corais promovido pela Prefeitura de São Paulo. É verdade, foi uma bela façanha, já que o nível dos concorrentes era altíssimo e há poucos dias da grande final nós não conseguíamos afinar satisfatoriamente a música de confronto. O relato que eu fiz, contudo, no calor do momento, é derramado, cheio de superlativos, de rompantes de entusiasmo, enfim, romantismo puro.
arroubos
Estava lá, lendo aquilo, todo envergonhado, quando me ocorreu que ridículo mesmo é ter vergonha de viver uma grande emoção. O homem letrado, culto, inteligente guarda distância disso, foge dos tais arroubos românticos, (citando Chico Buarque:) chega a mudar de calçada se encontra uma flor, mas o que ganha com isso? A verdade é que aquele momento que eu vivi era verdadeiro, e por pedante e piegas que possa parecer depois de haver morrido aquele instante, a verdade é que ele existiu e eu o vivi! E dou graças a Deus o tê-lo vivido, é muito melhor assim do que ter-me poupado do ridículo e observado tudo com fleuma britânica, distante, mas sem a experiência.

O Deus que me criou não tem esses pudores tolos de viver emoções, de as externar. A Bíblia é coalhada de arroubos românticos Seus. Diz, por exemplo: “Pode uma mulher esquecer-se de seu filho de peito, de maneira que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta se esquecesse, eu, todavia, não me esquecerei de ti” (Isaías 49:15). Ou “Pois que com amor eterno te amei, também com benignidade te atraí” (Jeremias 31:3).

Sim, Ele não se furta a experimentar, a viver intensamente um sentimento que vai além da emoção, está acima disso e se chama amor. O maior de todos os arroubos românticos que teve, contudo, não foi escrito em tinta através de um profeta; teve mais silêncios que palavras, mais sombras que luzes, mais reticências que rimas, quadro pintado em sangue sobre uma tela em forma de cruz.

Ele não se envergonha desse ato extremo de amor. Nós, objeto dele, é que nos envergonhamos muitas vezes. Que pena. Que triste ser sábio, culto e letrado, homem moderno, e guardar a distância fleumática e insensível de tão maravilhosa declaração de amor!

Ele viveu e vive o amor em toda sua extensão para que o amor possa fazer parte de nossa experiência. Hoje Ele me convida a, pois, experimentar. Decidi não me envergonhar disso.

Marco Aurélio BrasilArroubos românticos

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