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As ofertas relâmpago e a eternidade

“Eu precisava estar lá”, é a frase que escuto soprada baixinho lá no profundo de meu inconsciente enquanto minhas retinas refletem as cenas de fúria consumista da Black Friday na TV. Uma pilha de caixas com televisores é disputada com euforia violenta. Uma senhora com um enorme sorriso de triunfo é questionada se sabia qual era o preço normal da TV e ela responde que não, apenas se atirou sobre ela quando viu que havia muita competição. Mais cedo, uma loja lançou uma série de promoções às cegas. Você comprava sabendo quanto pagaria mas não sabia o que estava comprando. Algumas pessoas afeitas ao jogo pagaram R$900,00 e levaram televisores que custavam originalmente R$ 15.000,00. Como na abertura do filme argentino Relatos Selvagens, eu tenho a impressão de estar vendo um documentário sobre a vida na savana africana, e aquela vozinha lá longe lamenta o que estou perdendo por não estar lá.

Bauman comenta essa multiplicação de ofertas pululando aos nossos olhos afirmando que “a produção contínua de novas ofertas e o volume sempre ascendente de bens oferecidos… são necessários para manter a velocidade da circulação de bens e reacender constantemente o desejo de substitui-los por outros, ‘novos e melhorados’; também são necessários para evitar que a insatisfação dos consumidores com um produto em particular se condense num desapreço geral em relação ao próprio estilo consumista de vida”. Segundo o grande sociólogo polonês, esse estado de coisas encontra um complemento perfeito nas novas tecnologias. As novas gerações preferem o mundo on line, em que vigora a ilusão de que é possível multiplicar o número de contatos (“amigos”), sempre de forma superficial, “em nítido contraste com o mundo off-line, orientado para a tentativa constante de reforçar os laços, limitando muito o número de contatos e aprofundando cada um deles.”
 
A cultura da dopamina, do prazer do novo, das recompensas químicas instantâneas, não quer nada com laços aprofundados. Ela se sente mal em relacionamentos duradouros. Em chegar perto o suficiente para sentir o cheiro do outro. No custo de realmente investir e cultivar relações estáveis. Isso vale para uma carreira, um emprego, um casamento, um círculo de amizades, uma igreja, tudo.
De novo vale a pena citar Bauman, que afirma que homens e mulheres estão “sempre atormentados pela eventualidade (apenas a eventualidade) de que cada passo possa se revelar um erro; ou pela eventualidade (apenas a eventualidade) de que seja tarde demais para anular as perdas que ele possa causar. Vem daí a aversão a qualquer coisa ‘a longo prazo’, seja o planejamento da própria vida, sejam os compromissos assumidos com outros seres vivos” (Capitalismo parasitário, páginas 35/36 e 67/68).
Entre o prazer de um like neste texto e o custo do like eterno, que requer um relacionamento aprofundado, algo dentro de mim pede o primeiro. Mas graças a Deus, que apela à minha razão. E minha razão, permeada da luz que coloca as coisas em perspectiva, pede o que é eterno.
Marco Aurélio BrasilAs ofertas relâmpago e a eternidade

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