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As torres

Todo silêncio é maior e mais profundo se depois de muito barulho, assim como a luz brilha mais depois de uma grande escuridão. O barulho da borrasca havia passado. Os animais desciam monte abaixo e o que restou da humanidade olhava extasiado o arco-íris. Silêncio, enfim, e dos mais profundos.

Mas parece que houve nostalgia do barulho. Gênesis 6 diz que o dilúvio veio porque “toda a imaginação dos pensamentos de seu coração [dos homens] era mau continuamente” (v. 5). Na Terra
repaginada do pós-dilúvio a ordem foi: espalhem-se e povoem a terra (9:7), mas a resposta foi: vamos fazer uma cidade e uma torre… para que não sejamos espalhados (11:4); e a estrada estava
pavimentada para que voltasse o estado de coisas de antes do dilúvio.

A torre deveria tocar o céu, porque assim eles não teriam mais medo de dilúvio. Veriam como as coisas acontecem lá de cima, de onde vem a água. Desenvolveram uma tecnologia nova, com tijolos e argamassa e estavam indo muito bem, mas você conhece o final da história: Deus confundiu as línguas deles e Sua vontade inicial acabou sendo cumprida, eles foram espalhados segundo suas línguas pela terra. Se houvessem obedecido, teriam poupado o sofrimento da ruptura forçada – e provavelmente os professores de idiomas teriam outras ocupações hoje.

A tentação do povo de Babel é a mesma que temos todos os dias: de achar que nossa ideia pode ser melhor que a de Deus. De desobedecer francamente por amor a alguma conveniência que nos pareça mais vantajosa. Mas nossa relação tortuosa com a lei é bem conhecida. O que acho mais curioso nesse relato é como ele mostra nossa relação com a promessa. Deus disse: nunca mais destruirei a terra com água. Dilúvio nunca mais. E aí eles se juntam para se proteger do dilúvio. É como se dissessem: olha, nem precisamos da Tua promessa, a gente dá um jeito por aqui, com nossa argúcia e habilidade. A Torre de Babel acaba sendo, portanto, uma banana para a promessa.

Podemos construir outras torres hoje. Se em lugar de reivindicar a vitória sobre o pecado prometida, usamos de auto-justificativas, muletas retóricas, conformismo, etc. Se em lugar da paz prometida, buscamos válvulas de escape, qualquer iniciativ artificial de auto-apaziguamento. Se em lugar da confiança que podemos nutrir nos cercamos de pílulas. Estamos construindo torres o tempo todo porque não cremos nas promessas. E descobrindo, às vezes tarde demais, que nossas torres são ineficazes, ridículas e frustrantes.

Marco Aurélio BrasilAs torres

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