Marco Aurélio Brasil

Quem me tem

“O boi conhece o seu possuidor, e o jumento, o dono da sua manjedoura; mas Israel não tem conhecimento, o Meu povo não entende” (Isa. 1:3). Isaías 1 segue ressoando para mim, cerca de 2.750 anos depois de haver sido escrito. E ele começa dizendo que eu posso ser pior do que um boi ou um jumento.

A primeira visão de Isaías descreve uma nação oprimida por nações estrangeiras. “A vossa terra está assolada, as vossas cidades, consumidas pelo fogo; a vossa lavoura os estranhos devoram em vossa presença; e a terra se acha devastada como numa subversão de estranhos” (7). Em seguida, Deus pergunta: “De que me serve a Mim a multidão de vossos sacrifícios?… Estou farto dos holocaustos de carneiros e da gordura de animais cevados e não Me agrado do sangue de novilhos, nem de cordeiros, nem de bodes.” (11). Em outras palavras, ao sentirem o gosto da bota dos seus inimigos, ao terem suas filhas estupradas, suas colheitas saqueadas e ao terem de viver sob o signo do medo, Israel aumentou seus rituais religiosos. Ofereceu mais sacrifícios. Tentou comprar a proteção divina com mais cultos.

O caminho, contudo, não era esse. “Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos Meus olhos; cessai de fazer o mal. Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, repreendei ao opressor; defendei o direito do órfão, pleiteai a causa das viúvas” (16 e 17). Venham conversar comigo, apela o Senhor. Se me ouvirem, “comereis o melhor desta terra” (19).

Quando as coisas ruem, preciso resistir à tentação de parecer religioso e piedoso, porque o meu culto será ofensivo a Deus. Preciso ir conversar com Deus. Preciso deixar que Ele me ensine a olhar a viúva e o órfão mesmo antes de as coisas melhorarem, mesmo porque, a verdade é que quando as coisas estavam melhores, eu não os notava.

No fim das contas, Isaías está me dizendo hoje: lembre-se de a Quem você pertence e as implicações práticas disso. Nunca se esqueça Quem é seu dono.

Marco Aurélio BrasilQuem me tem
leia mais

Fugindo da depressão

Os dois exemplos de personagens bíblicos que sofreram de depressão citados na semana passada têm como causas da enfermidade um fato assemelhado. Elias viveu um pico emocional e espiritual no monte Carmelo, foi usado por Deus de forma espetacular perante todo o povo reunido. Decerto ele esperava que aquele evento fosse o despertar de um grande reavivamento nacional, um grande movimento de retorno ao culto a Deus, mas em lugar disso o povo voltou para suas casas e a rainha mandou dizer que ia matá-lo. Elias pulou do pico do monte para uma depressão profunda (a propósito, as depressões logo após grandes ápices espirituais são mais comuns do que se diz por aí).

Jonas, por sua vez, tinha idéias muito rigorosas de justiça e quando viu Nínive ser salva, embora houvesse de certo modo trabalhado para isso, pregado na cidade por três dias chamando-a ao arrependimento, caiu também ele na depressão profunda. Talvez estivesse preocupado com sua reputação, porque havia pregado que a cidade seria destruída. De qualquer forma, assim como foi com Elias, a depressão de Jonas nasceu da contrariedade. Eles esperavam que as coisas andassem num sentido, mas viram ela dar um pinote em direção diferente.

Nem preciso dizer que estamos todos sujeitos a contrariedades. Mesmo em coisas que são vitais para nós, não temos qualquer garantia de que elas vão acontecer e do jeito que sonhamos. O quê, então, precisamos fazer para quando esse dia chegar não cairmos numa caverna qualquer e pedir a morte a Deus, espalhando tristeza e desesperança também ao nosso redor?

É preciso confiar. “Entrega teu caminho ao Senhor, confia nEle e o mais Ele fará” (Salmo 37:5). Precisamos desenvolver agora, antes dos momentos de contrariedade, um espírito de confiança. Isso é o tipo de coisa que não aparece do nada e nem com relação a estranhos. Você só confia em quem conhece, por isso é preciso soltar nas mãos dEle hoje as coisas pequenas, depois as médias, para estarmos aptos a soltar as grandes quando elas não saírem do jeito que sonhávamos. É preciso ser capaz de falar com a boca cheia que temos um pastor e que nada nos faltará, nem que atravessemos vales sombrios. É preciso alimentar a mente de coisas positivas e luminosas.

Mas hoje em dia um gatilho muito comum da depressão é o stress. É de vital importância respeitarmos os limites do corpo. Dar-lhe descanso. E para vencer a tentação de se encher de atividades e
obrigações, de trabalhar excessivamente ou de relaxar assistindo um pouco de TV altas horas da noite ao invés de descansar é preciso colocar seu corpo como prioridade. Outra coisa interessante que as pesquisas apontam: apenas uma minoria das pessoas que sofrem de depressão tinham hábitos de exercícios físicos. Atividades físicas liberam endorfinas e mantém as defesas do organismo contra a depressão bem altas. Se essas atividades forem realizadas ao ar livre, muito melhor, o efeito será duplo.

O bem estar de amanhã depende de escolhas que precisam ser feitas hoje. Pense nisso.

Marco Aurélio BrasilFugindo da depressão
leia mais

Depressão

Num momento Elias está sobre o monte Carmelo ridicularizando os 400 profetas de Baal e conduzindo seu morticínio. No instante seguinte nós o vemos fugindo desesperadamente, entrando dentro de um deserto e atirando-se embaixo de um zimbro, pedindo a morte a Deus. Foi preciso que um anjo o chacoalhasse duas vezes e o fizesse comer e continuar andando (I Reis 19).

Num momento Jonas está compondo um lindo salmo de louvor a Deus pela salvação operada através do peixe que o engoliu. “Eu te oferecei sacrifícios com a voz de ação de graças. O que votei, pagarei”, diz ele (Jon. 2:9), mas no instante seguinte ele está assentado do lado de fora de Nínive, pedindo a morte a Deus. “Desejou com toda sua alma morrer” (3:8)… Então Deus aparece e tenta fazê-lo ver como era irrazoável que ele estivesse naquele estado de espírito.

Quando promovíamos lá na igreja oficinas sobre estudos bíblicos, aparecia meia dúzia de gatos pingados. Quando, entretanto, promovemos uma palestra sobre depressão, tivemos que, às pressas, mudar para um auditório maior porque apareceu uma pequena multidão. Ali aprendi que a depressão tem uma causa física, a baixa de serotonina, mas geralmente tem um gatilho emocional. No caso dos exemplos bíblicos, Elias e Jonas desanimaram da vida e suplicaram a morte porque as coisas não saíram da forma como eles gostariam, como eles achariam mais correta. Elias esperava que após o incidente do Carmelo o povo o carregasse nos ombros e promovesse uma reforma profunda em Israel, defenestrando a ímpia rainha Jezabel. Quando ele viu que todos voltaram para suas casas como se nada houvesse acontecido e que a tal rainha queria o pescoço dele, desabou. Jonas queria que Nínive, a cruel capital da Assíria, fosse consumida pelo fogo. A misericórdia divina lhe parecia injusta. Ao testemunhá-la, desabou.

Hoje em dia uma das causas mais freqüentes da depressão é a estafa, o excesso de trabalho e atividades, mas também é comum ver pessoas em depressão após que os filhos deixam a casa, quando se perde alguém querido, quando sonhos são desfeitos e por aí afora. A experiência de Jonas e de Elias, contudo, me mostram que Deus não gosta nada disso. Ele manda anjos nos chacoalharem e arrazoa conosco nos chamando à razão.

Sendo a Vida, Ele quer que nós amemos viver. Na verdade, Ele morreu para garantir isso. Na próxima semana vou tentar falar sobre atitudes que podem nos ajudar a fugir da depressão.

Marco Aurélio BrasilDepressão
leia mais

Os temperos da vida

Em “A solidão segundo Solano López”, excelente romance que narra a Guerra do Paraguai, Carlos de Oliveira Gomes descreve o ataque a um vilarejo paraguaio sob a ótica de um soldado adolescente. Ele está ansioso para poder fazer duas coisas que nunca fez: comer açúcar e fazer sexo. Imagine a explosão de sensações no cérebro de alguém que passou toda a vida sem sentir o sabor do açúcar refinado. Bem, o autor relata pessoas comendo quilos e quilos de açúcar saqueados aos seus inimigos.

Deus polvilhou esse mundo agora maculado de pecado de temperos que tornam a vida cheia de cor e sabor e escreveu a advertência da moderação não na embalagem de cada um desses elementos, mas no interior de nosso coração. Mas quem liga para advertências, não? Para milhões de pessoas, a vida é norteada por demorar-se nos temperos como se eles fossem fins em si mesmos: comer quilos de açúcar de uma só vez, o maior número de vezes possível, por exemplo. E um dos problemas dessa atitude exagerada é que ela desperta a reação dos moderados atacando os temperos como se eles não tivessem vindo das mãos do Criador.

O livro de Cantares, por exemplo, tem uma série de referências ao prazer sexual que boa parte dos eruditos teológicos se esforçam para simplesmente não ver, tentando espiritualizar o texto para que ele se refira exclusivamente ao relacionamento de Cristo com a igreja. Quando a mulher do poema afirma “qual a macieira entre as árvores do bosque, tal é o meu amado entre os filhos; com grande gozo sentei-me à sua sombra e o seu fruto era doce ao meu paladar” (2:3), o comentário adventista afirma: “estas palavras têm sido utilizadas para ilustrar o descanso da alma à sombra do amor de Cristo, desfrutando um abençoado companheirismo com o Senhor”. Mas por que o texto não pode estar celebrando aquilo que obviamente está? Onde está o mal de compor um poema celebrando o amor consumado?

O problema real não está aí. Está na forma como milhões de pessoas buscam o tempero (no caso, o sexo), descartando a comida (no caso, o relacionamento de amor, responsável e comprometido) e no seu total oposto: a negação da legitimidade do prazer que o Criador espalhou pela existência e que funciona como setas para o Céu.

Não devemos morar nas setas. Devemos rumar para onde elas apontam. Mas podemos – e devemos! – celebrar Aquele que as colocou ali cada vez que as encontramos pelo caminho.

Marco Aurélio BrasilOs temperos da vida
leia mais

Encruzilhadas

Lembro o dia em que estava a trabalho em uma cidade extremamente quente, com ainda duas ou três horas para meu voo de volta. O calor desaconselhava andar pela cidade, meu passatempo preferido quando estou em um lugar desconhecido, então o jeito foi zapear pela TV do hotel, que tinha poucos canais. Achei um filme de aventura, desses em que se gasta milhões de dólares e que eu não assistiria nem por decreto em condições normais, e fiquei ali assistindo. Depois de terminado, arrumando minhas coisas para sair, além de ter a sensação de perda total de tempo, fiquei me perguntando o quê no filme parecia tão deslocado. Claro, o roteiro era absurdo, cheio de furos, de personagens inúteis, mal dirigido, com um final bobo, mas havia alguma outra coisa. Ah, sim. Localizei a fonte de meu estranhamento: a heroína, nas piores situações, estava sempre com uma expressão de que sabia exatamente o que fazer. E sempre fazia a coisa certa, na hora certa, do jeito certo e sem desarrumar o cabelo. Impressionante.

Mais que todo o besteirol, é uma personagem assim que soa profundamente inverossímil. Não pelo cabelo, mas por ser senhora absoluta de todas as situações, mesmo as mais inusitadas. Porque
nós, seres humanos, não somos assim. Volta e meia nos vemos em impasses desconcertantes de dois tipos, basicamente. Podem ser encruzilhadas quanto a que caminho seguir na vida, grandes decisões que precisam ser tomadas e que, por desconhecermos o futuro ou o que envolve exatamente cada tomada de rumo, nos deixam angustiados. Podem, também, ser decisões que tenham repercussão
espiritual. Situações em que não conseguimos ter certeza de estar agindo certo.

Existem, de fato, ocasiões para as quais não fomos treinados. Por medo delas é que se perde tanto tempo discutindo em igrejas trivialidades. As pessoas querem um claro “isso pode” e “isso não
pode” na esperança de jamais se encontrarem no tal impasse moral. Participei um curto tempo de um grupo de discussão na internet que congregava pessoas de diversas confissões religiosas e me enfadei com uma discussão interminável sobre se as mulheres podiam cortar o cabelo e, se não, se podiam cortar ao menos as pontas. A coisa parecia ter reflexos morais sérios para os envolvidos na discussão.

Você pode não ter problema algum quanto a isso, mas chega um momento em que você realmente não sabe como proceder. Mostrar solidariedade a um amigo solitário indo a sua festa de aniversário apesar de ser no dia santo? Obedecer quando alguém lhe pede para dizer ao telefone que ele não está? Emprestar dinheiro? Sei lá, existem milhares de situações como esta.

E é por causa delas que Deus registra mais uma fantástica promessa em Sua palavra: “Os teus ouvidos ouvirão a voz do que está por detrás de ti, dizendo: Este é o caminho, andai nele” (Isa.30:21). Faça a prova. Na próxima encruzilhada da sua vida, feche os olhos e dedique-se a ouvir a voz de Deus.

Marco Aurélio BrasilEncruzilhadas
leia mais

A Copa e a entrega

Esta semana apareceram ambulantes vendendo bandeiras do Brasil, vuvuzelas e camisetas falsificadas da seleção aqui na minha rua. Foi só na segunda semana de Copa do Mundo. A mística do mundial pode demorar, mas sempre chega. O que mais explicaria o fato de pessoas que não suportam futebol abrirem essa exceção de 20 dias a cada quatro anos?

Existe o componente patriótico envolvido, mas o fato é que os jogos de Copa do Mundo em geral costumam ser bem mais emocionantes que os jogos regulares de clubes, exceção feita às partidas eliminatórias de alguns campeonatos. Talvez pelo fato de estarem jogando pelas cores de seu país, mas mais provavelmente pelo fato de saberem que o mundo inteiro está olhando e que ali está a chance dos jogadores de conseguirem contratos melhores, fato é que existe uma presença de entrega nos jogos da Copa que comove. Você se pega sofrendo com pessoas nas quais nunca pensa: islandeses, senegaleses, tunisianos, iranianos e panamenhos.

A entrega continua comovendo, mesmo em tempos hipermodernos. Gilles Lipovetski, um dos melhores leitores de nosso tempo, observou que a globalização neoliberal tornou as sociedades permeadas de valores essencialmente individualistas e tornou absolutamente impopular a entrega, o auto-sacrifício, o endeusamento do dever. Aí você vê aqueles caras se atirando de peito aberto nas divididas, pretensamente pela glória de sua nação, e uma nostalgia de algo que você nem sabia que havia perdido lhe toma o peito. A mística do Mundial tem muito que ver com os valores de um tempo que se foi, trocado por outro com algumas coisas melhores, mas privado de algo essencial.

Aí precisamente reside a relevância do cristianismo. Contra o fluxo das coisas, Jesus Cristo continua requerendo a negação de si mesmo, a tomada da cruz, e o segui-lo. Contra a correnteza da sociedade, Jesus aponta para a maior de entregas já feita, a Sua na cruz, aponta para a vida eterna, e, entre uma coisa e outra, pede que o busquemos de todo o coração, que o amemos com todas as forças, toda a alma e todo o entendimento, que coloquemos Seu reino em primeiro lugar.

Eles tentam, mas não conseguem arrancar do cristianismo aquele algo essencial. Aquele algo que garante que a vida não é vã nem vazia.

Marco Aurélio BrasilA Copa e a entrega
leia mais

Não vale escolher

Há duas semanas, escrevi aqui que foi preciso dar um longo desvio, de mais ou menos 6.000 anos, para que a noção bíblica de que todo ser humano é digno e deve ser respeitado e protegido vingasse como política oficial de Estado. Para isso, foram necessários os mais bárbaros genocídios, genocídios documentados com fotografias e câmeras de cinema. Foi preciso também despir essa ideia de qualquer roupagem religiosa para que ela se tornasse internacional.

Há uma semana, escrevi aqui que aquilo que compartilhamos nos whatsapps e facebooks da vida diz muito sobre quem somos, e que cristãos deveriam se preocupar se o que estão compartilhando é verdade. Bem, percebo que é preciso fazer uma intersecção das duas ideias.

Se consideramos que todo ser humano é digno de respeito, não se trata apenas de não compartilhar conteúdo que nega os direitos humanos de gente diferente da gente (sejam eles bandidos, sejam ativistas dos direitos LGBT, sejam manifestantes feministas protestando, sejam integrantes da marcha da maconha ou participantes de um show de música secular, etc e etc); se trata de, graças à atuação transformadora do Espírito Santo em nosso íntimo, não mais encontrar graça em vídeos de bêbados apanhando, em vídeos de meninas se estapeando na saída da escola, em fotos de pessoas em situações constrangedoras involuntárias, em conteúdos que expõem mulheres (voluntariamente ou não) como objetos sexuais, em conteúdos que pregam velhas e vergastadas dinâmicas de abuso. E essa lista, é claro, não é exaustiva. Alguém que teve um encontro genuíno com Cristo não admite divertimento com (ou contemplação de) nada que desumaniza o outro.

Jesus Cristo nos abraçou muito forte e disse no ouvido que nós somos muito, muito amados. Depois disse “agora vá e ame também. Incondicionalmente. Não vale escolher”.

Você mostra o quanto entendeu isso e o quanto leva isso a sério nas coisas que compartilha e nas coisas que se alegra em receber no seu celular, também.

Marco Aurélio BrasilNão vale escolher
leia mais

Em quem Deus confia?

Os psicólogos costumam dizer que a imagem que temos de nós mesmos está diretamente relacionada com o que imaginamos que os outros pensam de nós. Ou seja: o que achamos que os outros pensam que somos acaba nos condicionando. Talvez agora você tenha parado para pensar no que acha que os outros pensam de você. Então aproveite e vá mais longe: tente imaginar o que Deus pensa a seu respeito.

O livro de Jó é um bom manual de teologia popular. Seus personagens manifestam crer, por exemplo, que se alguém sofre é porque Deus está zangado com ele por causa de seus pecados. Essa ideia parece bastante lógica porque costumamos tentar fazer sofrer quem nos magoa ou, na melhor das hipóteses, deixamos que os que nos desobedecem colham os frutos desfavoráveis de suas atitudes. Outra expressão de teologia popular, baseada na lógica, é esta fala de Elifaz: “Eis que Deus não confia nos seus santos, nem o céu é puro aos seus olhos” (Jó 15:15).

É óbvio. Por que Ele confiaria em criaturas minúsculas, erráticas e estúpidas? Deus confiaria em mim, por exemplo? Pode o onipotente depositar confiança no “nada-potente”?

Como em muitos outros pontos, porém, a lógica humana não funciona com a teologia bíblica. Não podemos apedrejar o pobre do Elifaz, porque ele não tinha para ler, por exemplo, o próprio livro de Jó.

Afinal, se pudesse ler os dois primeiros capítulos do livro veria que o ilógico acontece com Deus, pois Ele confiou em Jó. Apostou Suas fichas perante todo o Universo em uma criatura que tinha ideias teológicas seriamente distorcidas para responder a acusações injustas de Satanás.

Jó podia ter ideias erradas sobre Deus, mas não passava um único dia sem relacionar-se com Ele. Este parece ter sido o critério que o fez digno da confiança do Onipotente. Lembre: estava em jogo saber se as pessoas só servem a Deus quando são beneficiadas por Ele. Esta era a acusação de Satanás. Para tirar a prova disso não se poderia tomar uma pessoa diferente das demais. Jó era feito da mesma matéria prima que eu e você, sujeito às mesmas coisas. Fosse diferente e a questão não seria resolvida.

O que Deus pensa de você? Bem, por ser membro da mesma espécie que Jó, saiba que você pode ser digno da confiança extrema dEle, mesmo contra toda a lógica, porque está provado que Ele confia em criaturas cheias de defeitos e que podem até alimentar ideias erradas a respeito dEle, mas que estão dispostas a passar tempo com Ele.

Marco Aurélio BrasilEm quem Deus confia?
leia mais

É verdade

Tenho um professor que costuma repetir: aquilo que compartilhamos nas redes sociais diz mais a respeito de nós mesmos do que do autor original do conteúdo ou do conteúdo em si. A partir dessa reflexão concluo: se compartilhamos mentiras, estamos dando uma eloquente declaração sobre nossa relação com a verdade.

A Verdade era um assunto capital para Jesus. Ele disse que ela nos libertaria (João 8:32), que ela é a palavra de Deus, que nos santifica (João 17:17). São inúmeras as vezes que O vemos começar alguma declaração com a expressão “em verdade em verdade [assim, duas vezes, sublinhando!] vos digo”, e foi bastante claro ao afirmar que seria rejeitado justamente por falar a verdade (João 8:45). Ele diz que nossa adoração precisa ser em verdade (João 4:24) e que “todo aquele que é da verdade” ouve Sua voz (João 18:37 – ao que Pilatos, numa atitude bem pós-moderna e adequada aos nossos tempos aqui, deu de ombros perguntando “o que é a verdade?” e então virou as costas).

É de se esperar, portanto, que todos aqueles que seguem Alguém que Se descreveu como “o caminho, a verdade e a vida” (João 14:6), tenham um apego considerável à verdade. O que se vê, contudo, é um festival de fake news compartilhada com alegria. Qualquer notícia absurda ou simplesmente inverídica, mas que confirma de alguma forma a visão de mundo desses cristãos, é abraçada com entusiasmo – e passada adiante. Cristãos, possivelmente mais do que outros grupos, não admitem sentar frente a frente com pessoas que partilham de outra cosmovisão para simplesmente conversar. No fundo, agem como quem tem medo de sua verdade não resistir ao escrutínio da razão ou aos fatos.

E, no entanto, Jesus Cristo é a Verdade. Como disse C. S. Lewis, ou Ele é aquilo que afirmou ser, ou é um louco, e os que temos de fato nos relacionado com Ele sabemos que não se trata da segunda hipótese, em absoluto. Logo, se temos andado e mantido uma relação estreita com Ele, temos interagido com nada menos que a Verdade (assim, com V maiúsculo). O que devia aumentar nossa confiança e nos impelir a comunicar com o outro, como Ele ordenou, porque sabia que isso ajudaria não só a alcançar alguns que não conhecem a Verdade, mas também depuraria aquilo que nós entedemos como verdade, tirando dela as impurezas que deixamos acumular ao seu redor.

Neste exato instante, e especialmente num ano eleitoral como este, há uma infinidade de perfis falsos nas redes sociais e “bots” criados para compartilhar informações falsas. Nós os vimos em ação recentemente no caso Marielle, quando um monte de cristãos passaram adiante a informação falsa de que ela era mulher de um traficante e o fizeram sem nem pensar duas vezes, afinal, estavam diminuindo a morte de uma mulher negra, lésbica e esquerdista. E, contudo: “Não vos escrevi porque não soubésseis a verdade, mas porque a sabeis, e porque nenhuma mentira vem da verdade” (I João 2:21). Nenhuma.

Cheque os fatos e fique do lado da verdade, lembrando que ela é uma pessoa.

Marco Aurélio BrasilÉ verdade
leia mais

Se somos o corpo

Num mundo povoado por criaturinhas egoístas, a graça de Deus era algo ininteligível. Um conceito abstrato, incapaz de ser apreendido, porque é difícil conceber motivações diferentes das que nós mesmos temos. E assim foi até que ela se fez carne. A graça tomou a nossa forma. Um corpo igual o que nós temos. Andando entre nós, falando conosco, nos tocando, nos ouvindo, nos vendo.

Os evangelhos registram uns poucos exemplos de cada atuação destas. Relatam que um dia Jesus, procurando solidão e descanso, viu uma multidão e Se compadeceu dela, porque pareciam ovelhas sem pastor, e então deixou pra depois a solidão e o descanso. Deus viu. Relatam oportunidades em que, podendo curar um enfermo com uma palavra, apenas, Jesus escolheu tocá-lo. Deus tocou. Contam de um cego esbravejando por misericórdia no meio de uma multidão, e Deus ouviu. Falam de oportunidades em que pessoas angustiadas foram consoladas, famintas, foram saciadas, sacudidas por dúvidas e foram orientadas, com a auto-estima carcomida e foram encorajadas, amadas, chamadas para trabalhar. Deus orientou, consolou, encorajou, comissionou e fez com que a graça tivesse um rosto, um nome, uma voz e, sobretudo, fez com ela fosse entendida (com muito maravilhamento, mas enfim compreensível). A cada atuação de Cristo era como se Deus estivesse dizendo à humanidade caída: isso é o que desejo a cada um de vocês: cura, felicidade, reconciliação com Deus.

Mas pode ser que, ao lermos esses relatos em nossa Bíblia, não os entendamos como recados direcionados especificamente a nós. Pode ser que suspiremos profundamente e nos perguntemos aonde está Deus agora.

Há uma pista para a resposta nos capítulos 9 e 10 de Lucas. O primeiro descreve Jesus enviando os doze discípulos de dois em dois a várias cidades, para que através deles pessoas fossem libertas de seu fardo de pecado, enfermidade e angústia. No segundo, Ele envia setenta, também de dois em dois, para que o raio de atuação fosse maior. Antes de ascender, comissiona sua igreja para que faça o mesmo primeiro ali mesmo, então num raio mais distante, depois mais e mais até abranger o mundo inteiro.

Foi preciso vermos a graça se fazer corpo para entender. O mundo pode ver esse corpo hoje. Nós somos o corpo. I Coríntios 12 diz que nós somos o corpo e Cristo é a cabeça. A pergunta, então, não é mais “onde está Deus?” mas sim: se nós somos o corpo, por que Suas mãos não tocam e não curam? Por que Seus olhos não vêem as pessoas angustiadas, nem aquelas que entram pelas portas de nossas igrejas? Por que Sua voz não fala aos perdidos e desorientados? Por que Seus braços não abraçam, Seus pés não O levam ao encontro das ovelhas sem pastor e Seus ouvidos não escutam os clamores por socorro? Parece que a comunicação entre cabeça e membros foi interrompida e, cá pra nós, a culpa é toda dos membros.

Marco Aurélio BrasilSe somos o corpo
leia mais