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Baratos

Nesse tempo de informação abundante em que vivemos é difícil acreditar na bondade latente do ser humano. De tempos em tempos somos colocados cara a cara com fatos que nos lembram o quão bárbaros e sórdidos podemos ser.

Certa vez participei de um evento promovido pela Polícia Federal em que palestraram diversos policiais especializados em investigar crimes cibernéticos de várias partes do mundo e eu fiquei admirado de ver que na boca de todos eles a prioridade número um de combate é pedofilia. Fiquei sabendo que o crime organizado tem movimentado milhões através de complexas redes de pornografia infantil e que isso está em absolutamente todo lugar.

Eu já sabia bem que pessoas são capazes de fazer qualquer tipo de coisa por dinheiro. O que me deixou pasmo foi descobrir que há um enorme mercado para esse tipo de produto aviltante, atentatório
contra as noções mais básicas de humanidade. Que tipo que aplica seu dinheiro em fotos e filmes em que crianças são abusadas?

Na TV Cultura de São Paulo uma especialista dava um diagnóstico da origem da atração do adolescente por drogas que me pareceu preciso: crescemos ouvindo dizer que para nossa vida ter sentido precisamos estar constantemente sentindo “baratos” (como o da droga). Sexo, uma cerveja gelada, um carro, uma viagem, uma vitória do time, um hamburguer delicioso, um filme cheio de efeitos especiais extasiantes, uma música arrebatadora ou com uma batida primal. A lista não tem fim, assim como a necessidade que temos de experimentar sensações (cada vez mais) fortes. Como o adesivo para pára-brisas metido a espirituoso que eu vejo por aí: “não fumo, não bebo, não transo… morri”.

Sob esse prisma parece absolutamente lógico que pessoas fruto dessa cultura se considerem justificados por seguir seus impulsos animais, mesmo que eles impliquem em destruir para sempre a vida de seres humanos indefesos, como é o que acaba acontecendo com as vítimas da pedofilia (quando elas não são mortas, claro).

Jesus Cristo apresenta uma porta estreita, um caminho difícil, uma subida que mais parece escalada. Esse caminho não será constituído de “baratos”, embora eles existam. Esse tipo de “barato”, contudo, demanda um certo requintamento para poder ser aproveitado. Lembro que meses após parar de comer carne, descobri um prazer que eu nem suspeitava em uma boa salada e então percebi que meu paladar havia se refinado.

Descobrir a graça sutil e extremamente prazeirosa de uma amizade saudável ou de um lar sólido e harmonioso é igualmente difícil para quem está acostumado a encontrar o “barato” no barulho e na
adrenalina, apenas.

A verdade é que se não descobrimos isso, se não optamos pelo caminho em que o “barato” emocional falta boa parte do tempo, se não pisamos a estrada que às vezes parece silenciosa e solitária, vamos fatalmente justificar atos injustificáveis. Como os desprezíveis pedófilos. E eu não quero semelhança nenhuma com essa gente.

Marco Aurélio BrasilBaratos