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Bons e velhos tempos?

“O mundo entrou na igreja!” Imagine essa frase com uma música de filme de terror e o quadro O grito, de Munch em resposta.

Eu assisti essa cena milhares de vezes em minha vida de cristão: defensores dos bons e velhos tempos denunciando as alterações de formas. Curiosamente, a cena se repetiu pouquíssimas vezes no sentido contrário. Não vi muita gente reclamando do fato de que “a igreja não entrou no mundo”. Ora, entrar no mundo é exatamente a vocação e missão da igreja.

Isso é que vocês são

Isso é que vocês são

Na última semana argumentei que talvez as bem aventuranças, com a qual o sermão do monte começa, sejam menos uma lista de características dos santos e mais uma indicação de quão acessível e presente está o Reino de Deus. Bem, logo na sequência Jesus afirma: “Vocês são o sal da terra. Mas se o sal perder o seu sabor, como restaurá-lo? Não servirá para nada, exceto para ser jogado fora e pisado pelos homens. Vocês são a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte.” (Mateus 5:13 e 14)

Sal e luz são coisas diferentes. O sal é (deve ser) discreto. A luz é histriônica, impossível de se ignorar. O sal conserva e realça o sabor próprio do alimento. A luz torna o entorno perceptível, evita a queda e os tropeções.

E os defensores dos bons e velhos tempos usam esse texto como evidência de que o cristão precisa ser diferente do mundo, quando não é isso que Jesus está falando. Primeiro, Ele não diz que temos que nos esforçar para ser algo. Todos que acessam o Reino de Deus já são o sal e a luz. Jesus está advertindo não contra não nos esforçarmos muito para ser algo, mas contra a possibilidade de perder uma característica que já temos (o sal se torna insípido pela contaminação com agentes degradantes, a luz deixa de iluminar por ser deliberadamente escondida embaixo da cama).

E como é que nós, que ingressamos no Reino, salgamos e iluminamos o mundo? Com nossa esquisitice? Vestindo uma roupa diferente, se mantendo longe dos mundanos, fazendo questão de mostrar que comemos uma comida mais pura e ouvimos uma música mais santa? Não. Com nosso espírito manso, pacificador, com nossa sede de justiça e aqueles elementos presentes no Reino, segundo as bem aventuranças. Com nossa imitação do Mestre. “Nisso conhecerão todos que vocês são meus discípulos: se tiverem amor uns pelos outros” (João 13:35).

A tragédia do sal é não cumprir sua vocação e missão de salgar, não de ser “parecido com a comida”. Uma vez ingressando no Reino, já somos radicalmente diferentes, já somos as novas criaturas de que fala Paulo (II Coríntios 5:17). Viemos das trevas para a luz, deixamos o estado de morte espiritual para a vida e o batismo do Espírito Santo. Essa diferença vem de dentro para fora, não o contrário, e é muitas vezes sutil, e se revela muitas vezes apenas no momento em que o cristão com a possibilidade de agir de forma egoísta imita Jesus. A tragédia da luz é ser tapada com medo de ser contaminada pela escuridão.

Desculpem-me os defensores dos bons e velhos tempos, mas nos bons e velhos tempos as pessoas morriam de fome e sede por falta de sal e de luz e ninguém parecia reclamar daquilo contra o que o Mestre advertiu. Elas estão morrendo hoje também, então que tal direcionar seus canhões de crítica contra o que realmente merece ser criticado?

Marco Aurélio BrasilBons e velhos tempos?

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