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Confesso que não sei

Durante muito tempo tive de vergonha de admitir que existem coisas que não sei, no que diz respeito à fé. Afinal de contas, “não sei” é uma resposta muito pouco frequente nos lábios dos cristãos. Parece haver resposta para tudo. Não me lembro de um pastor, por exemplo, capaz de dizer “não sei” a uma pergunta.

Admitir que tenho dúvidas, portanto, seria um auto-atestado de falta de fé ou de fraqueza espiritual. Eu não canto que “a fé expulsa as trevas d’alma”? Em um mundo racional como aquele no qual vivo, reconhecer que existem zonas cinzentas no campo de minhas convicções pode indicar que o edifício das minhas convicções mais importantes está firmado sobre a areia movediça e pode desabar ante um simples piparote.

Foi só mais recentemente que passei a conviver melhor com o fato de que tenho dúvidas sim e vou continuar a ter por um tempo indeterminado cujo fim só Deus sabe. De uma forma curiosa, foi ao
aceitar algumas dúvidas e seguir andando que isso aconteceu, porque dentre estas dúvidas que ficaram hibernando aqui dentro, muitas se dissiparam com o tempo ou alcançaram respostas que quando foram formuladas eu possivelmente não estaria maduro para apreender.

Concluí que fé não é antítese de dúvida. O conceito clássico de fé, cunhado em Hebreus 11:1, diz que ela é “o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que se vêem”. Pois bem, se
tomarmos como conceito de dúvida a falta de comprovação científica quanto a algo, ou a falta de evidências cientificamente indiscutíveis, então teremos que concluir que fé pressupõe dúvida. A fé acontece quando não vemos, quando ainda estamos esperando acontecer. Para haver fé, portanto, é preciso haver dúvida ou algum elemento de incerteza, caso contrário não será fé.

Entender isso me ajudou a parar de me debater pedindo sinais inequívocos a Deus. Percebi pelos exemplos bíblicos que eles não ajudam a fomentar fé, mas muitas vezes são respostas a ela. Parei
também de julgar minha fé como indigna de muito crédito pelo fato de que há coisas que ainda não entendo, há coisas que são mistérios.

Acho que é por essa relação estreita entre fé e ausência de elementos inequívocos e palpáveis que o nosso mundo hoje se relaciona tão mal com a fé: ele tem certezas demais.

Ao longo da Bíblia toda vejo uma mesma dinâmica sendo repetida à exaustão: Deus pedindo não que eu tenha respostas, mas que tenha fé. É por isso que minha experiência pessoal passada, as evidências subjetivas que recebi além de todo o aspecto objetivo relacionado com a harmonia da Bíblia e o cumprimento exato de suas porções proféticas, tudo isso são indicativos suficientes de que estou firmado no solo que Deus preparou, na estrada que conduz a vida eterna. Fé não é o contrário de dúvida, mas de desconfiança. Tenho fé porque confio e oro para que Deus me ajude a permanecer confiando.

Marco Aurélio BrasilConfesso que não sei

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