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Contra a correnteza

O iluminismo estabeleceu o imperativo de dissociar nossas ciências humanas da religião. O direito precisou abandonar o magistério do “direito natural” (a ideia de que existe uma norma absolutamente justa e que o papel do Direito é buscar alcançá-la), o que deu espaço para a chegada do positivismo. A moral deslocou-se da fé e foi estabelecida no solo muito mais instável do espírito evoluído da civilização ocidental. Não admira que a moral tenha mudado tanto nos últimos 200 anos.

Gilles Lipovetsky, em A sociedade pós-moral, observa que na virada do século XIX para o XX, embora se rejeitasse nos meios cultos qualquer ideia de um Deus que tenha uma lei moral, imperava o culto ao dever. Todo cidadão civilizado tinha deveres para com o próximo, para com a pátria. Uma vida de autosacrifício era requerida de todos. Mas isso durou apenas até meados dos anos 1970, quando a sociedade de hiperconsumo se instalou e, com ela, uma nova era de individualismo extremo. “A nova era individualista conseguiu a façanha de atrofiar nas consciências a alta consideração de que desfrutava o ideal altruísta, redimiu o egocentrismo e legitimou o direito de viver só pra si.””Ao mesmo tempo em que, de todos os lados, se ergue o clamor de angústia pela degenerescência moral, a época atual renegou a fé no imperativo de viver para o próximo, no ideal preponderante de lhe prestar serviço”. 

O autor francês enxerga nos Criança/Esperança e Teletons da vida uma confirmação disso. O ato de doar integra uma agenda radicalmente diferente da que vigorava na sociedade ainda profundamente influenciada pelo cristianismo.Hoje, é um sintoma de boa educação você respeitar o diferente, mas não se espera, ninguém cobra, que você se sacrifique por ele.

Enquanto isso, não muito longe dali, temos Cristo. Nadando vigorosamente na contracorrenteza. Nos chamando para fazer o mesmo. Como observou Ed René Kivitz, todo mundo que descobre que o pai é nosso, descobre na sequência que o pão também é nosso. E não guarda pra si, não come com a volúpia obesa da fartura sem propósito. Temos, portanto, amigos, a ênfase necessária em nossa pregação para este tempo em que vivemos!

O mundo hipermoderno caminha a passos largos para longe da ética de Jesus. Mais que nunca, este mundo precisa de alguns bons homens e mulheres dispostos a viver a Vida para que os que nos rodeiam sintam a nostalgia do Reino.

 

Marco Aurélio BrasilContra a correnteza

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