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Depois do deserto

Você já conhece o Davi poeta, o Davi guerreiro, o Davi devoto e até o Davi pecador, mas já pensou no Davi estadista?

A primeira coisa que ele fez quando foi coroado rei após a morte de Saul, foi tomar Jerusalém, que até então era um reduto jebuseu no meio de Israel. Nessa empreitada, não usou nenhum exército de Israel, mas seu próprio grupo de mercenários que o acompanhara durante todo o período em que, perseguido por Saul, ele vagara pelos desertos de Judá e pela terra dos filisteus. Em Jerusalém Davi fincou sua capital e logo em seguida, depois de consultar os príncipes das doze tribos, trouxe para a mesma Jerusalém a arca da aliança.
A Bíblia relata esses fatos mas não comenta as razões desses atos. É preciso ler o que não está escrito, mas implícito. O fato é que a unidade de Israel era precária. Judá era uma tribo destacada, e seu quinhão isolado ao sul de Canaã não ajudou muito a integrá-la mais. Na política israelita, o fato de supostamente Deus haver ungido a Davi como seu rei não parecia um argumento tão forte para que todos se unissem ao seu redor. Sempre havia um ou outro líder de olho no trono, nem que fosse num trono regional. Expulsando um povo remanescente da conquista cananita e estabelecendo sua capital ali, Davi estava dando uma tacada de mestre, dizendo a Israel que não era o rei dos judeus, mas de Israel inteiro. Fazendo da capital política a religiosa, ele sacramentou essa posição, garantindo a fidelidade de todo Israel.
Na sequência ele se volta contra a principal potência militar da época, que tanto assolara Israel na época dos juízes e de Saul, seus ex-aliados, os filisteus. Suas vitórias sobre eles, agora com o exército completo de Israel, foram tão contundentes que os filisteus logo somem do relato bíblico e histórico, mergulhando na irrelevância. Aquilo permitiu que Davi estabelecesse um projeto de país, e não que ficasse apenas apagando os incêndios e reagindo às provocações de nações vizinhas. Isso inaugurou o período de ouro de Israel.
Ao ler esses primeiros anos do agora rei Davi, só se vê acertos estratégicos e vitórias fantásticas. Mas esse período sucedeu a um logo período, de talvez dez ou doze anos, como fora-da-lei, habitando cavernas, atuando como mercenário, angustiado com a ingratidão e o ódio do rei Saul. Os dias de deserto desembocaram em um rei sábio e corajoso.
Pode parecer masoquismo, mas em lugar de pedir para Deus espantar nossos dias de deserto, a lógica extraída dos exemplos bíblicos nos deveria fazer pedir por eles. Na pior das hipóteses, deveria nos ensinar a confiar em Quem conhece o fim dessa estrada, quem está olhando a paisagem de cima.
Marco Aurélio BrasilDepois do deserto

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