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Desfecho (in)esperado

A vida por vezes envergonha os roteiristas e escritores por sua criatividade superior. Ela inventa desfechos inusitados para as tramas.

Quando eu visitei pela primeira vez o Zoológico de São Paulo, com, sei lá, oito ou nove anos, o primeiro animal visitado (ficava, não sei se ainda fica, no primeiro espaço à esquerda do portão principal) foi um bichinho simpático parecido com uma lontra chamado ariranha. Foi olhando para as ariranhas que minha mãe me contou a incrível história acontecida talvez meses antes em Brasília, do garoto que caiu no poço das ariranhas. “Não se engane”, ela advertiu olhando com aquele olhar de quem conta uma história de terror à beira de uma fogueira de acampamento, fazendo meus pelos e do meu irmão se arrepiarem todos, “a ariranha é um animal mortífero.” Ela disse que um militar aposentado que presenciou a cena prontamente se jogou para dentro da jaula, lançou o menino para fora mas levou tantas mordidas das ariranhas que não resistiu e morreu.
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Eu instintivamente recuei um pouco para dar um novo olhar às ariranhas mais de longe um pouco.
Você calcula o impacto de uma tal história de heroísmo na cabeça de uma criança de oito anos. Aquele homem não pestanejou nem hesitou e deu sua vida pela de um completo estranho. Uau!
Mas a vida, amigos, é criativa. E tem uma criatividade meio à la George R. R. Martin, ou seja, cruel. No último dia 24/06 aquele menino, salvo por um estranho, retornou aos noticiários. Ele viveu e cresceu para se tornar o respeitável senhor Adilson Florêncio da Costa, ninguém menos que o diretor do Postalis, o poderoso e multimilionário fundo de pensão dos funcionários dos Correios. E o nome do sr. Adilson apareceu porque ele foi preso na Operação Recomeço da Polícia Federal, acusado de desvios gigantescos.
Mutatis mutandis, é como se o soldado Ryan, a quem o personagem de Tom Hanks morre dizendo “faça valer a pena!”, voltasse para os Estados Unidos depois da guerra e se tornasse um gângster, um estuprador, um pedófilo ou qualquer coisa do gênero.
Oh, sim, eu fico indignado. Mas só até chegar à frente do espelho, quando não consigo evitar a pesada pergunta: será que eu estou fazendo diferente? Afinal de contas, um estranho, Alguém que não precisava se colocar na linha de tiro, Se jogou, há dois mil anos atrás, na jaula onde eu seria devorado e Se deixou devorar no meu lugar.
A vida é muito criativa. Só que está nas minhas mãos dar um final mais clichê a essa trama. Um final no qual o gesto de heroísmo recebe o devido sinal de gratidão e amor. Um final no qual minha aceitação de Seu gesto o faça ter valido a pena. É por isso que hoje oro.
Marco Aurélio BrasilDesfecho (in)esperado

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