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Gratia

Se, como vimos semana passada, temos problemas com o primeiro lema da reforma protestante, o sola scriptura, nem preciso falar do segundo. Adventistas tem uma treta história mal resolvida com o sola gratia.

A igreja adventista vicejou em um contexto eminetemente protestante. Pessoas que pregavam o sola gratia havia três, quatro gerações inteiras. Quando alguém apontava aos dez mandamentos, a reação natural de qualquer pessoa crescida nesse ecossistema era a de dar de ombros e responder coisas como “a letra mata mas o espírito vivifica”, ou “não estais mais debaixo da lei”, sem atentar à mostruosa incoerência que seria preservar nove mandamentos mas abolir um que não fora expressamente revogado nas Escrituras. Dessa forma, o movimento adventista do sétimo dia se sentiu portador de uma missão muito nobre, entre outras: a de reposicionar a lei a seu devido lugar.
É claro que por esses movimentos pendulares típicos da raça humana, ao enfatizar a perenidade e validade da lei, começou a haver confusão sobre o papel da lei, sobre a sua finalidade. Ainda ontem ouvi alguém dizer que quando nós nos conformamos à vontade de Deus buscando a perfeição (o que envolve cortar laços com tudo que é “do mundo”, qualquer objeto cultural que apresente elementos não facilmente identificáveis como sacrossantos), as coisas começam a acontecer. Embora essa não seja a pregação da igreja adventista, é o modo de pensar típico de grande parte de seus membros.
Sola gratia, o lema reformado com o qual a igreja adventista oficialmente concorda integralmente afirma que a salvação é unicamente pela graça. Philip Yancey começa seu clássico Maravilhosa Graça (um livro que todo cristão deveria ler) afirmando que “graça” é uma das poucas palavras da língua inglesa que preserva seu sentido unívoco (diferentemente de amor, por exemplo). Bem, não podemos dizer o mesmo. Em português, uma coisa cheia de graça pode ser algo bem diferente dependendo do contexto. A graça sobre a qual Paulo escreveu em Romanos e Gálatas, a graça que Jesus Cristo personificou perfeitamente, é algo que é feito em favor de alguém antes de qualquer sombra de merecimento. É o pai que faz a festa para o filho pródigo que não merecia. É a ovelha perdida que custa o risco fatal corrido pelo pastor. E não existe um cabelinho sequer de mérito humano no que vem na sequência, Ele é quem opera o querer e o efetuar.
O que fez Lutero interromper sua subida de joelhos pela escadaria da Basílica de São João Latrão em Roma, em 1511, e descer os degraus envergonhado, foi a descoberta de que nada que ele pudesse fazer, nenhuma conformação comportamental, nenhuma penitência, nenhuma atitude ascética, nenhuma obra de caridade, nenhum sacrifício próprio, nada que ele fizesse poderia tornar o sacrifício de Cristo em seu favor melhor ou mais bem acabado. Ou, como escreve Yancey com rara felicidade, resumindo a mensagem da graça: nada que você faça pode fazer Deus o amar mais. Nada que você faça pode fazer Deus o amar menos.
Faça um teste para ver se você entendeu o que realmente significa sola gratia. Sua vida transborda gratidão, maravilhamento e anseio por viver da forma que melhor agrada o Deus de toda graça? É isso o que essa mensagem pregada há 500 anos faz com a gente…
Feliz sábado, @migos!
Marco Aurelio Brasil, 27/10/17
Marco Aurélio BrasilGratia

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