Últimas Publicações

Guerra e Paz

A experiência de servir no exército alemão durante a primeira guerra mundial deixou cicatrizes profundas em Erich Maria Remarque. Muitos anos depois do último estampido de granada nos ouvidos, ele ainda lutava com a insônia e com fantasmas. Foi para exorcizá-los que começou a anotar memórias do que viria a ser mais tarde o mais importante romance pacifista do século XX, Nada de novo no front, que lhe valeu a perseguição pelo regime nazista e o fez fugir para os Estados Unidos.

Entre as muitas cenas impressionantes descritas pelo autor, ele, dado momento, narra o grupo de soldados recém chegados da frente de batalha, após haverem vivenciado os mais repulsivos acontecimentos e haverem assistido à morte de dezenas de companheiros, parando frente a um cartaz de uma companhia teatral que havia passado por ali há muito tempo e que mostra uma garota bonita num vestido simples com um mar azul atrás.

Ele escreve: “a garota do cartaz constitui, para nós, um milagre. Havíamos esquecido totalmente que no mundo existem coisas assim, e, mesmo agora, quase não acreditamos em nossos olhos. Há anos que não vemos nada parecido, nem qualquer coisa que de longe mostre tanta beleza, tanta felicidade e tanta calma.”

Ao deixarem a paz e mergulharem na lama, cercados pela violência e pela dor; ao acostumarem-se à aparente morte da esperança e ao considerarem o viver ou morrer como obra do acaso, dar de cara com um pedaço de mar azul e uma bela mulher a sorrir estampados no papel lhes parece inverossímil. O mundo não é aquilo, pelo menos não mais. É preciso uma longa contemplação até resgatarem dentre de si o conceito de paz, de tranqüilidade, de segurança.

Creio que seja por uma razão análoga que ao encontrarmos um desvão do Céu, uma imagem de ruas de ouro com pessoas vivendo em paz perfeita, custamos a acreditar. A primeira reação é achar tolice, pois nós também estamos imersos na violência, na falta de caráter, desviando de bombas e vendo os queridos despedaçados há muito tempo.

Mas o fato é que existe o mar azul, como existe um mar de vidro misturado com fogo. E para tornar à trincheira tendo dentro do peito o mais valioso que um soldado pode ter, a esperança, é preciso contemplar o desvão do Céu que nos é dado com avidez, longamente, sem pressa, buscando respirar aquela atmosfera. É preciso familiarizar-nos com a paz para que ela não nos machuque quando o último tiro houver sido dado e ecoar pelo Universo o “está consumado”.

Graças a Deus, que fez questão de nos mostrar os desvãos do Céu e de garantir que eles nos fossem mostrados de tempos em tempos. Olhe em volta. Não há nenhum aí, agora?

Marco Aurélio BrasilGuerra e Paz