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Ladeira abaixo

Li em algum lugar o depoimento de uma americana sobre sua infância. Ela contava que quando tinha cinco anos ficava verde de vontade de imitar seus irmãos e descer uma ladeira coberta de neve no trenó, mas nunca permitiam que ela fizesse isso porque era pequena demais.

Um dia ela acordou e sentiu-se infinitamente maior que no dia anterior. Ela estava sentindo que “ficar grande” não poderia ser outra coisa qualquer senão o que ela tinha experimentado naquela noite. Intuía, contudo, que sua mãe dificilmente concordaria com essa constatação assim, tão científica, cabeça dura que era, e então decidir fazer a coisa às escondidas. Pegou o trenó e se embarafustou ladeira abaixo. Sua mãe só percebeu quando ela voltou chorando, toda ralada e machucada. Apesar de ter sido advertida milhões de vezes de que aquilo não era coisa pra se fazer, a mãe abriu os braços e tratou de mitigar sua dor.
dodoi
Escondida nessa historinha encontro a razão pela qual entendo que Cristo diz que o reino dos Céus é das crianças e que quem não se tornar como uma não verá a salvação. É que nossa estúpida racionalização adulta, da qual tanto nos ufanamos, torna absolutamente impossível que, ao nos encontrarmos em situações que tais, contra as quais recebemos zilhões de advertências, ao nos flagrarmos ralados, moídos, ensanguentados, em farrapos e sem forças, corremos para todos os lados, desde que não seja para os braços do Pai, já que temos vergonha de mostrar que não só não confiamos na Sua ideia de segurança, como a nossa ideia se revelou um perfeito fracasso! Temos vergonha e orgulho e fugimos do Seu olhar.

Não fume. Não pratique o sexo fora das seguras raias do casamento. Não solte a Minha mão. Não deixe de buscar a Minha palavra dia após dia. Não descuide de sua saúde. Não descuide da harmonia da sua família. Para cada conselho achamos algumas ressalvas e exceções bastante razoáveis. Nossa própria ideia de segurança e de riscos que valem a pena ser corridos nos convence fácil fácil, e é nessas horas que, inda que mudos, estamos dizendo a Deus: ok, eu sei o que você pensa a respeito desse assunto em particular, mas entendo que nesse ponto específico você, Deus, está enganado. Eu vou agir contrariamente ao teu conselho e depois, no mais conta comigo. E lá
estamos nós, em frangalhos, chorando, partidos e sozinhos.

Não interessa o Pai com compaixão nos olhos, os braços estendidos em formato de cruz para nos receber e para nos dar o eficaz remédio, nós fugimos dEle por puro orgulho. Fugimos do Único que pode resolver de fato a situação. Lançamos mão de paliativos, tomamos placebos.

Nunca esse chavão foi tão oportuno: não permita que “a criança que existe em você” morra. Evite as ladeiras para as quais você foi avisado a não pisar, mas se as pisar e se encontrar machucado lá em baixo, corra para o Pai. Mais que ninguém Ele nos quer curados.

Marco Aurélio BrasilLadeira abaixo

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