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O abismo entre nós

“Abismo digital” é o nome que se dá à distância intransponível entre conectados e desconectados. Não ter acesso de qualidade à internet em tempos de Sociedade da Informação praticamente condena o excluído digital de qualquer chance de competir como força de trabalho em um pé de mínima igualdade com os demais e, consequentemente, de alcançar todos aqueles valores que constam da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Mas, como qualquer outra benção, a inclusão também pode se tornar uma maldição, dependendo de como a usamos.

A série documental Dark Net explora os efeitos sombrios da rede mundial. Em seu primeiro episódio, nos apresenta à menina que teve nudes espalhados pela Internet pelo ex-namorado, aos homens solitários que estão se relacionando com uma personagem virtual de um jogo japonês (e com isso perdendo qualquer interesse em relações com pessoas de verdade) e ao sujeito que, exposto à pornografia na rede desde os 12 anos, agora só se satisfaz em uma relação de dominante-dominado em que ele é o dominado, no caso, por uma menina a centenas de quilômetros de sua casa, que recebe avisos toda vez que ele sai de casa e chega no trabalho, que sabe quantas calorias ele come por dia, que consegue acompanhar seus passos via GPS e exige coisas como fotos de joelhos no meio do dia, que ele use uma espécie de cinto de castidade e outras bizarrices. Esse rapaz participa de uma rede social só para quem tem algum tipo de fetiche como esse e se diz plenamente satisfeito com a relação humilhante que tem.
Esse retrato é só mais uma evidência de que vivemos em um mundo de relacionamentos doentes e a Internet parece não ter ajudado nada nisso – ao contrário. Nos inebriamos com likes e coments e aplaudimos o fato de agora poder ver a vida que leva amigos que moram longe e saber o que conhecidos estão comendo. Ao mesmo tempo, cultivamos uma relação absolutamente utilitária com as pessoas mais próximas. Quando um relacionamento não está satisfazendo e atendendo aos nossos propósitos, o descartamos. Jantamos em família com os olhos pregados no celular e esperamos sempre tanto mais dos outros.
Estamos vivendo o ápice de uma revolução que nos levará sabe Deus para onde. A inversão dos paradigmas é gigantesca, quer você concorde ou não com eles. Como escreveu o padre Fabio Melo esses dias: “querem que os padres se casem e os casados se divorciem. Que os héteros tenham relacionamentos líquidos, sem compromisso, mas que os gays se casem na igreja. Que as mulheres tenham corpos masculinizados e se vistam como homens e assumam papeis masculinos. Querem que os homens se tornem frágeis… Uma criança com apenas cinco ou seis anos de vida já tem o direito de decidir se será homem ou mulher pelo resto da vida, mas um menor de 18 anos não pode responder pelos seus crimes…” E sendo esses novos paradigmas seus ou não, se o rapaz que se submete a uma dominadora a centenas de quilômetros se diz satisfeito, isso é liberdade e é bom.
Durante algum tempo a igreja cristã acreditou que precisava fazer programas sensacionais para atrair pessoas, verdadeiros shows. Mas não é isso o que temos para oferecer, especialmente se qualquer pessoa tem dispositivos no bolso que num clique os brindam com shows muito mais fantásticos do que qualquer um que possamos fazer com nossa mão-de-obra voluntária. Só temos relacionamentos genuínos, com seus aspectos bons e os malcheirosos também. Isso é discipulado, isso é pregar da forma certa, em testemunho a todas as gentes, vivendo perto delas e olhando em seus olhos. E o mundo à nossa volta está ávido por isso.
Mas não vamos conseguir dar aquilo pelo que as pessoas ao redor estão morrendo enquanto estivermos com os olhos pregados no nosso celular, esperando o próximo like.
Marco Aurélio BrasilO abismo entre nós

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