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O abismo

Semana passada escrevi aqui sobre essa tendência humana a querer estar melhor que os demais, a não querer de bom grado dividir com a torcida do Corinthians status e privilégios alcançados. Contudo, a igualdade, incensada como um dos valores-mestres a serem perseguidos desde a Revolução Francesa, continua sendo o ideal a ser perseguido nos discursos dos povos civilizados.

No segundo filme de sua clássica trilogia sobre os lemas da Revolução Francesa e as cores de sua bandeira, Krzistof Kieslowski parece concluir que a igualdade em geral só é alcançada na miséria; só nivelando por baixo é que ela é possível. Mas temos meia dúzia de países que desmentem isso. As nações mais desenvolvidas são aquelas em que 100% dos cidadãos têm acesso ao mesmo sistema de saúde e de educação.  A igualdade é uma necessidade do desenvolvimento. A desigualdade emperra o desenvolvimento, e essa percepção ultrapassa qualquer viés ideológico, é uma constatação empírica.
Com a revolução digital provocada pelas tecnologias da informação, parecia que esse problema estaria solucionado em algum momento. Chips cada vez mais potentes e mais baratos e a rede mundial de computadores levaram museus, jornais e teses de doutorado, primeiro para dentro das casas, depois para os celulares de uma enorme massa de pessoas. E isso foi lindo. Mas os primeiros 20 anos da Sociedade da Informação mostram que a riqueza está cada vez mais concentrada, não menos. Mostram que o acesso de qualidade à Internet cria um verdadeiro fosso para com o ainda gigantesco contingente de pessoas que não têm isso, o que vem sendo chamado de “abismo digital”. Assim, aquela meia dúzia de países mais iguais tende a levar essa igualdade para ainda mais longe e acima da desigualdade que reina fora de suas fronteiras, possivelmente condenando-os a uma eternidade-em-termos de uma existência menos digna.
Quando abro a Bíblia percebo que Kieslowski está meio certo. O primeiro passo para a igualdade ideal é reconhecer e admitir uma miséria universal, à qual a Bíblia chama de pecado. Curiosamente, quando se admite esse estado de coisas, quando se admite a condição de miserável, pobre, cego e nu, quando se ouve as batidas insistentes à porta e se a abre para que Jesus Cristo entre, todos, 100% dos homens, têm acesso ao ouro, às roupas de festa e ao colírio. E à mais digna de todas as existências.
E se continuo com minha Bíblia aberta, noto que, mesmo agora ciente de que a igualdade é um ideal que só vai se realizar escatologicamente, minha missão de vida passa a ser lutar contra toda forma de desigualdade já aqui, porque mais que ter saúde e educação de primeira linha, uma existência digna de fato é a que se vive em amor por quem está ao meu alcance.
Feliz sábado, @migos!
Marco Aurelio Brasil, 30/06/17
Marco Aurélio BrasilO abismo

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