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O aroma do Céu

Quem quer perfeição? Minha esposa, que é enfermeira, narrou a conversa que ouviu no hospital certa vez: uma médica queixava-se a um colega de ter que fazer determinada tarefa, ao que ele respondeu que, se ela não fizesse, não iria para o Céu. Ela, então, retrucou dizendo que isso seria ótimo, porque o Céu devia ser muito chato.

No filme Matrix, a realidade seria uma ilusão criada por um imenso computador, e essa “realidade irreal” seria propositadamente imperfeita, porque seres humanos não conseguiriam viver bem em um ambiente perfeito. Como Ulisses, vestido de vestes riquíssimas, comendo a comida dos deuses em uma ilha paradisíaca e dividindo a cama com a belíssima deusa Calipso, mas sempre suspirando por sair dali.

Seríamos mesmo incompatíveis com a perfeição? Haveria algum gene em nossa formação que nos poria ao avesso do paraíso? Seríamos fadados a tentar achar uma felicidade fugaz, relativa, dolorida e esquálida por entre um universo entrópico, por entre a sujeira, a incompletude, a solidão, a dor e a fome? Ao pararmos para lembrar dos momentos de gozo passados, parece que somos forçados a concluir com Vinícius de Morais: tristeza não tem fim, felicidade sim, porque mesmo a mais doce felicidade acaba passando, acaba enjoando, acaba perdendo a força.

Pois bem, acontece que Deus é amor. Está lá (I João 4:8), é a definição mais exata do que Ele é. A coisa interessante a respeito de ser amor é que tudo aquilo que quem é amor faz acaba sendo amor também. É impossível para quem é essencialmente amor fazer desamor. Amor é mais que uma virtude, faz parte do núcleo do ser, é princípio, ele dita os atos. Logo, a realidade sonhada por Deus é exatamente aquele estado de enlevo que a gente flagra de quando em quando em pessoas muito apaixonadas, só que eternamente. O Céu não pode ser chato, na medida em que foi pensado pela encarnação do amor! Quem amou, sabe.

Experimentando esse tipo distinto de gozo, calcado na esperança do amor continuado, do amor sem fim, temos o privilégio de conhecer já aqui um tipo de alegria incomum. Podemos experimentar paz, podemos respirar o ar do Céu, que faz com que a lógica se inverta: tristeza tem fim, a felicidade genuína não.

O Céu só é chato para quem não sentiu o seu aroma já aqui.

Marco Aurélio BrasilO aroma do Céu

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