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#o estranho colorido

Quatro horas da manhã, na escuridão do unaspício, numa fria manhã de inverno, acordo de repente, bastante assustado. Vejo claramente: vou morrer. Eu vou morrer. Este corpo, esta mente, este mito vivido e vivente (sim pode rir, agora), este aluno, estagiário, marido, filho e amigo deixará de existir. Um estranho sentimento de distância toma conta de mim. Minha esposa, a meu lado na cama, parece completamente fora de alcance. Amigos parecem-se, neste momento, com vagas memórias de pessoas que cheguei a conhecer certa vez. Meu trabalho, meus colegas, minhas ambições, meus sonhos e projetos empolgantes parecem ficção. A “vida real”, de repente, assemelha-se a um sonho passageiro. Na estranha solidão deste momento, definido pela certeza da morte, eu acordo para os verdadeiros fatos da vida… foi só um sonho ruim. Naquele momento de solidão sem precedentes, aos 31 anos de idade, dei comigo olhando fixamente para dentro do abismo de mistério que cerca nossas vidas.

Como nunca antes, me encontrei perguntando: “Quando todas estas pessoas, relações e projetos que dão forma e preenchem a minha vida são removidos, o que ou quem resta? Quando este meu corpo lindo pára de funcionar, há – haverá – algum eu? Quando este alguém que sou eu entrar nas densas trevas, continuará a existir esta consciência, este eu sou, ou não? E se continuar, quem virá ao encontro de mim por lá? Que continuidades existirão entre estes dias e anos cheios e fugazes que experimento e saboreio?”.

Se você tivesse me encontrado um dia antes disto ter acontecido, você teria chegado a conhecer alguém que se compreendia – e era compreendido por outras poucas pessoas – como um homem de fé. Um cristão, um ministro, um aluno de Teologia, um aconselhador, sim, mesmo uma testemunha de sua fé. Mas depois daquele momento, mesmo que por alguns segundos, eu a olhava como alguém olharia para um casaco pendurado no canto oposto de um quarto. Durante aqueles momentos eu não estava em minha fé. Eu parecia estar completamente nu – uma alma sem corpo, roupas, relacionamentos ou funções; apenas uma alma com… com quê? Com quem?

Depois desse momento, sou convocado a examinar profundamente os padrões de confiança e comprometimento que conformavam e sustentavam minha vida. Sou convidado a reviver minha própria peregrinação na fé.

Desejo sublinhar a amplidão e o mistério da fé. Tão fundamental que nenhum de nós pode viver bem por muito tempo sem ela, tão universal que, quando nos movemos abaixo dos símbolos, rituais e padrões éticos que a expressam, a fé é, reconhecidamente, o mesmo fenômeno em cristãos, marxistas, hindus e até ateus; contudo, ela é tão infinitamente diversificada que a fé de cada pessoa é única; a fé é inesgotavelmente misteriosa. A vivacidade e o crescimento contínuo na fé requerem autoexame e disposição para o encontro com as perspectivas de fé de outras pessoas.

Junte-se a mim na séria brincadeira de examinar e viver na perspectiva da fé, em seus movimentos e nas suas transformações; e claro, nos tropeços e acertos, seus aspectos únicos e seus estágios previsíveis.

Porque no evangelho é revelada a justiça de Deus, uma justiça que do princípio ao fim é pela fé, como está escrito: “O justo viverá pela fé”. Romanos 1:17

Adriano Vargas#o estranho colorido