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O Menino-Passarinho

Enquanto os pais pescam, crianças passam o dia subindo em árvores, tanto para brincar como para pegar frutas - Fernando Borges-SalvaVidasAmazôniaO conhecido bairro de Higienópolis em São Paulo recebeu nesses dias um morador indesejado. Um menino-passarinho. Saído do interior do Rio de Janeiro depois da morte de seu pai e do desaparecimento de sua mãe, o menino chegou à cidade. Afirmando estar acostumado às árvores, instalou-se no alto de uma das muitas encontradas no bairro, local onde dorme, deixando os moradores em polvorosa.

Entre as declarações dos locais, pode-se ouvi-los confessar atingidos pela atitude do menino, contudo sem se atribuírem qualquer preconceito; afirmam que a rua é um postal para as pessoas e, mesmo que ele não tenha feito nada que o desabone, o passarinho, digo, o menino pode ser uma ameaça, segundo a opinião dos que o querem longe dali. Entre muitos, há quem tenha sugerido derrubar a árvore.

O ponto alto se deu alguns dias depois, com a chegada da polícia (para quem não precisa, pois o caso seria do Conselho Tutelar) que aconselhou o menino a deixar a rua. Ao se recusar foi prontamente agredido pelos moradores…

Nesse dia, voou acuado, mas voltou, sem qualquer arrogância ou retaliação, pois segundo ele, acha a rua bonita. O menino-passarinho está protegido por Organizações que defendem o direito das crianças. Alguns moradores têm lhe dado atenção, conversando com ele. Ele carrega consigo uma enciclopédia de mágicas, mas como não sabe ler, espera que alguém lhe ensine algum truque. Ao dizer sonhar com uma família, seja de onde vier, encontrou alguém disposto a adotá-lo.

O que (ainda) impressiona é que em um lugar como aquele, habitado por pessoas aparentemente educadas e que se dizem instruídas pelas escrituras que ensinam o amor como a base para todos os atos, lição ao que parece bastante relativizada nestes tempos, tenham tão poucas sugestões que façam meninos como o passarinho, acreditarem que há gentileza e amor no mundo, fazendo-os descer das árvores para lhes retribuir com as lembranças do já esquecido mundo onírico de uma criança, mesmo abandonada.

Talvez seja esse o melhor “truque mágico” que poderiam lhe ensinar: atenção, gentileza e amor. Porém, é notório que essa capacidade falte aos adultos, sobretudo aos que se agarram às religiões sem se deixar modificar pelo cerne que as justifica. Amor. É possível que os filhos desses encastelados moradores sejam os únicos que entendam o menino-passarinho, não causando surpresa se, quando dormem, sonhem poder subir aquela árvore para brincarem juntos.

É possível que esses pequenos príncipes, desde pequenos aprendam a se calar diante das posturas de seus pais e, assim, cresçam modificando seus conceitos mais puros, tornando-se reis que preferem derrubar uma árvore, a compreender a necessidade de um passarinho.

Quem recebe uma destas crianças em meu nome, está me recebendo”. (Mateus 18)

Sadi – Um Peregrino da Palavra

Foto na Amazônia, por Fernando Borges.

Sady FolchO Menino-Passarinho

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