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O que a distância faz…

Aquilo não lhe parecia vida. A vida de verdade parecia estar sempre distante. E uma coisa se interpunha entre ele e a vida: o fato de o pai ainda respirar. Como irmão mais novo, ele teria direito a um terço da herança de seu pai, mas pedir que ela lhe fosse transmitida estando ele ainda vivo era o mesmo que dizer “eu preferiria que você estivesse morto!” A atitude do pai é sempre surpreendente. Em lugar de dar aquilo que o filho merece, ele respeita sua liberdade; a liberdade de acalentar o desejo de que ele próprio estivesse morto, inclusive.

O filho mais novo cuspiu no rosto de seu pai. Sua atitude foi ofensiva, desrespeitosa, típica de quem já não liga a mínima para o relacionamento com o pai ou o que as pessoas daquela terra vão pensar dele, típica de quem vai com a firme intenção de jamais voltar. Mas ele volta. Humilhado, maltrapilho. Em seus farrapos e havendo sofrido a fome, aquele rapaz já nem se parece mais filho daquele homem. Ele cheira diferente. Ele tem um sotaque diferente. Ele exala uma ética distinta da do pai. Toda aquela figura ostenta uma escala de valores que não se encaixa à do pai. Ainda assim, o pai segue surpreendendo. Ele puxa as vestes para cima desnudando suas pernas em público para conseguir correr. E ele corre na direção do rapaz. Encurtar o caminho, apressar o beijo e o abraço, apertar firme aquela figura para todos os demais repugnante, tudo isso era mais importante do que seu status de senhor de terras, do que o respeito ou o que as pessoas podiam pensar dele.
Ele interrompe o discurso ensaiado do rapaz. Não quer perder tempo com isso. Dá ordens para uma festa. Manda vestirem-no com a melhor roupa (ou seja, a sua!). E há uma razão para isso: Porque este meu filho estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado (Lucas 15:24).
A palavra chave dessa frase é “meu”. Desfigurado, degradado, voluntariamente distanciado de tudo o que o pai é e representa, ainda assim ele segue sendo dele. O que o pai sente pelo filho independe de suas escolhas lamentáveis.
O filho é você. Não importa o que passou. Não importa os muitos e muitos quilômetros que você colocou entre si e o pai em busca daquilo que lhe parecia vida. Não importa nem mesmo se você não se sente tão longe quanto o filho da parábola, acalentando a ideia boba de que refazer o caminho até o pai será mais fácil já que não está propriamente jogado aos porcos, e com isso postergando a volta ano após ano.
Você é dele. Você é dele.
Marco Aurélio BrasilO que a distância faz…

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