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Onde a meritocracia não funciona

Uma religião centrada no que se deve fazer e deixar de fazer cai no erro fatal da fé cega na meritocracia. Você pensa: “se eu faço as coisas certas do jeito certo e no dia certo, Deus está obrigado a me amar” (não, infeliz, não. Olha pra cruz de novo e veja que Ele já o ama, e de um jeito muito louco que você é incapaz de reproduzir até pelo seu próprio filho amado). E depois que você se convence de que está colocando Deus no cabresto pelo seu comportamento inatacável, você acaba pensando algo assim: “Eu faço as coisas certas, do jeito certo e no dia certo mais do que aqueles ali, logo, minha recompensa será maior” (ah é, gênio?)

O jovem rico era desses, por isso chegou a Jesus com a pergunta errada, embora pareça tão lógica e natural pra qualquer ser humano: “o que eu devo fazer de bom para conseguir a vida eterna?” Depois que ele vai embora, escandalizado com o desafio feito por Jesus de começar a viver uma religião centrada em um relacionamento e não numa lista de podes e não podes, Jesus se vira para seus discípulos e conta uma das parábolas mais curiosas de todas que estão registradas nos evangelhos. Ele diz que o reino dos céus é como o sujeito que acordou de madrugada e foi buscar trabalhadores para sua vinha, combinando de lhes pagar um denário. Quatro outras vezes esse senhor sai ao logo do dia, colocando mais gente para dentro de sua vinha, dizendo que lhes pagaria “o que for justo”. No final do dia, começando pelos que trabalharam menos, ele dá a todos a mesma recompensa: um denário. O que revolta os que trabalharam o dia inteiro.
Bem, a vinha é uma figura clássica de Israel, o povo escolhido e, na dispensação cristã, da igreja. Logo, a primeira coisa que essa parábola me diz é que tem muito trabalho a fazer. Quanto mais gente for colocada para trabalhar, melhor, porque o trabalho simplesmente não acaba. E é claro que precisamos pensar o que seria “trabalhar na igreja”, já que temos uma ideia tão errada disso. Mas não tenho espaço para isso agora, peço perdão.
A segunda coisa que essa parábola me diz é que a graça divina sempre soa injusta, pelo menos aos olhos de quem está preocupado com o que os outros estão ganhando. Os trabalhadores do dia inteiro receberam estritamente o que fora combinado, o que fora prometido. Em lugar de agradecer ter tido trabalho, eles só estariam satisfeitos se recebessem mais do que os demais.
Se a gente olhasse pra cruz do jeito certo, a gente exultaria o fato de o Senhor ter dinheiro suficiente para dar um denário inteiro aos demais também. A gente exultaria pelo fato do pai ser suficientemente rico para matar um bezerro para festejar o filho que retornou. Se a gente olhasse para a cruz do jeito certo e visse o que ela revela sobre quem nós somos e o que mereceríamos não fosse a graça, iríamos ansiar pelo retorno do irmão rebelde com o mesmo grau de ansiedade do próprio pai.
Mas isso só acontece quando a gente percebe que a religião de Jesus Cristo é centrada em uma relação de confiança, e não nas imitações do comportamento que deflui dessa relação.
Marco Aurelio Brasil, 02/06/17
Marco Aurélio BrasilOnde a meritocracia não funciona

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