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Parábola

Torno a falar-lhes por parábolas, dizendo: Apesar de serem dez os filhos, nenhum deles podia reclamar de falta de amor daquele pai. Havia ali em dose suficiente para cada um, e sobrava bastante. Para que tivessem uma infância e juventude saudáveis, aboletou-se com eles em uma praia paradisíaca, onde tinham espaço e liberdade. Havia um único lugar proibido: o porto, onde, de quando em vez, atracavam navios mercantes do oriente distante. Esses orientais tinham fama de aliciarem jovens nativos que nunca mais eram vistos.

Você já imagina o que aconteceu. Um dia, os filhos saíram juntos para brincar e não voltaram mais. O pai procurou por toda parte, chamou o nome de cada um, e constatou então que o que mais temia havia acontecido. Decerto seus filhos haviam sido seduzidos a embarcar. Por temer que aquilo fosse acontecer um dia, o pai já tinha um plano engatilhado. Vendeu seu negócio, amealhou uma boa quantia e comprou uma passagem para o oriente. Fez um longo, muito longo caminho, para trazer os filhos de volta.

Encontrou-os espalhados, miseráveis mas encantados com as cores, cheiros e texturas daquela terra distante. Horrorizado, constatou que eles já não se lembravam mais dele e não queriam sua companhia.

O pai instalou-se em um lugar onde poderia acompanhar as vidas de seus filhos. Decidiu que, já que eles não queriam contato com algum com ele, teriam sua vontade respeitada; ele ficaria à distância.
Escolheu um deles então, e começou a mandar pelo correio dinheiro, para tirá-lo da mendicância, e fotos de sua vida passada cheia de felicidade – nas quais o filho mal se reconhecia – acompanhadas de cartas prometendo restaurar aquela felicidade se tão somente ele retornasse, garantindo que ele estava muito, muito perto. Pedia, também, que esse filho contasse aos outros essa notícia fantástica.

O dinheiro fez muito bem àquele filho. No contato com os irmãos, demonstrava que era superior, já que era objeto dos favores especiais do pai – embora a palavra pai fosse esvaziada de sentido para todos. Claro que ele não contou a nenhum deles que aqueles favores todos estavam à disposição de cada um deles. Como havia melhorado de posição, resolveu evitar o contato com os irmãos, apenas dando uma olhada em suas práticas e imitando sua devoção ao que chamavam de pais, pinturas de venerandos homens orientais pintadas por eles próprios.

Durante todo o assédio daquele pai desconsolado, os orientais não deixavam de seduzir os irmãos, de modo que eles estavam se tornando cada vez mais parecidos com eles até mesmo fisicamente. O pai via tudo, e chorava. Sentia-se só.

Tanto mais quando aquele filho que ele havia escolhido para ser o porta-voz de sua misericórdia passou a rejeitar suas cartas. De fato, esse filho preferiu voltar ao estado de mendicância e escravidão na terra estrangeira, seduzido por quinquilharias e substâncias que causavam prazer tão intenso quanto efêmero. Aquele homem, pai de dez filhos, ainda tendo nos ouvidos os gritos alegres das crianças em sua casa, a algazarra típica de uma casa cheia, padecia uma profunda e irreversível solidão.

Mas o amor poderia levá-lo ainda mais longe. Ele se tornaria um mendigo entre seus filhos. E continuaria a apelar.

Marco Aurélio BrasilParábola

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