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Pelo sim pelo não

E se a ditadura militar não tivesse conseguido exterminar a guerrilha do Araguaia? E se a guerrilha crescesse, se espraiasse, tomasse 10 a 15% do território brasileiro, tomasse o controle do plantio, beneficiamento e tráfico internacional de cocaína para se financiar, praticasse sequestros e fomentasse a morte de mais 200.000 pessoas em cinquenta anos de atuação? Você ia querer ver isso terminado?

A Colômbia teve essa oportunidade há alguns dias e a jogou fora. Depois de 4 anos de intensas negociações, surgiu a oportunidade de dar um basta na terrível história das FARC, mas o acordo de paz deveria passar pela opinião pública e, num referendo, contra toda a expectativa do mundo inteiro, o não venceu.1-drroizoa32ryeu0bxxy1qa

Ouvi a entrevista do exultante líder do movimento pró-não após a apuração das urnas. Ele estava visivelmente emocionado, dizendo que a Colômbia preferiu por “uma paz mais duradoura”. Por trás daquelas palavras lia-se a ideia de que uma paz que envolve anistia (a.k.a. perdão) é passageira e que, por paradoxal que seja, votar pela continuidade da guerra é perseguir a paz.

É surpreendente que alguém pense assim quando estamos a milhares de quilômetros de lá. Quando não tivemos nenhum familiar morto pela guerrilha, quando não sofremos com o terror e com a vedação ao acesso a certas porções de seu próprio país. Mutatis mutandis, seria como perdoar traficantes que implantam toque de recolher na sua comunidade.

Mas é isso aí. O não sempre vence. O ser humano está sempre desconfortável com o perdão. Não quer “fingir que não aconteceu”. Queremos justiça, queremos Stallone, Schwarzenegger e Chuck Norris matando os que reputamos vilões. Com requintes de crueldade. Para que o filme tenha um final feliz.

A graça, contudo, é sim. É sim quando nós só enxergamos espaço para o não. A graça aparece logo depois do espelho, o espelho que mostra que nós somos os guerrilheiros, nós somos os assassinos. Ela aparece de repente e fala “surpresa!” A graça tem esse quê de desconfortável.

E aos que surpreendeu, a graça pede: “fale sim por onde for você também. Por injusto, desumano e absurdo que pareça, prefira a paz do perdão sem reservas do que a paz que parece definitiva e que nunca vem.”

Marco Aurélio BrasilPelo sim pelo não