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Pequenos mestres

“Eu não entendo porque Jesus disse para sermos como crianças”, dizia um amigo meu, “crianças são cruéis”.

Havendo sido uma num dia distante, e estando imerso de cabeça para baixo no mundo infantil, acompanhando a saga dos filhos, há quase quinze anos, devo concordar em partes com ele. Crianças, de uma forma geral, desde muito cedo sabem ser de um egoísmo sem maquiagem que chega a ser aviltante para nós, os mais velhos, os que aprendemos com a vida técnicas de dissimulação. E sabem ser cruéis também. Muitas vezes é possível notar em suas interações uma dose ácida de sadismo gratuito.
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São as digitais do inimigo manchando o que há de mais puro.
Quando penso em que aspecto do mundo infantil Jesus quis destacar, me ocorre a capacidade de facilmente maravilhar-se que as crianças têm, me ocorre justamente essa incapacidade de dissimular suas intenções e Brennan Maning me fez ver outro aspecto. Em O Obstinado amor de Deus, ele contrapõe a criança “que jamais experimentou coisa alguma a não ser o amor” com o fariseu. “Para o fariseu, a ênfase é sempre no esforço pessoal e na realização”. Aquela criança, contudo, “tenta fazer o seu melhor por ser amada. Quando comete erros, sabe que esses erros não põem em risco o amor de seus pais”.
Esse elemento muda tudo. Maning comenta que “os pais amam um filho antes mesmo de ele deixar sua marca no mundo. As realizações futuras na vida do filho confiante não são o esforço por granjear aceitação e aprovação, mas o extravasar abundante que resulta do sentir-se amado” (precisamente o tipo de realizações que eu vou me sentir realizado como pai se testemunhar meus filhos alcançando).
Isso faz com que essa criança tenha um tratamento de suas próprias emoções radicalmente diferente do que os adultos costumam ter. “A criança espontaneamente manifesta emoções; o fariseu cuidadosamente as reprime. Abrir-se para outra pessoa é um sinal da presença ativa do Espírito Santo. Desconsiderar, reprimir ou abandonar nossos sentimentos é não conseguir escutar o toque do Espírito dentro da dimensão emocional da nossa existência. Jesus escutou as pessoas que sofriam, chorou por elas, sentiu-se frustrado, ficou irado com razão e sentiu tristeza por elas… Ele é um homem de uma maneira que esquecemos serem os homens capazes de ser: sincero, franco, emotivo, não-manipulador, sensível, compassivo – sua criança interior tão liberada que ele não sentia ser pouco masculino chorar. Ele se encontrava com as pessoas de cabeça erguida e se recusava a entrar em qualquer acordo que comprometesse sua integridade.”15
 
Além disso, “o rosto que a criança apresenta é seu próprio rosto, e ela não olha para o mundo apertando os olhos e forçando a visão para conseguir enxergar os rótulos das pessoas.”
 
Pensando bem, é perfeitamente compreensível porque Jesus nos orientou a imitarmos as crianças. No que elas têm de melhor, elas são muito, muito superiores a mim. E taí uma resolução de ano novo na qual vale investir.
Marco Aurélio BrasilPequenos mestres

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