Últimas Publicações

Rábulas

Um dia os discípulos pediram que Jesus os ensinasse a orar. Por trás do pedido é possível entrever, sem muita chance de erro, um desejo de conhecer uma formulinha eficaz de relacionamento com Deus. Se eles soubessem como orar, quais palavras usar, só precisariam proferir as tais e teriam certeza de estarem agradando a Deus e obtendo Seus favores. “Ensina-nos a orar”, portanto.

 Até há algum tempo atrás existia no Brasil a figura do rábula. Ele era um “quase advogado”. Eram pessoas sem formação jurídica mas que conheciam todos os meandros dos fóruns. Sabiam como preencher guias de recolhimento, como cortar caminhos para protocolar petições, com quais escrivães falarem para obterem certidões mais rápido e coisas do gênero. Num ambiente extremamente burocratizado eles tinham muita utilidade. Entretanto, não tinham o substrato teórico, o conteúdo que os habilitasse a redigirem peças capazes de representar com eficácia os interesses de pessoas em apuros.

O ser humano adora ser rábula. Gosta de saber como resolver as coisas de forma prática. Se o problema é o favor de Deus, o ser humano de uma forma geral – portanto não apenas os discípulos – quer saber de que ritos participar, que palavras proferir, com que postura orar. Quer saber se esquentar comida no sábado é pecado, quer saber como dizimar a hortelã e o cominho. Quer, enfim, a segurança de que fazendo e deixando de fazer determinadas coisas, estará em paz com Deus e poderá tocar sua vida sem se preocupar mais com Ele.

“Quando orardes, não useis de vãs repetições” (Mateus 6:7). Embora Ele tenha proferido uma oração modelo, Sua resposta ao pedido dos discípulos revela que nenhum encadeamento de palavras é capaz de substituir uma relação substanciosa, honesta e íntima. Repetições, Ele disse, são vãs.

Às vezes colegas de trabalho ou pessoas ao telefone conversam comigo enquanto estou defronte do computador. Na maior parte das vezes eu não consigo desligar do que estava fazendo e fico um bom tempo respondendo por monossílabos sem prestar a menor atenção ao que meus interlocutores estão dizendo – infelizmente não desenvolvi a capacidade que minha esposa tem de prestar atenção a uma conversa, à televisão e ao que nossos por enquanto três filhos estão fazendo, tudo ao mesmo tempo. É óbvio que minha dispersão é captada pelos meus interlocutores, é mais óbvio ainda que eles não se sintam satisfeitos com essa situação. Ninguém gosta de falar com uma parede.

Por que razão Deus, que tem muito mais desejo de relacionar-Se, Se conformaria com orações repetidas, automáticas, como os monossílabos que eu resmungo enquanto minha cabeça está em outro lugar?

Não lembro aonde foi que li que uma amizade é como uma flor, que precisa ser regada. Concordo. Nossa relação com Deus precisa ser regada – uma atividade que só é suficiente se praticada diariamente; a regada que dei ontem não adianta para hoje. Do lado de lá, água não falta, o problema é do lado de cá.

Marco Aurélio BrasilRábulas

Artigos Relacionados