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Remando contra a maré

Certa vez fui assistir a uma partida da seleção de futebol no estádio do Morumbi. Todos ganharam umas bandeiras brasileiras de plástico na entrada e o espetáculo daquelas milhares de bandeirolas se agitando estava muito bonito. Bem diferente do que acontecia em campo. O time estava jogando mal, embora o adversário fosse muito fraco. De repente, os torcedores, em protesto, começaram a atirar as bandeirolas abaixo. Uma cascata de bandeiras verde-amarelas tomou conta do enorme estádio. Eu achei aquilo divertido, também estava indignado e, sem pensar muito, atirei minha bandeirinha para fazer parte do protesto da multidão.

Mais tarde, lembrando do episódio, refleti que em condições normais eu talvez jamais atirasse uma bandeira do meu país ao chão. Tenho meus pudores patrióticos e não creio que seja uma atitude correta. Se o fiz, foi movido pela massa, condicionado pela coletividade. É muito difícil agir diferentemente do que parece a unanimidade, por isso admiro pessoas que remam conscientemente contra a maré.

Um exemplo desses iluminados homens de personalidade é Calebe. No episódio dos espias de Canaã, quando juntamente com outros onze ele foi à frente do povo para dar uma olhada na terra que deveriam conquistar (Números 13), enquanto a maioria esmagadora de seus companheiros de expedição vinha com um discurso afinado e cheio de medo, dizendo ao povo que seria impossível conquistar aquela terra, Calebe fez com que todos se calassem e disse exatamente o contrário. Tinha em mente uma promessa feita por Deus, capaz de transformar qualquer gigante em algo incapaz de meter medo.

A mesma capacidade de se diferenciar Calebe demonstrou quarenta e cinco anos mais tarde. Aproximou-se de Josué, o líder da invasão israelita em Canaã, e o lembrou que naquele primeiro episódio Deus havia orientado a Moisés de que justamente a montanha cheia de gigantes deveria pertencer a Calebe, que havia se posicionado valentemente ao lado da promessa. Suas palavras chegam a ser engraçadas: “Por isso aqui estou hoje, com oitenta e cinco anos de idade! Ainda estou tão forte como no dia em que Moisés me enviou; tenho agora tanto vigor para ir à guerra como tinha naquela época. Dê-me pois a região montanhosa que naquela ocasião o Senhor me prometeu. Na época, você ficou sabendo que os enaquins lá viviam com suas cidades grandes e fortificadas; mas, se o Senhor estiver comigo, eu os expulsarei de lá, como ele prometeu” (Josué 14:10-12).

E o vovozinho expulsou mesmo. Botou os tais gigantes para correr. Aonde todos travariam de medo ele fez maravilhas. Seu segredo? Calebe foi capaz de não esquecer da promessa de Deus durante quarenta e cinco anos. Todos os dias, lembrava-se daquela promessa e tirava dela a energia para esperar remando firme contra a maré.

Para remar contra a maré e ser capaz de maravilhas quando todos correm, não podemos esquecer da promessa. Ela é fiel. Pode demorar anos, mas quem a fez não se atrasa.

Marco Aurélio BrasilRemando contra a maré

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