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Esse povo dos direitos humanos

Uma parcela substancial de nossa angústia e frustração advém da confusão sobre quem é nosso inimigo. Paulo, em um de seus mais inspirados insights, não deixou margem para dúvidas: “Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais” (Efe. 6:12). E, no entanto, posicionamos o alvo na cabeça de gente e de coisas de gente. Tratamos o cônjuge, o filho, o pai, o chefe, o empregado, os outros motoristas, o marxismo, o evolucionismo, a ideologia de gênero, a corrupção, etc. e etc., como O Inimigo.

Equivocar-se contra quem ou o que é o real inimigo nos leva a distorcer tudo. Veja, por exemplo, a questão dos direitos humanos. Eles só existem por causa do cristianismo. Foi a mensagem de Cristo, especialmente através da luz que a Reforma Protestante jogou sobre ela, que fez germinar a ideia de que seres humanos detém direitos inatos (à vida, à saúde, ao livre desenvolvimento da personalidade, à honra, à integridade física, à educação, etc.). Mas, como geralmente quem levanta a bandeira dos direitos humanos são ativistas de esquerda e como os cristãos geralmente se alinham mais à direita, e como elegemos o marxismo como o maior inimigo a ser combatido, passamos a odiar os direitos humanos de um jeito que, se eles foram inventados pelo cristianismo, possivelmente serão soterrados pelo mesmo cristianismo. O mesmo acontece com o respeito aos homossexuais, a ecologia, políticas assistenciais e tantas outras coisas.

Note que, fazendo isso, nos tornamos contradições ambulantes. Nos dizemos seguidores de Cristo e odiamos quem prega ajuda aos mais pobres. Seguimos Aquele que foi preso, torturado e morto injustamente e ainda assim pediu perdão para Seus algozes e que nos conclamou a amar indiscriminadamente, mas aplaudimos o político cristão que defende abertamente a tortura e a execução sumária de bandidos. Dizemos seguir Aquele que tratou as mulheres com uma dignidade que beirava o escândalo e, no entanto, nos escandalizamos quando aqueles que confudimos com o inimigo pregam igualdade salarial entre os sexos. E por isso destilamos ódio contra o alvo errado, enquanto o alvo certo, as potestades e principados, dão risada desse toda essa energia aplicada em espancar aquilo pelo que Jesus Cristo morreu.

Não nos iludamos. Ainda temos muito que aprender.

Marco Aurélio BrasilEsse povo dos direitos humanos
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A resposta

Embora não precisem antagonizar-se, fato é que a fé e a razão parecem habitar universos diferentes, ou pelo menos partilhar de naturezas diferentes. A fé deu as cartas durante muito tempo. Aí, ali pelo Iluminismo, os caras olharam para trás e viram que o reinado da fé não tinha sido bom. A sociedade era dividida em estamentos estanques, no qual os menores deles oprimiam a imensa maioria dos estamentos inferiores, havia um monte de guerras, havia hipocrisia e todo tipo de abuso. Pegaram a fé, amassaram e jogaram no lixo. Era a época das luzes. Chega de obscurantismo. Agora a razão imperaria. Passados 300 anos, embora a razão não tenha reinado absoluta como a fé o fez, as pessoas olham pra trás e não gostam do que vêem. Há uma enorme insatisfação pelo fato de a razão não haver inaugurado o tempo de felicidade plena e abundante que prometeu. Falta o espiritual nesse mundo em que a matéria não satisfaz.

Ora todos têm aqueles momentos de epifania, de catarse, aqueles momentos em que a beleza extrema os atinge no peito e eles sentem que a razão não dá conta disso. Todos têm aqueles momentos em que sentem um mundo maior que eles pulsando dentro deles. Uma paisagem estonteante. O momento imediatamente anterior ao primeiro passo no salão em que acontecerá o seu casamento. O nascimento do filho. A paz inoculada na tormenta pela simples presença de amigos. O lembrete deixado pela morte repentina de alguém importante. E então as pessoas buscam o espiritual, mas de preferência sem Deus. Mindfullness, yoga, meditação, alguns tipos de terapias, a devoção a um artista, a relação de dependência com um coach, mil obsessões (com a saúde, com o dinheiro, com a política, etc). São tentativas de suprir o que a razão e a matéria sós, está provado, não podem fazer pela humanidade.

C. S. Lewis precisou lutar contra o seu confortável ateísmo para concluir que alguma coisa estava errada nisso tudo e aqui está sua conclusão: “Se eu encontro em mim um desejo que nenhuma experiência desse mundo possa satisfazer, a explicação mais provável é que eu fui feito para um outro mundo”. Feito à imagem e semelhança de Alguém maior. E então percebemos que o problema nunca foi a fé, mas a fé sem o seu autor e consumador. NEle e por Ele, tudo que é incompleto encontra a completude, tudo que é insatisfatório encontra a plena satisfação, tudo que é limitado encontra o que é eterno. O nome da resposta, senhores, segue sendo Jesus Cristo.

Marco Aurélio BrasilA resposta
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Expressões

– Quer casar comigo?
– Tanto faz.

O diálogo absurdo acima está registrado, possivelmente não com essas palavras exatas, em O Estrangeiro, romance do premiado com o Nobel de literatura Albert Camus, e serve como bom resumo da personalidade do protagonista. Sua mãe morre e ele não esboça qualquer emoção. É dele o “tanto faz” acima, pois para ele, um filhote do existencialismo, tudo parece ser indiferente. Fico imaginando o que eu sentiria se a Tatiana reagisse com esse descaso quando lhe propus casamento. Fico imaginando o que ela sentiria se essa fosse minha reação quando me contou que estava
grávida.

São hipóteses absurdas e que causam um grande desconforto por uma razão simples: fomos criados à imagem e semelhança de um Ser social, que projetou Sua criação para interagir, para reagir a todo estímulo vindo do outro. A alegria mais completa da Tatiana ao descobrir-se grávida foi alimentada e aumentada ao ver a minha alegria em saber da notícia e a minha alegria foi exacerbada ao ver a reação que ela causou nela. São ondas que formam mais ondas, como as da física, que foi inventada pelo mesmo Deus.

Tenho uma amiga que parece ser incapaz de esboçar qualquer emoção. Certa vez passamos um feriado em um sítio no caminho para Iguape-SP, umas doze pessoas, e no domingo fomos tomar um banho de rio. A gente se soltava na correnteza e deixava o rio levar, uma delícia, embora o rosto dessa minha amiga não demonstrasse qualquer prazer. Mas eu notei que à frente havia uma queda d’água que poderia ser perigosa. Como estava à frente do grupo, consegui ficar de pé na rocha e avisei a todos que dessem um jeito de brecar, mas alguns não conseguiram, porque a pedra era muito lisa. Segurei um com um pé e outro com uma mão e essa minha amiga parecia estar rumando inexoravelmente para a ribanceira, muito embora ninguém pudesse ver qualquer reação de medo no seu rosto. A muito custo consegui segurá-la com a mão livre pela bóia que ela estava usando e lá ficamos até ela conseguir firmar os pés e levantar-se como se absolutamente nada houvesse acontecido.

Lembrando meu estranhamento com a situação, calculo então o sentimento do Deus que me criou à Sua imagem quando coloca uma flor especial, uma pessoa especial ou uma notícia especial no meu caminho e eu reajo como se tudo fosse normal e indiferente. Fico imaginando o que Ele sente quando interpreto como sorte o que é benção, como coincidência o que é resposta a oração.

Estimulando um sentimento de gratidão constante percebi uma coisa: ver uma benção e agradecê-la me faz notar outra benção, e ao agradecê-la vejo mais uma e mais uma e isso não cessa. Me apazigua, me faz sentir genuína e incodicionalmente amado. A gratidão tem muito evidentes efeitos terapêuticos, porque foi inventada pelo Deus de relacionamentos.

Marco Aurélio BrasilExpressões
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Maquinalmente

No meio dos preparativos para o natal, a senhora recebe uma ligação da filha, do outro lado do país. “Mãe, o Caio tá me perguntando uma coisa que eu não sei responder. Ele me viu cortando aquelas duas tiras dos lados do peru antes de levar ao forno, como eu sempre vi você fazer, e perguntou por que eu faço isso. Por que eu faço isso?” Desconcertada, a mulher responde: “Caramba, essa dúvida nunca me ocorreu. Sua vó está aqui, vou perguntar a ela. Mãe, a Isabela tá preparando um peru e quer saber porque eu sempre corto dos lados. Eu aprendi isso contigo, mas pra que serve isso? Realça o sabor, assa melhor…?” A moça ouve a voz indistinguível da vó ao fundo e então a risada de sua mãe. “O que foi que ela disse, mãe?” “Ela explicou que só fazia isso porque o peru não cabia no forno dela, que era muito estreito!”

Essa história, que li em algum lugar, me lembra uma profecia registrada por Isaías descrevendo o destino triste da nação que deveria ser o Seu povo na terra. Eles seriam pilhados, derrotados e espalhados pelo mundo e a razão, basicamente, era esta: “Este povo se aproxima de mim e com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim, e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, que maquinalmente aprendeu” (29:13).

Tudo o que a mulher que passou anos cortando os lados do peru, sem nunca refletir a razão de ser disso, perdeu, foi alguns gramas de peru. Seu equivalente religioso, contudo, perdeu muito mais. Uma religião de repetição irrefletida, de reprodução dos valores e costumes dos antepassados sem qualquer atenção ao propósito e sem qualquer busca honesta na Bíblia da confirmação daquilo, deságua em destruição. Estou convicto de que a religião é responsável pelo melhor que há no homem, mas há certos tipos de religião que trazem à tona o pior, também. E não estou pensando em radicais islâmicos terroristas. Não é para eles advertências como a de Isaías, ou como a de Jesus: “Há três anos venho procurar fruto nesta figueira e não acho; podes cortá-la; para que está ela ainda ocupando inutilmente a terra?” (Luc. 13:7)

Marco Aurélio BrasilMaquinalmente
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As torres

Todo silêncio é maior e mais profundo se depois de muito barulho, assim como a luz brilha mais depois de uma grande escuridão. O barulho da borrasca havia passado. Os animais desciam monte abaixo e o que restou da humanidade olhava extasiado o arco-íris. Silêncio, enfim, e dos mais profundos.

Mas parece que houve nostalgia do barulho. Gênesis 6 diz que o dilúvio veio porque “toda a imaginação dos pensamentos de seu coração [dos homens] era mau continuamente” (v. 5). Na Terra
repaginada do pós-dilúvio a ordem foi: espalhem-se e povoem a terra (9:7), mas a resposta foi: vamos fazer uma cidade e uma torre… para que não sejamos espalhados (11:4); e a estrada estava
pavimentada para que voltasse o estado de coisas de antes do dilúvio.

A torre deveria tocar o céu, porque assim eles não teriam mais medo de dilúvio. Veriam como as coisas acontecem lá de cima, de onde vem a água. Desenvolveram uma tecnologia nova, com tijolos e argamassa e estavam indo muito bem, mas você conhece o final da história: Deus confundiu as línguas deles e Sua vontade inicial acabou sendo cumprida, eles foram espalhados segundo suas línguas pela terra. Se houvessem obedecido, teriam poupado o sofrimento da ruptura forçada – e provavelmente os professores de idiomas teriam outras ocupações hoje.

A tentação do povo de Babel é a mesma que temos todos os dias: de achar que nossa ideia pode ser melhor que a de Deus. De desobedecer francamente por amor a alguma conveniência que nos pareça mais vantajosa. Mas nossa relação tortuosa com a lei é bem conhecida. O que acho mais curioso nesse relato é como ele mostra nossa relação com a promessa. Deus disse: nunca mais destruirei a terra com água. Dilúvio nunca mais. E aí eles se juntam para se proteger do dilúvio. É como se dissessem: olha, nem precisamos da Tua promessa, a gente dá um jeito por aqui, com nossa argúcia e habilidade. A Torre de Babel acaba sendo, portanto, uma banana para a promessa.

Podemos construir outras torres hoje. Se em lugar de reivindicar a vitória sobre o pecado prometida, usamos de auto-justificativas, muletas retóricas, conformismo, etc. Se em lugar da paz prometida, buscamos válvulas de escape, qualquer iniciativ artificial de auto-apaziguamento. Se em lugar da confiança que podemos nutrir nos cercamos de pílulas. Estamos construindo torres o tempo todo porque não cremos nas promessas. E descobrindo, às vezes tarde demais, que nossas torres são ineficazes, ridículas e frustrantes.

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Eternidade presente

“Há algo no olhar do homem que pertence à essência das coisas que não perecem”. Esta frase do “Abdias” de Cyro dos Anjos é, na verdade, apenas uma nova versão para Eclesiastes 3:11, que diz que Deus plantou no coração do homem “a ideia de eternidade”. Se tudo e todos morrem, se tudo se desfaz, se a entropia é a ordem do dia, de onde mais teria vindo esse anseio tão antinatural pela eternidade? Só ele explica meu dissabor ao olhar o espelho e detectar as marcas da decrepitude.

Eternidade é mesmo uma coisa intrigante. Por definição ela é mais do que a ausência de fim, é também a ausência de começo. A eternidade é todo-abrangente. Ela trata o tempo como uma criatura, como algo capaz de ser superado e subvertido.

Bem, ela é o meu destino. “E esta é a promessa que Ele nos fez: a vida eterna” (I Jo. 2:25). Mas é impossível tratar algo todo-abrangente como um destino a se alcançar. Se ela é apenas uma promessa a se cumprir no futuro, ela é algo que toma tudo o que foi também. Não, a eternidade já começou. Leio isso no comando do Mestre a orarmos “venha a nós o vosso reino” (Mat. 6:10). Isso significa dizer: que eu já viva aqui a eternidade, que eu seja já aqui um súdito na ordem perfeita do Céu, porque não faz sentido algum deixar para reconhecer o reino e a Quem ele pertence em algum momento no futuro. Não existe futuro. Na eternidade, tudo é agora e é agora que preciso vivê-la.

É que, para mergulhar de forma definitiva na Vida que Ele me comprou com Seu sangue, preciso dar as costas a meu fascínio pela morte. Preciso abdicar a tudo que não é reino, a tudo que o contradiz. Preciso ser coerente com quem se sabe herdeiro da eternidade.

Marco Aurélio BrasilEternidade presente
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Eis-me aqui, envia-me a mim

Aquela sexta-feira de algumas semanas atrás foi típica. Eu caminhando de manhãzinha e tentando descobrir sobre o que escreveria aqui. Eu estava fortemente impressionado a falar sobre
depressão, porque tinha vindo ao trabalho lendo no trem o capítulo a esse respeito de Mente, Caráter e Personalidade, de Ellen White, mas a ideia parecia esdrúxula. Afinal de contas, o que um advogado pode ter a falar sobre depressão? Mas a impressão continuou forte. Tamborilei os dedos sobre o computador olhando o cursor piscando sobre o branco da tela para me certificar que não teria uma ideia alternativa qualquer chegando lá de cima. Nada.

Apesar de bastante inseguro, acabei enviando a mensagem. Bem, fui surpreendido com respostas quase imediatas agradecendo e fazendo comentários valiosos sobre o tema. Algumas dessas respostas
engordaram minha listinha de objetos de oração especial, mas a mais surpreendente veio através de um e-mail de uma conta que não abria fazia tempos. Havia lá uma mensagem de um amigo que está
do outro lado mundo. Ele contou que estava vasculhando a internet atrás de material para ajudar sua esposa em atividades da igreja quando encontrou aquele texto sobre depressão hospedado em um site norte-americano voltado para brasileiros. Aquela mensagem, ele dizia, foi importantíssima por uma penca de razões. Será mesmo que aquela mensagem tivesse sido mesmo importante?

Algo parecido aconteceu quando escrevi sobre a escolha do(a) namorado(a) e em inúmeras outras oportunidades. Eu não sei porque estou escrevendo sobre aquilo, mas descubro mais tarde. E há também os dias em que escrevo inseguro e não tenho resposta nenhuma, mas estas respostas nas mensagens mais improváveis me fazem crer que para alguém aquilo pode estar sendo importante, ou quem sabe aquilo vá ser importante algum dia.

Certa vez li sobre uma mulher que vive para ajudar mendigos e desabrigados nos EUA. Ela dizia que nunca sabia o que ia acontecer durante o dia, ela não tinha agenda. Simplesmente se colocava à
disposição de Deus e Ele a conduzia para onde queria. E nunca estava desocupada.

Bem, o fato é que não existe sensação melhor neste mundo do que a de perceber haver sido usado por Deus. Não existe melhor ciência do que a de haver mitigado uma dor, despertado um sorriso, instilado esperança ou partilhado amor. Mas dificilmente isso acontece com planejamento rigoroso e de formas que podemos prever ou controlar. É acordar, ajoelhar-se e pedir para ser usado e inspirado por Deus. Esse pedido nunca falha.

Fomos chamados, amados, salvos para isso. Só precisamos estar à disposição.

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Espírito e entendimento

Imagine um jovem que nasceu e cresceu no Himalaia, budista ou hindu, aportando em uma de nossas cidades. Imagine que ele tem uma profunda curiosidade a respeito do cristianismo e aproveita que está num país cristão para saciá-la. Ele começa a andar pela rua e vê uma igreja. Ao entrar, assiste a um culto com muito barulho, pessoas falando ao mesmo tempo, muitas delas dando altos brados, levantando as mãos espalmadas, e tambores, e lágrimas e pessoas de olhos muito fechados batendo no peito. Nosso estrangeiro sai dali e vê uma outra igreja quase em frente. Ao entrar, assiste a um culto muito frio, com pessoas cantando juntas, talvez em vozes, mas sem nenhum acento emocional; depois um pregador se levanta e discorre sobre palavras vertidas do grego antigo e sua real acepção, ou então sobre um encadeamento complexo de textos bíblicos.

Essa pessoa imaginária ficaria confusa sobre qual o tipo de culto que os cristãos dão a Seu Deus. Eu também fico. A minha igreja nasceu no auge do racionalismo do século XIX, é muito apegada a formas estanques de liturgia e detesta demonstrações de emoção. As coisas têm que ser racionais. Deus nos pega pela razão e só depois pela emoção. Pastores que apelam para a emoção são um pouco mal falados e cantores que têm alguma expressão corporal são desincentivados. Como algumas modelos que se tornam atrizes e que empregam o mesmo tom de voz e a mesma expressão facial para qualquer tipo de fala, minha igreja é capaz de cantar uniformemente coisas como “sempre alegre/é o viver do bom cristão” ou “rude cruz se erigiu/dela o dia fugiu/negro manto de trevas e dor…”. Portanto, minha igreja está muito mais para a segunda das igrejas retratadas acima.

Se olho para a igreja que Jesus formava ao redor de Si, vejo uma outra coisa; nem um modelo nem o outro. Se Ele vivia condenando orações que eram vãs repetições, pessoas que O enalteciam sentindo em seus corações um sentimento bem diferente e outras formas vazias de adoração, infladas de uma emotividade ôca, por outro lado Sua pregação apelava à razão, através de parábolas e citações das Escrituras.

Paulo capturou à perfeição o modo de adorar que agrada a Deus: “Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento; cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento” (I
Cor. 14:15). Uma adoração meramente racional é mutilada. Uma adoração de êxtase apenas, também. É preciso que o que cantamos e oramos brote da razão e encontre eco no coração, é preciso crer que estamos nos dirigindo ao Rei do Universo e que não podemos falar palavras vazias diante dEle.

Que nossa adoração seja holocausto a Deus, ou seja, integral, sem reter nem emoção nem razão, tudo colocado aos pés de Quem nos criou, salvou e vem buscar.

Marco Aurélio BrasilEspírito e entendimento
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Aperitivo da eternidade

Não conheço algo capaz de provocar uma sensação de plenitude e completude maior do que fazer a vontade de Deus. Você sente que está a serviço dEle, percebe que qualquer sacrifício que tenha feito (de tempo, de energia, de dinheiro, o que seja) foi gigantescamente compensado… Ainda assim, essa sensação costuma ser atropelada e soterrada pelas urgências do dia e pela vontade de sentir aquele tipo inferior de prazer. Nesses momentos, pode ser que Deus, que nos ama loucamente e que nos quer ver completos, tome certas medidas para nos trazer ao trilho certo.

O exemplo da igreja primitiva é bem ilustrativo. Antes de ascender, Jesus havia dito que eles deveriam ser testemunhas Suas “tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra” (Atos 1:8), mas eles deveriam permanecer em Jerusalém até serem revestidos de poder (Lucas 24:49). Eles obedeceram, permaneceram cerca de cinquenta dias “perserverando unânimes em oração” (Atos 1:14) e então a promessa se cumpriu, veio o Pentecostes, a conversão de milhares de pessoas e a inauguração de uma era de ouro, com a multiplicação dos conversos e um regime de fraternidade coletiva que o homem tentou reproduzir à força muitas outras vezes sem sucesso. Se Jesus com Seus milagres despertou o ódio da elite religiosa, imagine se o mesmo não ocorreria com esse ardor coletivo que estremeceu Jerusalém? E, no entanto, levou algum tempo até que a perseguição começasse.

É que, não fosse por ela, possivelmente os apóstolos teriam permanecido lá em Jerusalém para sempre, acomodados, refestelados, construindo igrejas com bancos confortáveis para verem Pedro pregar toda semana. Distantes da vontade de Deus e da missão que Ele havia dado. Segundo Ellen G. White, “a perseguição que sobreveio à igreja de Jerusalém resultou em grande impulso para a obra do evangelho… havia o perigo de que os discípulos ali se demorassem por muito tempo, despreocupados em relação à comissão que haviam recebido do Salvador de ir a todo o mundo”.

Uma perseguição pode ser boa? Um fracasso pode ser positivo? Uma crise pode ser edificante? Desde que nos traga ao trilho, certamente. A sensação de completude que daí decorre, amigo, é apenas um aperitivo da eternidade.

Marco Aurélio BrasilAperitivo da eternidade
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