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Se somos o corpo

Num mundo povoado por criaturinhas egoístas, a graça de Deus era algo ininteligível. Um conceito abstrato, incapaz de ser apreendido, porque é difícil conceber motivações diferentes das que nós mesmos temos. E assim foi até que ela se fez carne. A graça tomou a nossa forma. Um corpo igual o que nós temos. Andando entre nós, falando conosco, nos tocando, nos ouvindo, nos vendo.

Os evangelhos registram uns poucos exemplos de cada atuação destas. Relatam que um dia Jesus, procurando solidão e descanso, viu uma multidão e Se compadeceu dela, porque pareciam ovelhas sem pastor, e então deixou pra depois a solidão e o descanso. Deus viu. Relatam oportunidades em que, podendo curar um enfermo com uma palavra, apenas, Jesus escolheu tocá-lo. Deus tocou. Contam de um cego esbravejando por misericórdia no meio de uma multidão, e Deus ouviu. Falam de oportunidades em que pessoas angustiadas foram consoladas, famintas, foram saciadas, sacudidas por dúvidas e foram orientadas, com a auto-estima carcomida e foram encorajadas, amadas, chamadas para trabalhar. Deus orientou, consolou, encorajou, comissionou e fez com que a graça tivesse um rosto, um nome, uma voz e, sobretudo, fez com ela fosse entendida (com muito maravilhamento, mas enfim compreensível). A cada atuação de Cristo era como se Deus estivesse dizendo à humanidade caída: isso é o que desejo a cada um de vocês: cura, felicidade, reconciliação com Deus.

Mas pode ser que, ao lermos esses relatos em nossa Bíblia, não os entendamos como recados direcionados especificamente a nós. Pode ser que suspiremos profundamente e nos perguntemos aonde está Deus agora.

Há uma pista para a resposta nos capítulos 9 e 10 de Lucas. O primeiro descreve Jesus enviando os doze discípulos de dois em dois a várias cidades, para que através deles pessoas fossem libertas de seu fardo de pecado, enfermidade e angústia. No segundo, Ele envia setenta, também de dois em dois, para que o raio de atuação fosse maior. Antes de ascender, comissiona sua igreja para que faça o mesmo primeiro ali mesmo, então num raio mais distante, depois mais e mais até abranger o mundo inteiro.

Foi preciso vermos a graça se fazer corpo para entender. O mundo pode ver esse corpo hoje. Nós somos o corpo. I Coríntios 12 diz que nós somos o corpo e Cristo é a cabeça. A pergunta, então, não é mais “onde está Deus?” mas sim: se nós somos o corpo, por que Suas mãos não tocam e não curam? Por que Seus olhos não vêem as pessoas angustiadas, nem aquelas que entram pelas portas de nossas igrejas? Por que Sua voz não fala aos perdidos e desorientados? Por que Seus braços não abraçam, Seus pés não O levam ao encontro das ovelhas sem pastor e Seus ouvidos não escutam os clamores por socorro? Parece que a comunicação entre cabeça e membros foi interrompida e, cá pra nós, a culpa é toda dos membros.

Marco Aurélio BrasilSe somos o corpo