Publicações com Graça

O avesso do dia

Jesus Cristo sempre foi a pessoa mais acessível da divindade. Era como se Deus Pai representasse o aspecto mais portentoso de Deus, aquele que inspira respeito e temor, ao passo que Jesus suaviza essa ideia ao aproximar-Se, conversar, olhar nos olhos. Não admira que assim seja, porque para os seres criados Deus é um ser complexo, multi-facetado, que supera em muito nossa capacidade de compreensão.

Então Jesus era a pessoa a quem os anjos se dirigiam, a quem faziam suas perguntas, a quem contavam coisas de sua vida. Aí Ele envolveu-Se seriamente na criação deste mundo. Foi a palavra dEle quem trouxe tudo à existência. Tudo o que vemos foi feito através de Jesus. E quando Adão e Eva escolheram desobedecer, escolheram morrer, mas o amor divino pela criatura que lhe virou as costas superou todas as expectativas. A única forma de evitar que o homem experimentasse a morte eterna seria se alguém que não o merecia o fizesse em lugar dele. Jesus, que estava umbilicalmente ligado a nós, Se ofereceu para ir.

De repente, Quem era Todo Poderoso, capaz de trazer matéria da não-existência à existência, Quem estava em todos os lugares ao mesmo tempo e era onisciente, reduziu-se brutalmente a uma criança que chorava porque sentia frio e fome, a um ser que dependia em tudo de seres humanos falhos e cheios de idéias enviezadas sobre todas as coisas para continuar vivendo. De repente Ele está embrulhado em panos num berço improvisado dentro de uma estrebaria, e aqueles olhos que tudo viam ainda não conseguem se abrir para enxergar a realidade precária que o cerca.

Deus está entre nós para que nós estejamos um dia com Ele, sem mais interferência do pecado. Que notícia mais fantástica.

Fantástica para mim, que sou humano. Fico imaginando o sentimento daqueles anjos acostumados a ter Jesus por perto, olhando lá para baixo e vendo-O de repente frágil, de repente vulnerável, num mundo escuro, cheio de pontas que ferem, de alturas de onde se cai, de bactérias insidiosas. É imersos nessa perplexidade que eles são comissionados a ir avisar aqueles pastores do evento mais inacreditável de todos os tempos. E quando eles retornam ao seu lar, não têm mais a Jesus para dividir a sua emoção. Não tem por perto
Aquele que costumava sanar suas dúvidas e oferecer um consolo eficaz. O natal foi um vácuo no Céu.

Somos salvos pela graça, essa graça que se reduz, se faz frágil, sofre nossas dores e privações e morre. Mas a graça não é de graça para quem dá. Ela custa tudo para o Céu. Depende da forma como você e eu, objetos dessa salvação, nos relacionamos com ela para aquele vácuo e toda carga de dor que o aniversariante do dia carregou ter valido a pena ou não.

Marco Aurélio BrasilO avesso do dia
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Porque me ufano da cruz

Esta manhã um texto bem conhecido me deixou cismado: “Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gal. 6:14). Foi remoendo essas palavras que fiz meu caminho matinal até o metrô. Eu tentava entender porque alguém diz que se gloria, que se ufana, num instrumento bárbaro de tortura. Ok, não é uma cruz qualquer, é a cruz aonde Jesus foi pregado, mas ainda assim por que razão a tortura específica de um inocente seria a fonte de glória?

O apóstolo poderia dizer que tem na cruz o símbolo de sua salvação, da redenção de Cristo em substituí-lo na morte, mas isso é diferente de dizer que se ele se pavoneia de algo, é da cruz. Por que razão a cruz seria uma fonte de glória??

Cheguei ao metrô, entrei o vagão e a muito custo consegui achar um espacinho para abrir o livro que eu levava. Poucos minutos depois eu lia: “Quando olhamos para a cruz, vemos a justiça, o amor, a sabedoria e o poder de Deus. Não é fácil determinar qual desses aspectos é mais brilhantemente revelado, se a justiça de Deus ao julgar o pecado, se o amor de Deus ao levar o castigo em nosso lugar, se a sabedoria de Deus em combinar com perfeição as duas coisas, ou se o poder de Deus em salvar aqueles que crêem” (John Stott, Cristianismo Autêntico, editora Vida, p. 75).

A idéia do famoso teólogo inglês pareceu suprir as lacunas de minhas cismas à perfeição. Afinal, eu posso, sim, me ufanar de haver sido justificado perante os olhos de outras pessoas. Eu posso também me gloriar do fato de ser muito amado; na verdade, as fotos de minha família aqui na minha mesa de trabalho são exatamente isso, o que dizer então da maior de todas expressões de amor feitas por Jesus na cruz em meu favor? Eu também posso me gloriar de haver sido beneficiado com justiça e com amor de forma tão sábia.

Mas de todos os aspectos que Stott vê na cruz, acredito que o poder é que fez Paulo escrever aquele texto. A explicação ele mesmo dá: a cruz o crucificou para o mundo e o mundo para ele. Ou seja, a cruz fez com que o mundo – aqui entendido como todos os apelos por condescendência, concupiscência, leniência, orgulho, auto-satisfação a qualquer custo, ou seja, o exato contrário do que pode ser chamado em melhor grau de amor, justiça e sabedoria! – perdesse completamente seu poder sedutor. O poder da cruz é maior do que o do mundo, porque a cruz anula o mundo. A cruz confere a Paulo o poder de não se sujeitar a tudo o que o mundo representa.

Esse poder está longe, muito longe de ser pequeno. Ele é sobrenatural, raro e de impacto inignorável, primeiramente para quem dele se aproveita, e em segundo lugar para quem rodeia essa pessoa. A cruz é fonte de poder. E, superada minha cisma matinal, vivo meus dias porvir me gloriando na cruz de Cristo, cujo poder sinto pulsar dentro de mim.

Marco Aurélio BrasilPorque me ufano da cruz
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O que a distância faz…

Aquilo não lhe parecia vida. A vida de verdade parecia estar sempre distante. E uma coisa se interpunha entre ele e a vida: o fato de o pai ainda respirar. Como irmão mais novo, ele teria direito a um terço da herança de seu pai, mas pedir que ela lhe fosse transmitida estando ele ainda vivo era o mesmo que dizer “eu preferiria que você estivesse morto!” A atitude do pai é sempre surpreendente. Em lugar de dar aquilo que o filho merece, ele respeita sua liberdade; a liberdade de acalentar o desejo de que ele próprio estivesse morto, inclusive.

O filho mais novo cuspiu no rosto de seu pai. Sua atitude foi ofensiva, desrespeitosa, típica de quem já não liga a mínima para o relacionamento com o pai ou o que as pessoas daquela terra vão pensar dele, típica de quem vai com a firme intenção de jamais voltar. Mas ele volta. Humilhado, maltrapilho. Em seus farrapos e havendo sofrido a fome, aquele rapaz já nem se parece mais filho daquele homem. Ele cheira diferente. Ele tem um sotaque diferente. Ele exala uma ética distinta da do pai. Toda aquela figura ostenta uma escala de valores que não se encaixa à do pai. Ainda assim, o pai segue surpreendendo. Ele puxa as vestes para cima desnudando suas pernas em público para conseguir correr. E ele corre na direção do rapaz. Encurtar o caminho, apressar o beijo e o abraço, apertar firme aquela figura para todos os demais repugnante, tudo isso era mais importante do que seu status de senhor de terras, do que o respeito ou o que as pessoas podiam pensar dele.
Ele interrompe o discurso ensaiado do rapaz. Não quer perder tempo com isso. Dá ordens para uma festa. Manda vestirem-no com a melhor roupa (ou seja, a sua!). E há uma razão para isso: Porque este meu filho estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado (Lucas 15:24).
A palavra chave dessa frase é “meu”. Desfigurado, degradado, voluntariamente distanciado de tudo o que o pai é e representa, ainda assim ele segue sendo dele. O que o pai sente pelo filho independe de suas escolhas lamentáveis.
O filho é você. Não importa o que passou. Não importa os muitos e muitos quilômetros que você colocou entre si e o pai em busca daquilo que lhe parecia vida. Não importa nem mesmo se você não se sente tão longe quanto o filho da parábola, acalentando a ideia boba de que refazer o caminho até o pai será mais fácil já que não está propriamente jogado aos porcos, e com isso postergando a volta ano após ano.
Você é dele. Você é dele.
Marco Aurélio BrasilO que a distância faz…
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Os Fins Justificam os Meios

Esse paradigma, muito utilizado por N. Maquiavel em sua obra “O Príncipe”, foi utilizado por um conhecido cantor sertanejo, no último domingo (14/01) ao parar o carro às margens de uma rodovia, em Goiás, e pegar algumas espigas de milho de uma plantação. “Gente, eu num guentei não. Deus perdoa nóis (sic). Achei uma plantação de milho aqui, nóis vamo roubar uns milhos (sic)” diz ele, no vídeo postado em sua rede social. Após pegar várias espigas ele diz que não podia pegar muito, pois, sendo apenas para consumo, Deus perdoaria seu ato.

Longe de mim atacar ou acusar quem quer que seja, desejo apenas fazer uma reflexão sobre como procuramos justificar e desculpar atitudes erradas. Tudo começou com Eva, que pegou e provou do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, justificando que queria ser igual a Deus. Para não perder a mulher Adão comeu do fruto, daí em diante o que se vê é toda a sorte de desculpas para justificar o erro.

O hino “Graça” https://www.youtube.com/watch?v=NT-WLZrGBK4 (Arautos do Rei) traz uma frase muito profunda: “ (…)pecado não se explica, pecado se paga(…)”. Enganam-se aqueles que pensam que podem agir de forma desordenada sem que isso lhes traga consequências, pois tudo o que semearmos colheremos (Gálatas 6:7). O pecado de Adão e Eva trouxe a morte a seu filho Abel e vários animais, que serviram de sacrifício, o pecado, suas consequências e as desculpas para ele, foram passando de geração em geração.

Felizmente a Graça divina está aí para nos livrar do peso e da punição eterna do pecado (Romanos 6:23), mas temos uma parte a fazer: “Busquem o Senhor enquanto podem achá-Lo. Peçam sua ajuda, enquanto Ele está perto. Os pecadores devem abandonar seus maus caminhos; devem deixar de lado seus maus pensamentos. Todos devem se voltar para o Senhor, arrependidos, e Ele mostrará a sua grande misericórdia. Voltem-se para o nosso Deus, pois Ele mostrará como é imenso o seu perdão” (Isaías 55:6-7 – BV).

Os fins não justificam os meios, por mais racionalizável que seja, pecado sempre será pecado. Arrependa-se, busque o Eterno e receba o seu perdão.

Gelson De Almeida Jr.Os Fins Justificam os Meios
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O preço

Para uma criança pobre pode ser motivo de perplexidade ver os brinquedos de uma criança rica. Brinquedos que a ela pareceriam o supra-sumo do gozo, que ela sonharia febrilmente em ter, estariam na casa da criança rica quebrados ou largados no ostracismo de alguma caixa empoeirada. Por que aquilo que é um tesouro para uns pode ser motivo de desprezo e descaso para outro?

Aquilo que se ganha com frequência e que cai no nosso colo sem esforço, tende a não valer muito para nós. E é assim que muitas vezes lidamos com a salvação em Jesus Cristo.

O próprio termo que designa a forma pela qual somos salvos insinua essa percepção: graça. Somos salvos pela graça, somos salvos de graça. Não existe nada que o Salvador espera que façamos antes de nos salvar, então a cruz está aí, como o destroço salvador de um naufrágio, só precisamos abraçar.

Só somos capazes de desprezar ou menosprezar a salvação porque escolhemos ignorá-la ou porque cultivamos essa ideia de graça barata, de algo que, de tão fácil, não tem grande valor, podemos dar a
atenção a isso mais tarde, vai estar sempre aí.

Acontece que a graça só é “barata” para quem recebe. Para Quem dá, ela custa tudo. Morris Venden, um entusiasta da graça e um dos expositores mais didáticos dela que eu conheço. Ele ilustra esse
ponto da seguinte forma: ele, um pastor, está trafegando por uma estrada em velocidade excessiva. É parado por um guarda, que aponta para seu erro. Ele tenta se explicar, fala do velório no qual precisa falar e para o qual está atrasado. O guarda compreende a situação, mas, ao invés de simplesmente deixar de multar o pastor, ele aplica a multa. Ele diz que a lei precisa ser respeitada e a lei exige que, ante uma tal infração, a pena seja cominada. Só que, por se compadecer da situação do pastor, ele mesmo leva a multa até a cidade e a paga.

A salvação não é um passar a mão na cabeça da criança bagunceira e dizer que está tudo bem. É um Deus que se doa e passa a sentir os espinhos e pregos em Sua própria pele, é o divino sentindo-se
desamparado, solitário, incompreendido e alquebrado, para que os desamparados, solitários, incompreendidos e alquebrados pudessem ter esperança e viver da forma como Ele idealizou para ser. A salvação tem um preço altíssimo. Desprezá-la é enfiar aqueles cravos um pouco mais fundo na agonia dEle.

Sempre que penso na enormidade da salvação, lembro de Paulo, que ao encontrar Jesus teve os olhos cobertos por um tipo de escamas. Conosco é o dia-a-dia e nossa propensão ao egoísmo mais extremo que nos tampa a vista. De quando em quando precisamos que as escamas caiam para que vejamos.

Marco Aurélio BrasilO preço
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(i)Lógica

A graça, a maravilhosa graça de Deus, não pára de me surpreender nem de desafiar meus conceitos do que é justo e lógico.

Jesus disse que João Batista era o maior dos seres humanos, ou seja, ninguém é mais digno de respeito e honra que ele, correto? Fala-se pouco dele na Bíblia, mas por essa fresta eu consigo antever não alguém que tem uma idéia distorcida de seu próprio valor e do valor dos outros, pelo contrário: alguém absolutamente consciente de sua missão e de seu papel na efetivação da vontade de Deus na Terra. É por isso que fica evidente o abismo existente entre a humanidade e Deus, pois ele, o maior dos seres humanos, diz não ser digno sequer de se abaixar e desatar as sandálias de Jesus. Se o maior dentre nós não presta nem para o serviço mais humilde a Ele, quem pode? Jesus precisa convencer João a batizá-lO, porque ele realmente tinha a noção de maior e menor e ela lhe era amplamente desfavorável.

Se ninguém na Terra era digno de desatar as sandálias de Jesus, por que O vemos curvado e lavando os pés de homens? Não de homens dentre os maiores, mas de um grupo ordinário, que há poucos discutia quem seria o maior no reino que Jesus jamais fundaria – pelo menos não do jeito que esperavam. Ele se abaixa, toma um toalha e lava os pés daquele que já havia combinado de traí-lO e daquele que dali a algumas horas estaria praguejando e vociferando para convencer os outros que não O conhecia. Pois é, isto é graça.

Não que Deus despreze as noções de dignidade e hierarquia, pelo contrário. Sendo a expressão máxima de justiça, Ele tem o máximo zelo em dar a cada um o que é seu e ninguém é mais digno de veneração, obediência, louvor, temor, respeito e glória que Ele.

Mas como nós, ao escolher o caminho descendente, perdemos a capacidade de reconhecer que Ele é digno de tudo isso, Ele adota a medida extrema de Se fazer menor do que os menores, para, pelo
absurdo dessa declaração de amor, abrir seus olhos.

O amor inaugura a graça e a graça subverte tudo. A graça torna o indigno objeto do maior sacrifício. A graça faz o mais rico consentir e Se fazer o mais pobre para que o mais pobre possa ser rico. A graça contamina até mesmo a mais exata das ciências, pois na matemática divina um é mais importante que noventa e nove.

A graça desafia meus conceitos de certo e errado. Acostumado a torcer para que o mau morra no fim do filme da forma mais violenta e torturante possível, não consigo entender que, confrontado com o espelho e notando que o mau sou eu, tenha, em lugar da morte violenta e dolorosa, vida eterna e abundante. Continuo estupefato e algo me diz que assim será pela eternidade afora.

Marco Aurélio Brasil(i)Lógica
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Gratia

Se, como vimos semana passada, temos problemas com o primeiro lema da reforma protestante, o sola scriptura, nem preciso falar do segundo. Adventistas tem uma treta história mal resolvida com o sola gratia.

A igreja adventista vicejou em um contexto eminetemente protestante. Pessoas que pregavam o sola gratia havia três, quatro gerações inteiras. Quando alguém apontava aos dez mandamentos, a reação natural de qualquer pessoa crescida nesse ecossistema era a de dar de ombros e responder coisas como “a letra mata mas o espírito vivifica”, ou “não estais mais debaixo da lei”, sem atentar à mostruosa incoerência que seria preservar nove mandamentos mas abolir um que não fora expressamente revogado nas Escrituras. Dessa forma, o movimento adventista do sétimo dia se sentiu portador de uma missão muito nobre, entre outras: a de reposicionar a lei a seu devido lugar.
É claro que por esses movimentos pendulares típicos da raça humana, ao enfatizar a perenidade e validade da lei, começou a haver confusão sobre o papel da lei, sobre a sua finalidade. Ainda ontem ouvi alguém dizer que quando nós nos conformamos à vontade de Deus buscando a perfeição (o que envolve cortar laços com tudo que é “do mundo”, qualquer objeto cultural que apresente elementos não facilmente identificáveis como sacrossantos), as coisas começam a acontecer. Embora essa não seja a pregação da igreja adventista, é o modo de pensar típico de grande parte de seus membros.
Sola gratia, o lema reformado com o qual a igreja adventista oficialmente concorda integralmente afirma que a salvação é unicamente pela graça. Philip Yancey começa seu clássico Maravilhosa Graça (um livro que todo cristão deveria ler) afirmando que “graça” é uma das poucas palavras da língua inglesa que preserva seu sentido unívoco (diferentemente de amor, por exemplo). Bem, não podemos dizer o mesmo. Em português, uma coisa cheia de graça pode ser algo bem diferente dependendo do contexto. A graça sobre a qual Paulo escreveu em Romanos e Gálatas, a graça que Jesus Cristo personificou perfeitamente, é algo que é feito em favor de alguém antes de qualquer sombra de merecimento. É o pai que faz a festa para o filho pródigo que não merecia. É a ovelha perdida que custa o risco fatal corrido pelo pastor. E não existe um cabelinho sequer de mérito humano no que vem na sequência, Ele é quem opera o querer e o efetuar.
O que fez Lutero interromper sua subida de joelhos pela escadaria da Basílica de São João Latrão em Roma, em 1511, e descer os degraus envergonhado, foi a descoberta de que nada que ele pudesse fazer, nenhuma conformação comportamental, nenhuma penitência, nenhuma atitude ascética, nenhuma obra de caridade, nenhum sacrifício próprio, nada que ele fizesse poderia tornar o sacrifício de Cristo em seu favor melhor ou mais bem acabado. Ou, como escreve Yancey com rara felicidade, resumindo a mensagem da graça: nada que você faça pode fazer Deus o amar mais. Nada que você faça pode fazer Deus o amar menos.
Faça um teste para ver se você entendeu o que realmente significa sola gratia. Sua vida transborda gratidão, maravilhamento e anseio por viver da forma que melhor agrada o Deus de toda graça? É isso o que essa mensagem pregada há 500 anos faz com a gente…
Feliz sábado, @migos!
Marco Aurelio Brasil, 27/10/17
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Perdoado

Provavelmente você conheça a história do médico e filantropo escocês que tinha por hábito ajudar os menos favorecidos. Após sua morte, examinando seus livros, sua esposa, de coração não tão bom quanto o seu, descobriu aquele que seria o “livro caixa” do marido. Em todas as folhas havia o nome de uma pessoa, o procedimento médico realizado e o custo do mesmo, mas, sobre alguns nomes estava escrito: “Perdoada, demasiado pobre para pagar-me”.

A avarenta mulher levou o caso aos tribunais para ver a melhor maneira de receber aquelas pendências, mas ouviu dos magistrados que, se aquelas anotações haviam sido feitas por seu marido, não haveria tribunal no mundo que permitisse que ela cobrasse.

Ao que você nascer, na frente do seu nome o Eterno escreveu “Perdoado, com direito à salvação”. Você já parou para pensar na profundidade disso? Consegue imaginar em como a dinâmica do universo foi alterada apenas para que o Criador viesse aqui morrer em seu lugar? E o preço de toda essa operação, quanto seria? Se sequer conseguimos imaginar o valor, como poderíamos pagar o preço de nossa salvação?

Só existe uma pessoa em todo o universo capaz de fazer com que você perca a salvação, VOCÊ mesmo. Nem o Eterno tirará esse direito de você, pois, tem a imutabilidade como uma de Suas características, Ele não muda (Malaquias 3:6), mas deixou a cada um de nós o direito de escolha.

Salvação ou perdição, só existem essas duas opções, nossas escolhas diárias definirão nossa situação final. Viva bem para viver eternamente.

Gelson De Almeida Jr.Perdoado
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Parábola

Torno a falar-lhes por parábolas, dizendo: Apesar de serem dez os filhos, nenhum deles podia reclamar de falta de amor daquele pai. Havia ali em dose suficiente para cada um, e sobrava bastante. Para que tivessem uma infância e juventude saudáveis, aboletou-se com eles em uma praia paradisíaca, onde tinham espaço e liberdade. Havia um único lugar proibido: o porto, onde, de quando em vez, atracavam navios mercantes do oriente distante. Esses orientais tinham fama de aliciarem jovens nativos que nunca mais eram vistos.

Você já imagina o que aconteceu. Um dia, os filhos saíram juntos para brincar e não voltaram mais. O pai procurou por toda parte, chamou o nome de cada um, e constatou então que o que mais temia havia acontecido. Decerto seus filhos haviam sido seduzidos a embarcar. Por temer que aquilo fosse acontecer um dia, o pai já tinha um plano engatilhado. Vendeu seu negócio, amealhou uma boa quantia e comprou uma passagem para o oriente. Fez um longo, muito longo caminho, para trazer os filhos de volta.

Encontrou-os espalhados, miseráveis mas encantados com as cores, cheiros e texturas daquela terra distante. Horrorizado, constatou que eles já não se lembravam mais dele e não queriam sua companhia.

O pai instalou-se em um lugar onde poderia acompanhar as vidas de seus filhos. Decidiu que, já que eles não queriam contato com algum com ele, teriam sua vontade respeitada; ele ficaria à distância.
Escolheu um deles então, e começou a mandar pelo correio dinheiro, para tirá-lo da mendicância, e fotos de sua vida passada cheia de felicidade – nas quais o filho mal se reconhecia – acompanhadas de cartas prometendo restaurar aquela felicidade se tão somente ele retornasse, garantindo que ele estava muito, muito perto. Pedia, também, que esse filho contasse aos outros essa notícia fantástica.

O dinheiro fez muito bem àquele filho. No contato com os irmãos, demonstrava que era superior, já que era objeto dos favores especiais do pai – embora a palavra pai fosse esvaziada de sentido para todos. Claro que ele não contou a nenhum deles que aqueles favores todos estavam à disposição de cada um deles. Como havia melhorado de posição, resolveu evitar o contato com os irmãos, apenas dando uma olhada em suas práticas e imitando sua devoção ao que chamavam de pais, pinturas de venerandos homens orientais pintadas por eles próprios.

Durante todo o assédio daquele pai desconsolado, os orientais não deixavam de seduzir os irmãos, de modo que eles estavam se tornando cada vez mais parecidos com eles até mesmo fisicamente. O pai via tudo, e chorava. Sentia-se só.

Tanto mais quando aquele filho que ele havia escolhido para ser o porta-voz de sua misericórdia passou a rejeitar suas cartas. De fato, esse filho preferiu voltar ao estado de mendicância e escravidão na terra estrangeira, seduzido por quinquilharias e substâncias que causavam prazer tão intenso quanto efêmero. Aquele homem, pai de dez filhos, ainda tendo nos ouvidos os gritos alegres das crianças em sua casa, a algazarra típica de uma casa cheia, padecia uma profunda e irreversível solidão.

Mas o amor poderia levá-lo ainda mais longe. Ele se tornaria um mendigo entre seus filhos. E continuaria a apelar.

Marco Aurélio BrasilParábola
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Onde a meritocracia não funciona

Uma religião centrada no que se deve fazer e deixar de fazer cai no erro fatal da fé cega na meritocracia. Você pensa: “se eu faço as coisas certas do jeito certo e no dia certo, Deus está obrigado a me amar” (não, infeliz, não. Olha pra cruz de novo e veja que Ele já o ama, e de um jeito muito louco que você é incapaz de reproduzir até pelo seu próprio filho amado). E depois que você se convence de que está colocando Deus no cabresto pelo seu comportamento inatacável, você acaba pensando algo assim: “Eu faço as coisas certas, do jeito certo e no dia certo mais do que aqueles ali, logo, minha recompensa será maior” (ah é, gênio?)

O jovem rico era desses, por isso chegou a Jesus com a pergunta errada, embora pareça tão lógica e natural pra qualquer ser humano: “o que eu devo fazer de bom para conseguir a vida eterna?” Depois que ele vai embora, escandalizado com o desafio feito por Jesus de começar a viver uma religião centrada em um relacionamento e não numa lista de podes e não podes, Jesus se vira para seus discípulos e conta uma das parábolas mais curiosas de todas que estão registradas nos evangelhos. Ele diz que o reino dos céus é como o sujeito que acordou de madrugada e foi buscar trabalhadores para sua vinha, combinando de lhes pagar um denário. Quatro outras vezes esse senhor sai ao logo do dia, colocando mais gente para dentro de sua vinha, dizendo que lhes pagaria “o que for justo”. No final do dia, começando pelos que trabalharam menos, ele dá a todos a mesma recompensa: um denário. O que revolta os que trabalharam o dia inteiro.
Bem, a vinha é uma figura clássica de Israel, o povo escolhido e, na dispensação cristã, da igreja. Logo, a primeira coisa que essa parábola me diz é que tem muito trabalho a fazer. Quanto mais gente for colocada para trabalhar, melhor, porque o trabalho simplesmente não acaba. E é claro que precisamos pensar o que seria “trabalhar na igreja”, já que temos uma ideia tão errada disso. Mas não tenho espaço para isso agora, peço perdão.
A segunda coisa que essa parábola me diz é que a graça divina sempre soa injusta, pelo menos aos olhos de quem está preocupado com o que os outros estão ganhando. Os trabalhadores do dia inteiro receberam estritamente o que fora combinado, o que fora prometido. Em lugar de agradecer ter tido trabalho, eles só estariam satisfeitos se recebessem mais do que os demais.
Se a gente olhasse pra cruz do jeito certo, a gente exultaria o fato de o Senhor ter dinheiro suficiente para dar um denário inteiro aos demais também. A gente exultaria pelo fato do pai ser suficientemente rico para matar um bezerro para festejar o filho que retornou. Se a gente olhasse para a cruz do jeito certo e visse o que ela revela sobre quem nós somos e o que mereceríamos não fosse a graça, iríamos ansiar pelo retorno do irmão rebelde com o mesmo grau de ansiedade do próprio pai.
Mas isso só acontece quando a gente percebe que a religião de Jesus Cristo é centrada em uma relação de confiança, e não nas imitações do comportamento que deflui dessa relação.
Marco Aurelio Brasil, 02/06/17
Marco Aurélio BrasilOnde a meritocracia não funciona
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