Publicações com Liberdade

Nostalgia da ditadura

Para minha geração, que foi educada num ambiente em que os formadores de opinião eram os torturados, a ditadura militar é a própria encarnação do mal. Curioso, então, tropeçar de quando em vez em pessoas mais velhas que suspiram com nostalgia pela ditadura. Aquele tempo é que era bom, dizem eles. Havia investimento em infraestrutura no país, os governantes eram mais sérios, etc e tal. Colocados na balança a liberdade de pensamento e expressão e o estado de direito de um lado e, de outro, essas virtudes da ditadura, lhes parece bem melhor o antigo estado de coisas.

 

Os hebreus recém libertos de uma escravidão de quatro gerações também suspiraram com saudades da tirania. Entre a liberdade e a dignidade de um lado e carne com cebola de outro, lhes pareceu bem melhor o antigo estado de coisas.

 

Você conheceu a verdade e ela o libertou da tirania (“conhecerei s a verdade e a verdade vos libertará” João 8:32) e agora você coloca na balança a liberdade genuína contra as delícias da ditadura. Era mais fácil, então. Você não tinha que fazer escolhas morais, bastava se deixar levar pela maré. Você podia engrossar o cordão dos que descem a ladeira no bloco de carnaval. Era só copiar os outros, sem dilemas ou conflitos internos. Fácil. Divertido. Quem disse que a liberdade é tão divertida quanto a ditadura e a escravidão?

 

Jesus Cristo não nos libertou para coisas pequenas. Ele nos chamou a ansiar coisas melhores. Você pode ficar com música, cinema e literatura ruins, mas Ele o chamou para coisas mais altas. Você pode ficar com comida ruim, mas Ele o chamou para desejar algo mais elevado. Você pode ficar com relacionamentos superficiais e destrutivos, mas Ele o chamou para algo muito melhor. A liberdade de Cristo o liberta para poder ansiar coisas mais altas. Pode parecer menos interessante agora a liberdade e a dignidade do que carne com cebola, mas só quem experimenta a liberdade e nela mergulha com volúpia consegue ler a balança do jeito certo e ver que não há comparação justa entre as duas coisas. Por mais que você queira, um oratório de Bach será sempre milhões de vezes melhor que uma marchinha de carnaval.

 

Pare de suspirar com nostalgia da tirania. Jesus Cristo pagou com Seu sangue o preço de você poder querer muito, muito mais!

Marco Aurélio BrasilNostalgia da ditadura
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Independência ou morte

Amanhã o Brasil celebra sua independência frente a Portugal. Festejamos o dia em que demos o grito do basta, deixamos de ser o quintal do país europeu, chacoalhamos de sobre nós o jugo da escravidão e passamos a ser livres para determinar nossos próprios caminhos.Na sequência escolhemos um monte de caminhos errados, é verdade, mas liberdade é o tipo de coisa que faz sentido comemorar. Ninguém questiona a alegria que nasce da libertação.

Pensando nisso, pego em minhas mãos um dos CDs do cantor Leonardo Gonçalves e noto que aparece como tema central de duas de suas músicas, e como tema incidental em outra, a liberdade em Cristo. Por que tanta ênfase num mesmo assunto? É que é um ótimo assunto pra se enfatizar!

Falai de tal maneira e de tal maneira procedei como havendo de ser julgados pela lei da liberdade”, orienta Tiago (2:12). Jesus andou na mesma linha dizendo que “se... o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8:36). Só que a maior parte das pessoas que eu conheço que abandona a fé e a congregação da igreja afirma, por atos ou palavras, que está justamente em busca de liberdade. Quer determinar seus próprios caminhos, escolher livremente o que fazer com seu corpo, seu tempo, seus recursos. Não é um paradoxo? Afinal de contas, mergulhar de cabeça em Cristo e aceitar de bom grado - com entusiasmo até - participar de Sua igreja liberta as pessoas? Mas como, se a maioria esmagadora das igrejas impõe um estilo de vida rígido e se arroga o direito de julgar quem dele discorda (ao passo que a minoria que não faz isso descamba, no mais das vezes, para uma atmosfera permissiva que dá a impressão de que a fé e o evangelho são coisas baratas)? Como se, fazendo isso, eu estou fatalmente deixando de fazer coisas que eu fazia livremente?

Uma das frases do Leonardo Gonçalves ajuda a desatar esse nó. Ele canta: “sempre estive preso ao meu prazer e minha dor/mas eu hoje tenho liberdade no Senhor...”. Viver para servir a seu próprio prazer e para evitar sua própria dor é uma falsa liberdade, por “n” razões. Que nosso coração e nossos sentidos são péssimos aios, fazendo com que o prazer de agora redunde em dor e sofrimento prolongado no amanhã é uma delas. Que fomos feitos à imagem e semelhança de um Deus que vive para servir, e, portanto, que o egoísmo é negar nosso propósito e nossa natureza originais é outra razão.

Reconhecer-se pequeno e submeter-se ao grande que nos ama é, sim, experimentar liberdade, liberdade que Jesus chama de “verdadeira” – indicando assim que há uma falsa liberdade. Fazê-lo é sentir-se livre de si mesmo, apto a resistir aos prazeres que – esses sim! – viciam e aprisionam e a suportar a dor que antecede a felicidade plena.

Essa liberdade não é fácil de entender, especialmente em nosso século. Gostei de ver o artista dedicar-se ao tema, denotando assim haver atingido um grau de certa maturidade espiritual. A mesma que lhe desejo, porque sentir o vento dessa liberdade no rosto é uma experiência indescritível.

Marco Aurélio BrasilIndependência ou morte
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