Publicações com Marco Aurélio Brasil

Fugindo da depressão

Os dois exemplos de personagens bíblicos que sofreram de depressão citados na semana passada têm como causas da enfermidade um fato assemelhado. Elias viveu um pico emocional e espiritual no monte Carmelo, foi usado por Deus de forma espetacular perante todo o povo reunido. Decerto ele esperava que aquele evento fosse o despertar de um grande reavivamento nacional, um grande movimento de retorno ao culto a Deus, mas em lugar disso o povo voltou para suas casas e a rainha mandou dizer que ia matá-lo. Elias pulou do pico do monte para uma depressão profunda (a propósito, as depressões logo após grandes ápices espirituais são mais comuns do que se diz por aí).

Jonas, por sua vez, tinha idéias muito rigorosas de justiça e quando viu Nínive ser salva, embora houvesse de certo modo trabalhado para isso, pregado na cidade por três dias chamando-a ao arrependimento, caiu também ele na depressão profunda. Talvez estivesse preocupado com sua reputação, porque havia pregado que a cidade seria destruída. De qualquer forma, assim como foi com Elias, a depressão de Jonas nasceu da contrariedade. Eles esperavam que as coisas andassem num sentido, mas viram ela dar um pinote em direção diferente.

Nem preciso dizer que estamos todos sujeitos a contrariedades. Mesmo em coisas que são vitais para nós, não temos qualquer garantia de que elas vão acontecer e do jeito que sonhamos. O quê, então, precisamos fazer para quando esse dia chegar não cairmos numa caverna qualquer e pedir a morte a Deus, espalhando tristeza e desesperança também ao nosso redor?

É preciso confiar. “Entrega teu caminho ao Senhor, confia nEle e o mais Ele fará” (Salmo 37:5). Precisamos desenvolver agora, antes dos momentos de contrariedade, um espírito de confiança. Isso é o tipo de coisa que não aparece do nada e nem com relação a estranhos. Você só confia em quem conhece, por isso é preciso soltar nas mãos dEle hoje as coisas pequenas, depois as médias, para estarmos aptos a soltar as grandes quando elas não saírem do jeito que sonhávamos. É preciso ser capaz de falar com a boca cheia que temos um pastor e que nada nos faltará, nem que atravessemos vales sombrios. É preciso alimentar a mente de coisas positivas e luminosas.

Mas hoje em dia um gatilho muito comum da depressão é o stress. É de vital importância respeitarmos os limites do corpo. Dar-lhe descanso. E para vencer a tentação de se encher de atividades e
obrigações, de trabalhar excessivamente ou de relaxar assistindo um pouco de TV altas horas da noite ao invés de descansar é preciso colocar seu corpo como prioridade. Outra coisa interessante que as pesquisas apontam: apenas uma minoria das pessoas que sofrem de depressão tinham hábitos de exercícios físicos. Atividades físicas liberam endorfinas e mantém as defesas do organismo contra a depressão bem altas. Se essas atividades forem realizadas ao ar livre, muito melhor, o efeito será duplo.

O bem estar de amanhã depende de escolhas que precisam ser feitas hoje. Pense nisso.

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Depressão

Num momento Elias está sobre o monte Carmelo ridicularizando os 400 profetas de Baal e conduzindo seu morticínio. No instante seguinte nós o vemos fugindo desesperadamente, entrando dentro de um deserto e atirando-se embaixo de um zimbro, pedindo a morte a Deus. Foi preciso que um anjo o chacoalhasse duas vezes e o fizesse comer e continuar andando (I Reis 19).

Num momento Jonas está compondo um lindo salmo de louvor a Deus pela salvação operada através do peixe que o engoliu. “Eu te oferecei sacrifícios com a voz de ação de graças. O que votei, pagarei”, diz ele (Jon. 2:9), mas no instante seguinte ele está assentado do lado de fora de Nínive, pedindo a morte a Deus. “Desejou com toda sua alma morrer” (3:8)… Então Deus aparece e tenta fazê-lo ver como era irrazoável que ele estivesse naquele estado de espírito.

Quando promovíamos lá na igreja oficinas sobre estudos bíblicos, aparecia meia dúzia de gatos pingados. Quando, entretanto, promovemos uma palestra sobre depressão, tivemos que, às pressas, mudar para um auditório maior porque apareceu uma pequena multidão. Ali aprendi que a depressão tem uma causa física, a baixa de serotonina, mas geralmente tem um gatilho emocional. No caso dos exemplos bíblicos, Elias e Jonas desanimaram da vida e suplicaram a morte porque as coisas não saíram da forma como eles gostariam, como eles achariam mais correta. Elias esperava que após o incidente do Carmelo o povo o carregasse nos ombros e promovesse uma reforma profunda em Israel, defenestrando a ímpia rainha Jezabel. Quando ele viu que todos voltaram para suas casas como se nada houvesse acontecido e que a tal rainha queria o pescoço dele, desabou. Jonas queria que Nínive, a cruel capital da Assíria, fosse consumida pelo fogo. A misericórdia divina lhe parecia injusta. Ao testemunhá-la, desabou.

Hoje em dia uma das causas mais freqüentes da depressão é a estafa, o excesso de trabalho e atividades, mas também é comum ver pessoas em depressão após que os filhos deixam a casa, quando se perde alguém querido, quando sonhos são desfeitos e por aí afora. A experiência de Jonas e de Elias, contudo, me mostram que Deus não gosta nada disso. Ele manda anjos nos chacoalharem e arrazoa conosco nos chamando à razão.

Sendo a Vida, Ele quer que nós amemos viver. Na verdade, Ele morreu para garantir isso. Na próxima semana vou tentar falar sobre atitudes que podem nos ajudar a fugir da depressão.

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Os temperos da vida

Em “A solidão segundo Solano López”, excelente romance que narra a Guerra do Paraguai, Carlos de Oliveira Gomes descreve o ataque a um vilarejo paraguaio sob a ótica de um soldado adolescente. Ele está ansioso para poder fazer duas coisas que nunca fez: comer açúcar e fazer sexo. Imagine a explosão de sensações no cérebro de alguém que passou toda a vida sem sentir o sabor do açúcar refinado. Bem, o autor relata pessoas comendo quilos e quilos de açúcar saqueados aos seus inimigos.

Deus polvilhou esse mundo agora maculado de pecado de temperos que tornam a vida cheia de cor e sabor e escreveu a advertência da moderação não na embalagem de cada um desses elementos, mas no interior de nosso coração. Mas quem liga para advertências, não? Para milhões de pessoas, a vida é norteada por demorar-se nos temperos como se eles fossem fins em si mesmos: comer quilos de açúcar de uma só vez, o maior número de vezes possível, por exemplo. E um dos problemas dessa atitude exagerada é que ela desperta a reação dos moderados atacando os temperos como se eles não tivessem vindo das mãos do Criador.

O livro de Cantares, por exemplo, tem uma série de referências ao prazer sexual que boa parte dos eruditos teológicos se esforçam para simplesmente não ver, tentando espiritualizar o texto para que ele se refira exclusivamente ao relacionamento de Cristo com a igreja. Quando a mulher do poema afirma “qual a macieira entre as árvores do bosque, tal é o meu amado entre os filhos; com grande gozo sentei-me à sua sombra e o seu fruto era doce ao meu paladar” (2:3), o comentário adventista afirma: “estas palavras têm sido utilizadas para ilustrar o descanso da alma à sombra do amor de Cristo, desfrutando um abençoado companheirismo com o Senhor”. Mas por que o texto não pode estar celebrando aquilo que obviamente está? Onde está o mal de compor um poema celebrando o amor consumado?

O problema real não está aí. Está na forma como milhões de pessoas buscam o tempero (no caso, o sexo), descartando a comida (no caso, o relacionamento de amor, responsável e comprometido) e no seu total oposto: a negação da legitimidade do prazer que o Criador espalhou pela existência e que funciona como setas para o Céu.

Não devemos morar nas setas. Devemos rumar para onde elas apontam. Mas podemos – e devemos! – celebrar Aquele que as colocou ali cada vez que as encontramos pelo caminho.

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Encruzilhadas

Lembro o dia em que estava a trabalho em uma cidade extremamente quente, com ainda duas ou três horas para meu voo de volta. O calor desaconselhava andar pela cidade, meu passatempo preferido quando estou em um lugar desconhecido, então o jeito foi zapear pela TV do hotel, que tinha poucos canais. Achei um filme de aventura, desses em que se gasta milhões de dólares e que eu não assistiria nem por decreto em condições normais, e fiquei ali assistindo. Depois de terminado, arrumando minhas coisas para sair, além de ter a sensação de perda total de tempo, fiquei me perguntando o quê no filme parecia tão deslocado. Claro, o roteiro era absurdo, cheio de furos, de personagens inúteis, mal dirigido, com um final bobo, mas havia alguma outra coisa. Ah, sim. Localizei a fonte de meu estranhamento: a heroína, nas piores situações, estava sempre com uma expressão de que sabia exatamente o que fazer. E sempre fazia a coisa certa, na hora certa, do jeito certo e sem desarrumar o cabelo. Impressionante.

Mais que todo o besteirol, é uma personagem assim que soa profundamente inverossímil. Não pelo cabelo, mas por ser senhora absoluta de todas as situações, mesmo as mais inusitadas. Porque
nós, seres humanos, não somos assim. Volta e meia nos vemos em impasses desconcertantes de dois tipos, basicamente. Podem ser encruzilhadas quanto a que caminho seguir na vida, grandes decisões que precisam ser tomadas e que, por desconhecermos o futuro ou o que envolve exatamente cada tomada de rumo, nos deixam angustiados. Podem, também, ser decisões que tenham repercussão
espiritual. Situações em que não conseguimos ter certeza de estar agindo certo.

Existem, de fato, ocasiões para as quais não fomos treinados. Por medo delas é que se perde tanto tempo discutindo em igrejas trivialidades. As pessoas querem um claro “isso pode” e “isso não
pode” na esperança de jamais se encontrarem no tal impasse moral. Participei um curto tempo de um grupo de discussão na internet que congregava pessoas de diversas confissões religiosas e me enfadei com uma discussão interminável sobre se as mulheres podiam cortar o cabelo e, se não, se podiam cortar ao menos as pontas. A coisa parecia ter reflexos morais sérios para os envolvidos na discussão.

Você pode não ter problema algum quanto a isso, mas chega um momento em que você realmente não sabe como proceder. Mostrar solidariedade a um amigo solitário indo a sua festa de aniversário apesar de ser no dia santo? Obedecer quando alguém lhe pede para dizer ao telefone que ele não está? Emprestar dinheiro? Sei lá, existem milhares de situações como esta.

E é por causa delas que Deus registra mais uma fantástica promessa em Sua palavra: “Os teus ouvidos ouvirão a voz do que está por detrás de ti, dizendo: Este é o caminho, andai nele” (Isa.30:21). Faça a prova. Na próxima encruzilhada da sua vida, feche os olhos e dedique-se a ouvir a voz de Deus.

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A Copa e a entrega

Esta semana apareceram ambulantes vendendo bandeiras do Brasil, vuvuzelas e camisetas falsificadas da seleção aqui na minha rua. Foi só na segunda semana de Copa do Mundo. A mística do mundial pode demorar, mas sempre chega. O que mais explicaria o fato de pessoas que não suportam futebol abrirem essa exceção de 20 dias a cada quatro anos?

Existe o componente patriótico envolvido, mas o fato é que os jogos de Copa do Mundo em geral costumam ser bem mais emocionantes que os jogos regulares de clubes, exceção feita às partidas eliminatórias de alguns campeonatos. Talvez pelo fato de estarem jogando pelas cores de seu país, mas mais provavelmente pelo fato de saberem que o mundo inteiro está olhando e que ali está a chance dos jogadores de conseguirem contratos melhores, fato é que existe uma presença de entrega nos jogos da Copa que comove. Você se pega sofrendo com pessoas nas quais nunca pensa: islandeses, senegaleses, tunisianos, iranianos e panamenhos.

A entrega continua comovendo, mesmo em tempos hipermodernos. Gilles Lipovetski, um dos melhores leitores de nosso tempo, observou que a globalização neoliberal tornou as sociedades permeadas de valores essencialmente individualistas e tornou absolutamente impopular a entrega, o auto-sacrifício, o endeusamento do dever. Aí você vê aqueles caras se atirando de peito aberto nas divididas, pretensamente pela glória de sua nação, e uma nostalgia de algo que você nem sabia que havia perdido lhe toma o peito. A mística do Mundial tem muito que ver com os valores de um tempo que se foi, trocado por outro com algumas coisas melhores, mas privado de algo essencial.

Aí precisamente reside a relevância do cristianismo. Contra o fluxo das coisas, Jesus Cristo continua requerendo a negação de si mesmo, a tomada da cruz, e o segui-lo. Contra a correnteza da sociedade, Jesus aponta para a maior de entregas já feita, a Sua na cruz, aponta para a vida eterna, e, entre uma coisa e outra, pede que o busquemos de todo o coração, que o amemos com todas as forças, toda a alma e todo o entendimento, que coloquemos Seu reino em primeiro lugar.

Eles tentam, mas não conseguem arrancar do cristianismo aquele algo essencial. Aquele algo que garante que a vida não é vã nem vazia.

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Resolução de anos novos

Na última semana propus que na hora de fazer um balanço do ano que chega ao fim você estabelecesse como padrão de sucesso ter se aproximado mais ou menos do ideal de “homem segundo o coração de Deus”. Hoje quero sugerir que você repense também suas resolução de ano novo. 

Dizem que não é muito bom fazer resoluções muito ambiciosas, do tipo “vou perder 10 quilos”. O mais efetivo é trocar por resoluções mais factíveis. Se a ideia é emagrecer, por exemplo, o sugerido é tomar decisões como “vou tomar refrigerantes apenas aos finais de semana”. Bem, o que eu pretendo sugerir é o exato oposto desse bom conselho. Quero sugerir que você estabeleça resoluções extremamente ambiciosas.
John Piper escreveu:“Jesus jamais será domesticado. Mas as pessoas ainda tentam domestica-lo. Escolhemos uma de suas características que seja capaz de demonstrar que ele está do nosso lado. Todo mundo sabe que é muito bom ter a companhia de Jesus, mas não a companha do Jesus original, não-adaptado. Apenas o Jesus revisado que se encaixa em nossa religião, paltaforma política ou estilo de vida” (Um homem chamado Jesus, Vida).
Hugh Halter, por sua vez, escreveu: “Todo pai quer que o caráter de Cristo, o coração de Jesus ou a mente de Jesus sejam desenvolvidos em seus filhos, mas não fazem questão de ver a vida de missão de Jesus abraçada por eles. Para ser franco, se seus filhos desenvolvessem o coração de Jesus, eles poderiam escolher viver uma vida de serviço que faria vocês se contorcerem. Se eles tivessem a mente de Jesus ou vivessem a vida dEle, poderiam viver uma vida diferente da que vocês vivem hoje. Eles poderiam desprezar a corrida pelo sucesso profissional e financeiro e quem sabe estar perseguindo a justiça, vivendo pelo pobre ou correndo perigo, tudo porque amam a Jesus. A pergunta definitiva, então, está conosco: queremos mesmo que Jesus inteiro seja formado em nossos filhos?” (Exponential 2014).
Os discípulos são a demonstração inequívoca de que é possível conviver com Jesus sem saber quem Ele é de verdade. Ao ressuscitar eles não O reconheceram e sua decepção com a cruz demonstra que esperavam outras coisas do Messias. 
 
Baseado nesses insights, quero propor que não apenas para o próximo ano – porque isso é tarefa para muito mais tempo – você decida se relacionar com o Cristo inteiro. O Cristo completo. O Cristo “não-revisado”. Que você O conheça como Ele Se revelou, sem mistificações, sem filtros de conveniência, sem distorções conscientes ou inconscientes sobre quem Ele é ou sobre quem seria bom que Ele fosse. Que você ore para que essa cirurgia espiritual aconteça em seus olhos e você, livre do entulho retórico acumulado nos anos idos, enxergue Jesus Cristo em Sua glória completa. Pra que seus anos sejam de fato novos.
 
Esta é a última vez que escrevo “feliz sábado, @migos” este ano, então eu o mudo para “boas festas, @migos!” 
 
Marco Aurelio Brasil, 15/12/17
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Moral x Legal

Eleições presidenciais dos Estados Unidos da América costumam envolver uma discussão que não tinha nada de linhas macroeconômicas, projetos estruturais, propostas de saúde ou educação públicas, desemprego ou questões de soberania nacional. Fala-se muito em temas como proibição do aborto, oração nas escolas e direitos dos gays.

Sendo o país próspero que é, pode parecer compreensível e até lógico que os americanos se dêem ao luxo de relegar aquelas outras coisas todas para um segundo plano, mas a verdade é que eles têm muito problema de desemprego, miséria, um sistema de saúde problemático, uma dívida interna gigantesca, enfim, assuntos mais evidentemente “presidenciais” suficientes para deixar a eleição tratando do que deveria tratar. Por que então aqueles outros temas pareceram tão decisivos?

Circulou pela internet com certa insistência no meio cristão um texto que reproduzia uma suposta entrevista da filha de Billy Graham, o famoso pregador, à entrevistadora Jane Clayson na TV americana. A entrevistadora perguntava a ela por que Deus havia permitido algo horrível como os atentados de 11 de setembro de 2001 e a resposta, aparentemente recebida com entusiasmo pelo meio cristão brasileiro também, dizia que Deus estava triste com os EUA por terem proibido as orações e a leitura da Bíblia nas escolas, terem permitido o comércio de revistar pornográficas e por aí afora. Essa resposta está perfeitamente adequada ao pensamento da direita cristã americana, que entende serem os EUA um novo Israel, que só perde uma batalha porque Deus o abandona e Deus só o abandona por ele não ser fundamentalista como o antigo Israel deveria ter sido. Daí transferirem esses temas para a eleição do presidente.

O tema é importante, porque lança luzes sobre o que devemos esperar de nossos representantes políticos. Deveriam eles impor através de leis a prática de princípios religiosos? Deveriam eles impor a cosmovisão cristã como os não-cristãos buscam impor sua cosmovisão evolucionista, ateísta e antropocentrista?

Foram revolucionárias as palavras de Jesus “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Com elas Jesus inaugurou a separação entre Estado e Igreja. Graças a esse ensino, os cristãos não podem impor sua moralidade para todos nem tornar algo ilegal por ser imoral. Não se pode exigir que outros creiam e moral depende de crer.

Curioso notar que no Velho Testamento, os juízos proferidos sobre as nações pagãs pelos profetas não tinham como causa direta a inobservância do sábado ou o descaso com o sistema sacrifical do templo hebreu, mas sim crimes “comuns”, como derramamento de sangue, traição, rir da desgraça alheia e por aí afora. Por aí se vê que nem no tempo da Igreja Estado Deus impunha a religião àqueles que nela não criam.

A fé não se impõe. Ela constrange. Ela conquista. “Porque assim é a vontade de Deus, que, fazendo o bem, façais emudecer a ignorância dos homens insensatos” (1 Pedro 2:15).

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Gratia

Se, como vimos semana passada, temos problemas com o primeiro lema da reforma protestante, o sola scriptura, nem preciso falar do segundo. Adventistas tem uma treta história mal resolvida com o sola gratia.

A igreja adventista vicejou em um contexto eminetemente protestante. Pessoas que pregavam o sola gratia havia três, quatro gerações inteiras. Quando alguém apontava aos dez mandamentos, a reação natural de qualquer pessoa crescida nesse ecossistema era a de dar de ombros e responder coisas como “a letra mata mas o espírito vivifica”, ou “não estais mais debaixo da lei”, sem atentar à mostruosa incoerência que seria preservar nove mandamentos mas abolir um que não fora expressamente revogado nas Escrituras. Dessa forma, o movimento adventista do sétimo dia se sentiu portador de uma missão muito nobre, entre outras: a de reposicionar a lei a seu devido lugar.
É claro que por esses movimentos pendulares típicos da raça humana, ao enfatizar a perenidade e validade da lei, começou a haver confusão sobre o papel da lei, sobre a sua finalidade. Ainda ontem ouvi alguém dizer que quando nós nos conformamos à vontade de Deus buscando a perfeição (o que envolve cortar laços com tudo que é “do mundo”, qualquer objeto cultural que apresente elementos não facilmente identificáveis como sacrossantos), as coisas começam a acontecer. Embora essa não seja a pregação da igreja adventista, é o modo de pensar típico de grande parte de seus membros.
Sola gratia, o lema reformado com o qual a igreja adventista oficialmente concorda integralmente afirma que a salvação é unicamente pela graça. Philip Yancey começa seu clássico Maravilhosa Graça (um livro que todo cristão deveria ler) afirmando que “graça” é uma das poucas palavras da língua inglesa que preserva seu sentido unívoco (diferentemente de amor, por exemplo). Bem, não podemos dizer o mesmo. Em português, uma coisa cheia de graça pode ser algo bem diferente dependendo do contexto. A graça sobre a qual Paulo escreveu em Romanos e Gálatas, a graça que Jesus Cristo personificou perfeitamente, é algo que é feito em favor de alguém antes de qualquer sombra de merecimento. É o pai que faz a festa para o filho pródigo que não merecia. É a ovelha perdida que custa o risco fatal corrido pelo pastor. E não existe um cabelinho sequer de mérito humano no que vem na sequência, Ele é quem opera o querer e o efetuar.
O que fez Lutero interromper sua subida de joelhos pela escadaria da Basílica de São João Latrão em Roma, em 1511, e descer os degraus envergonhado, foi a descoberta de que nada que ele pudesse fazer, nenhuma conformação comportamental, nenhuma penitência, nenhuma atitude ascética, nenhuma obra de caridade, nenhum sacrifício próprio, nada que ele fizesse poderia tornar o sacrifício de Cristo em seu favor melhor ou mais bem acabado. Ou, como escreve Yancey com rara felicidade, resumindo a mensagem da graça: nada que você faça pode fazer Deus o amar mais. Nada que você faça pode fazer Deus o amar menos.
Faça um teste para ver se você entendeu o que realmente significa sola gratia. Sua vida transborda gratidão, maravilhamento e anseio por viver da forma que melhor agrada o Deus de toda graça? É isso o que essa mensagem pregada há 500 anos faz com a gente…
Feliz sábado, @migos!
Marco Aurelio Brasil, 27/10/17
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