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Que terminem os jogos

Eu sempre fui e continuo sendo apaixonado por jogos. Uma fatia relativamente grande de minha infância foi passada à frente de um tabuleiro de War, Detetive, Scotland Yard, Leilão de Arte, Combate, Interpol ou Banco Imobiliário e ainda hoje não rejeito jogar Colonizadores de Catan com meus meninos ou algum jogo inocente de baralho nos momentos de folga. Ainda assim, suspeito que a dinâmica dos jogos transportada para as outras áreas da vida seja responsável por algumas de nossas grandes mazelas.

A dinâmica dos jogos é simples: eu quero ganhar, e para conseguir isso, vou ter que fazer você perder. É uma questão de determinar quem é superior.

Não acredito que os jogos ensinem esse desejo a ninguém, a dinâmica dos jogos aparece muito antes do primeiro jogo. Aparece ali próxima dos dois anos de idade e você pode encontrá-la na criança pequena que chama todo brinquedo de “meu” (sobretudo na presença de outra ou outras crianças) ou que faz questão de falar para as outras crianças que alguma coisa sua (o pai, o carro, a casa, etc) é “mais grande”.

victorieA dinâmica dos jogos se revela cedo e não sai de cena jamais. Está na mulher que quer que seu sapato novo seja notado, que quer ser a mais magra da festa, que se esforça pra que sua sobremesa seja a mais elogiada do almoço de família. Está no homem que estaciona duas quadras antes da igreja onde vai acontecer aquele casamento porque sabe que seu carro não é nada impressionante, que posta fotos no Facebook com ar blasé em algum paraíso tropical como se aquilo fosse sua rotina e que puxa os tapetes necessários para conseguir uma promoção e assim poder ostentar um relógio melhor. Melhor do que os dos outros, claro. Está na necessidade de “fazer um nome”, de ser desejado e admirado.

A dinâmica dos jogos está em absolutamente todo canto. Na disputa eleitoral, na queda de braço por poder dentro da família, da igreja, da empresa ou do clubinho de escoteiros. Está numa conversa aparentemente pueril entre amigos (quem tem a história MAIS engraçada? quem sabe MAIS de economia ou política? quem tem a informação privilegiada que NINGUÈM mais tem? quem tem o filho mais lindo cute-cute ou mais obediente?) Está na creche e no asilo. É onipresente. É ela que nos faz amar a história de Davi e Golias e coçar a cabeça desconfiados de histórias como a de Jó, João Batista e Tiago.

É ela que nos faz amar a história de Davi e Golias e coçar a cabeça com histórias como a de Jó, João Batista e Tiago.

Nosso apego à dinâmica dos jogos revela a quem pertencemos. Revela quem manda nessa bagaça. Falando de Satanás, a Bíblia diz: “E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono…” (Isaías 14:13). Pura dinâmica dos jogos. Em contraste (e que contraste!), Cristo “tinha a natureza de Deus, mas não tentou ficar igual a Deus. elo contrário, ele abriu mão de tudo o que era seu e tomou a natureza de servo, tornando-se assim igual aos seres humanos. E, vivendo a vida comum de um ser humano,ele foi humilde e obedeceu a Deus até a morte — morte de cruz” (Efésios 2:6-8 NTLH).

O exemplo eloquente de Jesus mostra que todos estamos mesmo disputando um jogo, um jogo desesperado, de vida ou morte. Mas o oponente não são os outros, somos nós mesmos. O ego é o inimigo a ser batido, pisado e surrado. É preciso perder para ganhar.

Cristo está convidando a gente para brincar de um jogo totalmente diferente hoje. O jogo do “esvaziar-se”. Quem quer brincar põe o dedo aqui!

(imagem: Mathieu Nain: Allegórie de la Victorie)

Marco Aurélio BrasilQue terminem os jogos
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#não jogo mais bola*

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É tempo de Olimpíada, a maior festa esportiva do mundo, única época em que só se fala de esporte no país, não? (Hahaha, faz-me rir.) Faz parte da vida de milhões de brasileiros a conversa cotidiana sobre bate-bola, os lances da rodada, as melhores jogadas, corridas, sacadas, os mártires e heróis dos gramados, das quadras, das ruas, enfim. A suposta burrice dos técnicos, a genialidades dos craques, a esperteza dos canais de TV em transmitir tudo isso ao vivo (estou falando daquele canal da TV aberta, rssr), tudo isso engrossa o caldo cultural brasileiro. Repare: no elevador do prédio, na padaria da esquina, no táxi, na sala de jantar. A conversa sobre esporte individual ou coletivo, futebol ou vôlei, corrida ou tênis, natação ou esgrima, tudo isso molda nossas relações cotidianas, tempera nossa sociabilidade, dá graça ao ramerrão da nossa segunda feira.

Uma das mais simples coisas incríveis da vida é praticar esportes. Este era um dos maiores prazeres da minha vida na minha infância. Eu não andava na rua, eu corria. Gostava de escalar muros, cercas, árvores, jogar bola na rua na chuva. Preferia (ainda prefiro!) subir escada – pulando os degraus de dois em dois – a esperar pelo elevador. Jogos com bola, então, eram a razão da minha existência. Treinava vôlei no colégio e no clube. Jogava vôlei na rua com fio amarrado de uma arvore a outra e até não enxergar mais a bola. Na minha rua o esporte oficial era taco ou bets (dependendo da região tupiniquin). Calor, frio , garoa, topada no dedão, dor de garganta, cansaço – nada disso era razão para parar. Um dia me dei conta de que era isso mesmo que eu queria fazer da vida. Se eu saía da cama mais feliz quando tinha aula de Educação Física, por que não viver disso? Assim escolhi, entre várias coisas que queria estudar, que essa era minha escolha no vestibular. Eu terminaria o colegial com 17 anos. Com 20 já poderia ser profissional da área que eu “amava”.

Mas na metade do terceiro colegial, conheci a mensagem da cruz e Jesus Cristo deu razão para minha vida. E decidi servi-lo e levar sua mensagem a outros. Pensei comigo: “Você não precisa entrar na faculdade com 17 anos para servir a Deus”. E esperei. Ao fim do ano seguinte, porém, não podia nem pensar em fazer vestibular. O dinheiro era curto demais, até para o transporte. E eu já trabalhava, mas não era suficiente.

“Mais tarde” chegou com empecilhos. Fui pro colégio estudar teologia com 19 anos. Mas fui me envolvendo com outras coisas e tive que trancar o curso. Até que, um dia, tive de reconhecer: a vida tinha tomado outro rumo e a Educação Física estava muito distante de mim, e a teologia então…Doeu quando pensei no que já podia ter feito até ali, se as coisas tivessem sido com eu planejava. Mas não doeu olhar para o futuro e imaginar outra história dali para frente, totalmente nova, sem o plano antigo e fracassado.

Não tenho a menor dúvida de que a capacidade de persistir é uma virtude, mas saber desistir também tem seu valor. Mesmo em época de olimpíada e com nossos atletas voltando para casa com o “bronze” londrino. A vida me impôs condições, mas não me fez largar o esporte. Fui eu que parei de colocar energia nesse plano. E fui ser feliz de outras maneiras. Insistir sempre foi uma característica minha (minha esposa que o diga,rs); mas aprender a desistir talvez tenha sido uma das lições mais importantes que tive. Não foram poucas vezes que precisei praticá-la desde então.

*”Não tenho mais tempo”, mas ainda jogo bola,rs.

Adriano Vargas#não jogo mais bola*
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