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Tudo bem se não está tudo bem

No Brasil, o direito constitucionalmente garantido à livre manifestação do pensamento é tratado na prática como um direito de segunda classe. Um dos mais eloquentes exemplos disso é a proibição judicial que algumas celebridades alcançam para a publicação de biografias não autorizadas a seu respeito. O caso mais famoso é o do cantor Roberto Carlos, que conseguiu impedir a distribuição de uma biografia que, supõe-se, contaria como perdeu uma perna. Esta semana ele ganhou o reforço para essa causa de nomes como Caetano Veloso, Chico Buarque e Djavan.

Os argumentos contra as biografias não autorizadas me soam pífios. Fala-se que não é justo o outro ganhar dinheiro com sua vida ou que o país não está desenvolvido o suficiente para assimilar esse tipo de obra. A verdade é que há uma casta de intocáveis no Brasil, pessoas de quem só se pode falar bem. Pessoas cuja genialidade deve sempre ser exaltada, mas que não admitem ser apresentadas em toda sua falível humanidade. Eles tentam vender uma imagem impoluta que está longe da realidade.
 
E nesse ponto os cristãos em geral são celebridades. Eles também querem vender uma imagem distante da realidade, especialmente aos olhos dos não cristãos. Na pesquisa divulgada por David Kinnaman, que citei na semana passada, 85% dos não cristãos os vêem como hipócritas, ao passo que 47% dos cristãos, um percentual já bastante expressivo, também têm essa percepção.
Podemos relativizar as origens dela, podemos tentar deslegitimar o público pesquisado, mas dificilmente fugiremos da constatação de que alguma razão nós damos para sermos vistos como aquilo que nosso Mestre mais odiava: hipócritas. De alguma forma temos tentado vender uma imagem que, se olhada de perto, vai se revelar pura maquiagem. Afinal, o cristão precisa sempre se parecer um vencedor, alguém em paz, alguém sem grandes conflitos, sem grandes dúvidas, uma pessoa feliz e transbordante de simpatia e amor.
A saída para mudar essa percepção não é proibir biografias não autorizadas. Ou que as pessoas ao nosso redor nos julguem. A saída passa pela honestidade com nosss próprias fraquezas, pela humildade, pela tolerância e por estarmos mais dispostos a agir amorosamente do que a discursar sobre o amor (no que somos ótimos). Algumas igrejas norteamericanas já adotaram o slogan It is ok not to be ok para fomentar essa mudança.
Se ela não acontecer, que grande vantagem temos sobre os fariseus?
Marco Aurélio BrasilTudo bem se não está tudo bem