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Virtude

A psicologia adverte que a repressão pode ser um barril de pólvora com pavio – mais longo ou mais curto, depende do caso – aceso. Sexo reprimido, sentimentos negados, de alguma forma isso envenena a pessoa, podendo se revelar em traços de personalidade nefastos ou estourar em verdadeiras tragédias. Muito convenientemente, o que muitas pessoas fazem com esse conhecimento é esforçar-se por não negar nada do que tenham vontade, o que faria delas seres humanos mais completos, verdadeiros e bem resolvidos.

Contudo, repressão, aqui, parece indicar não algo que foi recusado, mas algo cuja existência foi negada. O cristão que passa anos ouvindo na igreja que deve amar a todos e que ele não deveria parecer jamais alguém triste, amargurado e desesperado pode reprimir sua tristeza, amargura e desespero – coisas típicas de seres humanos – a tal ponto que, colocando no rosto a máscara com o sorriso constante, fermenta dentro de si um pequeno Dr. Hyde; ele pode aparecer de múltiplas formas: como um fanático fundamentalista, como alguém que desconta sua frustração na sua família, revelando-se um monstro da porta de casa para dentro, como alguém que cultiva hábitos hediondos, como uma pessoa obcecada pela perfeição ou então pelo poder dentro de sua comunidade religiosa – e esses foram apenas alguns exemplos. Essa pessoa não sabe que é triste, ela se convenceu de que o cristão não é triste e de que ela é uma cristã; ela tem muita pena de pessoas tristes, sente-se superior a elas e agradece a Deus por não ser assim.

C. S. Lewis, observando o fato pelo prisma da sexualidade, explicou com melhores palavras: “Um desejo ou pensamento reprimido é o que foi lançado no subconsciente (geralmente na infância) e é capaz agora de se apresentar à mente apenas em forma disfarçada e irreconhecível. A sexualidade reprimida não parece ao paciente sequer ser sexualidade.  Quando um adolescente ou adulto está engajado em resistir a um desejo consciente, ele não está mexendo com uma repressão, nem incorrendo no menor perigo de criar repressão. Pelo contrário, os que tentam seriamente ser castos são mais conscientes, e logo conhecerão muito mais da sua própria sexualidade do que qualquer outra pessoa. Eles chegam a ser profundos conhecedores dos seus desejos, da mesma forma que… um caçador de ratos conhece ratos ou um encanador entende tudo de encanamentos. A virtude –  mesmo aquela só pretendida – traz luz; o vício só levanta poeira”.

Como já observei algumas vezes, primeiramente na minha experiência própria e depois nesses textos semanais, quando queremos achar desculpas para fazer o que sabemos que não deve ser feito, nós as encontramos. Algumas são muito, muito convincentes mesmo. “De qualquer modo, é preciso lutar pelo advento de um tempo em que a virtude dirija os homens.” (Cyro dos Anjos, in Abdias).

Marco Aurélio BrasilVirtude