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# A dependência que liberta

Hoje eu li um artigo escrito por alguém que, sentado em um restaurante às margens do oceano atlântico, registrou um fato inesperado. Percebeu que gaivotas permaneciam atentas, próximas às mesas à espera de algum alimento. O observador não pensou duas vezes. Deixou um camarão em um prato vazio e aguardou munido de uma câmera fotográfica. Não deu outra. A gaivota se aproximou, tomou o alimento e alçou voo. Minutos depois estava próxima às mesas novamente.

Foi quando passou a refletir: O que faz uma gaivota passar todo o tempo ao lado das mesas em busca de alimento, enquanto tem um oceano à sua disposição? A resposta foi óbvia: comodidade. Sair em busca de comida requer esforço. Voar, observar, preparar-se e mergulhar em direção ao alimento; nem sempre obtendo o sucesso.

Se olharmos para esta gaivota e ao ser humano em um contexto de dependência, temos a seguinte possibilidade de análise: no caso da ave, sua natureza foi corrompida, levando-a a um estado de dependência artificial que poderá culminar em um problema, caso muito tempo depois o restaurante a impeça de ter acesso à comida. Não se pode afirmar que ela conseguiria sobreviver nessas condições, pois talvez desconheça o ato de colher os frutos que o Criador disponibilizou a ela, ainda que levado em conta o instinto.

Pelo lado humano, inicialmente as possibilidades se parecem. Com a corrupção humana mediante sua primeira desobediência, o homem que tinha tudo ao seu dispor, passou a ser dependente de seus próprios esforços para comer. Banido daqueles campos fartos, a natureza que o acolheu era limitada, o que fez dele um nômade. Então percebeu a necessidade de aprender a cultivar a terra, a pescar e a caçar, colhendo os frutos destas atividades provenientes. Todavia, ainda assim se viu diante da fome, pois nem todos detinham tal conhecimento, e para piorar, à medida dos anos seus próprios pares enxergaram nesse contexto uma forma de comodidade e dominação, exigindo algo em troca do alimento.

Passado um tempo, o Eterno que já possuía a obra para redimir o homem da desobediência e independência iniciais, anunciou-a pelos profetas que levantou, ensinando por meio de um povo escolhido que o homem deve ser grato e dependente do único Criador, e que a busca pelo pão através do trabalho era uma prova de sua nova dependência, isenta de murmúrio, e a capacidade de reparti-lo, a prova de sua obediência e amor.

A obra culminou com a vinda do Messias a este povo, no entanto, insistentes em manter o coração endurecido, não o receberam. Mas a dependência e a obediência precisavam ser plenificadas para que resultassem em liberdade. Ocasião em que a boa nova foi entregue a toda humanidade. O Filho, dependente em tudo que era do Pai, tornou clara a plenitude dessa relação.

Por ela, nossa sobrevivência dependeria de um novo posicionamento. Obviamente, por estarmos a caminho do momento em que tudo passará, ainda precisamos trabalhar para subsistir, no entanto recebemos a certeza de que o Pai que nos chamou por meio do Filho, também a nós nos alimenta como às aves do céu, sabendo de tudo o que precisamos.

Assim como a gaivota que deixou sua natureza de caçadora, havíamos deixado ao início, nossa natureza original, porém ao sermos resgatados pela cruz, passando a vivermos, sobretudo pela dependência da graça que ela encerra, restaurando-nos a vida pela ressurreição do cordeiro, voltamos a vislumbrar a real possibilidade de sermos exatamente aquilo para o que fomos criados. Seres dignos de nosso Criador, uma vez que nos fez segundo sua imagem e semelhança; jamais para vivermos à sobrevida de migalhas que, porventura, caiam das mesas.

Shalom Aleichem!

Sadi – Um Peregrino da Palavra

Sady Folch# A dependência que liberta

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