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# A entrega do controle

Por acaso, você já andou em um carro de montanha-russa, brinquedo em que a entrega e a sensação da surpresa fazem parte da escolha? Ainda que se conheça o trajeto antes do ingresso, é somente pelos movimentos do carro em meio ao percurso que você poderá sentir o que lhe espera. Tudo começa com a subida lenta ao cume da montanha, criando um clima de suspense pelo que virá a seguir. E então, chegando ao topo, o carro despenca rumo a um caminho em que movimentos inesperados geram sensações das mais diversas. E em minutos, chega-se ao fim.

Na vida também escolhe-se viver as sensações, muitas delas passageiras, contudo quase sempre mediante o hábito de se ponderar de antemão os movimentos. É certo que há os que se movem dentro de um percurso destituído de qualquer surpresa, aonde se pensa poder controlar além dos movimentos, também aos sentimentos. A estes, não apenas pelo fato de deixarem de viver com espontaneidade, mas ao ocultarem em si mesmos uma vaidade própria, resultam em uma vida amarga.

A humanidade, em sua maioria, escolhe viver as sensações envoltas pela alegria que se expõe. Entretanto, muitos se entregam a essa jornada imaginando poderem controlar os movimentos. Sob certo aspecto, nada mais justo, afinal criam-se parâmetros exatamente para que proporcionem limites, coibindo excessos e respeitando-se aos direitos alheios.

No entanto, mesmo acreditando estarem abertos às alegrias, nutrindo alguma certeza de que nenhum mal possa lhes acontecer, ainda que, em grande parte, considerem as agruras da vida, a entrega à vida se dá em face de uma segurança paradigmática, repleta dos padrões de felicidade, maturidade, justiça, amor e, por que não dizer, espiritualidade.

O cristianismo, como religião que se apresenta, faz com que os membros de suas inúmeras vertentes se deparem com sensações e movimentos dos mais diversos. Pode-se encontrar desde aquelas que defendam a possibilidade de revidar, julgar, quanto as que acreditem viver ao que entendam sejam as bênçãos de Deus. Quase sempre os movimentos são controlados, tomando os parâmetros bíblicos, como se humanos fossem.

Entretanto, ao momento em que se permite, mediante a isenção do ego, a uma leitura e a uma vivência espirituais das escrituras, de completa entrega, posto serem testemunhos do poder do Eterno sobre qualquer situação humana, só então se é capaz de empreender a experiência real que é proposta à vida. O livro de Jó, por exemplo, em parte de sua extensão reflete aos nossos olhos, exatamente o máximo que podemos ser como homens justos, posto que, ainda que tementes a Deus, estamos sujeitos à carne que reclama as injustiças.

Igualmente pelo que Deus exortou a Jó, e este fora lapidado em sua compreensão de obediência e dependência às mãos do Oleiro, vivendo bênçãos que seus olhos não haviam visto anteriormente, ao nos entregarmos ao Caminho, à Verdade e à Vida, por quem temos acesso ao Pai que, de fato detém o controle dos movimentos e nos ensina as melhores sensações, tais quais as resultantes do perdão, do amor divino, enfim, de tudo o que esteja alinhado à sua boa, perfeita e agradável vontade, diremos então, ainda que diante de uma vida aparente de altos e baixos, “Meus ouvidos já tinham ouvido a teu respeito, mas agora os meus olhos te viram”.

Shabbat Shalom!

Sadi – Um Peregrino da Palavra

(Foto retirada do Blog Sétimo Dia)

Sady Folch# A entrega do controle

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