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Analgésico

Na tardinha daquela 5ª feira Jesus surpreendeu seus discípulos de um jeito que eles ainda não haviam visto. Gosto das intervenções de Dwight Nelson no texto: “Ele foi até Simão Pedro que lhe disse: `Senhor, Tu [enfático no grego] me lavas os pés a mim? Respondeu-lhe Jesus: O que Eu [enfático no grego] faço não o sabes agora; compreendê-lo-ás depois. Disse Pedro: Nunca me lavarás os pés [negativa dupla no grego, para expressar o sonoro protesto de Pedro: não lavarás não!]. Respondeu-lhe Jesus: Se Eu não te lavar, não tens parte comigo”. Depois de terminado de lavar os pés, Jesus assentou-se e perguntou aos discípulos, ainda atônitos e desconcertados: “Compreendeis o que vos fiz?”

O orgulho é aquela coisa horrível nos outros e que não vemos em nós mesmos, aquela coisa que destrói nossas chances de salvação porque nos convence de que não precisamos de salvação nenhuma. Jesus disse que precisamos, sim, de salvação, e que por isso deveríamos seguir um outro caminho. Deveríamos servir. Deveríamos nos humilhar.

Para C.S. Lewis, o fato de haver expoentes cristãos que no fundo são bem orgulhosos serve de alerta. “Infelizmente“, escreve ele, “elas [aquelas pessoas] adoram um Deus imaginário. Na teoria, admitem que não são nada comparadas a esse Deus fantasma, mas na prática passam o tempo todo a imaginar o quanto ele as aprova e as tem em melhor conta que ao resto dos comuns mortais”. Isso acontece porque no fundo “o prazer do orgulho não está em se ter algo, mas somente em se ter mais que a pessoa ao lado”.

Ser humilhado, contudo, passar vergonha na frente de outras pessoas, dói, não é mesmo? Veja que Nelson aponta para a cena do lava pés como um poderoso analgésico para essa dor: “se eu aceitar o que for que me torne humilde ou me rebaixe, se eu expressar gratidão a Deus por essa humilhação – altera-se o paradigma normal e carnal do orgulho na minha mente. E quando isso acontece, a dor dessa humilhação literalmente se dissipa”.

Isso soa estranho porque na verdade não compreendemos o que Jesus fez e nem o que significa “Se eu não te lavar, não tens parte comigo”. É que, para ter parte com Jesus, é preciso deixar que Ele o sirva. É preciso consentir em que Ele se abaixe, pegue seus pés imundos e mexa neles. É preciso deixar que Ele mude as coisas de lugar dentro do nosso coração. É preciso sentir o quão profundo é o impacto da atitude dEle para notar o quanto este mundo – e nós mesmos – precisamos desesperadamente seguir Seu exemplo , deixar nosso orgulho escorrer pelo ralo e olhar cada “semelhante seu que venha prová-lo ou exasperá-lo como um instrumento de graça” (como disse Andrew Murray, citado por Nelson).

Marco Aurélio BrasilAnalgésico

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