Marco Aurélio Brasil

O essencial é

Minha Bíblia narra eventos ocorridos na vida de duas pessoas fundamentalmente diferentes uma da outra. Enquanto a primeira é caricatural, bonachona, explosiva capaz de fazer as promessas mais
estapafúrdias que depois não cumprirá, capaz de às vezes sacar uma espada e arrancar umas orelhas, sempre o primeiro a falar e metido a líder, a outra é uma pessoa sensata, corajosa, mais apta a agir do que a falar que vai agir, capaz de correr enormes riscos para defender a causa em que acredita e de proclamá-la mesmo em face de castigos físicos extremamente dolorosos e até da própria morte, enfim, um dos maiores líderes de igreja de que há registro. Sim, ambas as pessoas atendem pelo nome de Pedro.

O primeiro Pedro dá a impressão de estar profundamente satisfeito consigo mesmo e com sua vida espiritual. Ele não era mais um simples pescador, era um dos milhares de seguidores daquele líder
extraordinário que surgiu na Galiléia. Ele estava feliz com a causa que abraçava, fazia parte de uma comunidade interessante, participava mesmo da cúpula dessa comunidade. Sua vida tinha
sentido, ele sentia suas necessidades de aprovação, de direcionamento e de aceitação satisfeitas e tinha suas ambiçõezinhas, já: planejava agora dar voos muito mais altos do que seus sonhos de pescador permitiriam.

Pedro acompanhou Jesus por aproximadamente três anos e meio, mas por que razão ele continuava tão distante do Pedro que aparece mais à frente, no livro de Atos, aquele líder religioso realmente confiável, um mártir e do qual só se tem notícia de um único deslize? Não preciso tergiversar, Jesus tem a resposta a essa pergunta. Está em Lucas 22:32: “mas eu roguei por ti, para que tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, fortalece teus irmãos”. Simples: embora Pedro fosse comprometido com a causa, embora tivesse sido guindado a um posto de destaque nela (Jesus sempre o chamava quando queria um grupo diminuto de pessoas para testemunhar coisas como a ressurreição da filha de Jairo ou Sua transfiguração), embora Pedro houvesse testemunhado dezenas de milagres, ouvido centenas de sermões eloquentes de Jesus, embora ele estivesse literalmente muito próximo da pessoa de Cristo, ele ainda não era convertido. Jesus estava orando para que aquilo acontecesse.

Isso me ensina que é plenamente possível ser um rato de igreja, ser mesmo um líder nela, defendê-la renhidamente, conhecer todo mínimo detalhe teológico-bíblico, sentir-se bem em sua igreja, sentir que sua vida tem sentido e que a comunidade da igreja satisfaz suas carências sociais e lhe dá ambições boas e nobres e no entanto não ser uma pessoa convertida. E, no entanto, o diferencial entre os dois Pedros é a conversão, o Pedro a ser imitado é o segundo. Jesus não deixa margem a dúvidas: o essencial é ser convertido.

Parafraseando Morris Venden, a gente pode até não saber quando e como se converteu, mas dificilmente consegue se enganar quanto a isso haver acontecido ou não. E embora a gente não possa operar a nossa própria conversão, pode pavimentar o caminho ou preparar o ambiente para que isso aconteça.

Para Pedro, preparar o ambiente para a conversão envolveu um grande fracasso – quando ele negou a Jesus, mas depois disso ele simplesmente parou de raciocinar nas palavras de Jesus como sendo
passíveis de submeterem-se a suas próprias noções de certo e errado, de bom e mau. Ele passou a admitir o que Jesus falava como verdade e o que Ele ordenava como precisando ser obedecido. A lembrança do triste olhar do Jesus espancado mas cheio de amor sobre ele derrubou as ambições mesquinhas de Pedor e colocou no lugar o desejo de servi-lo. A partir daí, e só então, em algum momento naquele período de cinqüenta dias entre a morte de Jesus e o Pentecostes, foi que Pedro converteu-se e passou a confirmar seus irmãos.

Jesus está rogando pela sua conversão hoje, porque ainda é tempo. Porque o essencial é ser mais que meramente comprometido, é ser convertido.

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Mestres

Nesses tempos de incerteza, em que chegamos a invejar secretamente os convictos (ainda que sua convicção esteja impregnada de ingenuidade), costumo lembrar da promessa grafada em Isaías 30:21: “Quanto te desviares para a direita e quando te desviares para a esquerda, os teus ouvidos ouvirão atrás de ti uma palavra, dizendo: Este é o caminho, andai por ele.” Gosto desse verso há muito tempo. Costumava pensar nele como uma coisa meio sobrenatural, tipo a força de Star Wars (“desligue o computador, Luke…”), uma voz do além me dizendo claramente o que fazer nas encruzilhadas da vida.

Ai topei com Jeremias 17:9, com sua veemente advertência contra se apoiar na intuição e nos desejos: “Enganoso é o coração, mais que todas as coisas, e perverso; quem o poderá conhecer?” E os dois versos ficavam brigando um com o outro. A crença na “força” contra a razão fria, uma briga feia. Aí esses dias notei o verso que vem bem antes de Isaías 30:21: “Embora o Senhor vos dê pão de angústia e água de aflição, contudo, não se esconderão mais os teus mestres; os teus olhos verão os teus mestres”. Logo, a tal voz que fala atrás de mim é a voz dos mestres, que, conforme a promessa feita por Deus a Israel, é a voz dos mestres, e não a de um Obi Wan Kenobi esverdeado e translúcido. Apelar para a razão ativa nossa necessidade de confiar em um semelhante e confiança é o objetivo maior de Deus. Ele quer que identifiquemos os mestres, que manejam com sabedoria e honestidade intelectual Sua palavra e vivem de acordo com seu discurso.

Fico pensando se essa promessa era específica para a Judá do Velho Testamento ou se ainda está de pé. Em tempos de informação em excesso, a oferta de “mestres” está superabundante. E assim como informação de mais é informação nenhuma, mestres demais são mestres nenhuns. Desconfiamos dos acadêmicos, porque a academia produz muita bobagem. Preferimos crer nas palavras de ordem, nos clichês confortáveis e nas fake news nossas de cada dia e as passamos adiante.

Talvez, portanto, a oração para este tempo, a verdade presente, é rogar que Ele nos abra os olhos para ver. Para ver os mestres. A quem ouvir. Antes de se desviar para a direita ou para a esquerda.

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Maranata

Você caiu num buraco fundo, escuro e úmido. Lá fora, só silêncio, sonidos distantes de cigarras e outros típicos da floresta. Tente imaginar o seu estado de espírito nessa situação, acho que não seria muito difícil. Mas atenção! Apareceu alguém lá em cima, deu um belo sorriso e disse que vai tirá-lo dali. Só precisa pegar uma corda. É alguém que inspira muita confiança. O seu estado de espírito continua o mesmo? Você vai viver aqueles últimos momentos de expectativa da mesma forma e com as mesmas perspectivas de até então ou vai parar de arrancar os cabelos e de se angustiar?

Agora tente imaginar outra situação hipotética. Você está no trânsito de São Paulo, dirigindo pelas marginais, quando sintoniza no rádio um alerta: está chegando à cidade uma enorme tempestade. Em poucos instantes vai cair um dilúvio, com perigos de transbordamento dos rios e córregos da cidade, enfim, caos à vista. O que você faz? Continua dirigindo serôdiamente, assobiando e fazendo o caminho que havia planejado ou tasca o automóvel no primeiro hipermercado ou shopping que aparecer?

Pois bem, a Bíblia diz que Jesus Cristo está voltando. Ela não faz rodeios para falar disso, ao contrário, a mensagem a respeito desse evento está repetida cerca de 1.500 vezes. Para cada verso com uma profecia a respeito do primeiro aparecimento de Cristo, há oito falando do segundo aparecimento dEle e o mais lembrado é o que está em João 14:1-3: “Não se turbe o coração. Credes em Deus, creiam também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas… vou preparar-vos lugar, e se eu for, voltarei e os buscarei, para que onde eu estiver vocês estejam vós também”. A última profecia da Bíblia é esta (“Certamente cedo venho”, Apoc, 22:20).A Bíblia é clara ao dizer como isso acontecerá: será de forma inequívoca, “todo olho o verá” (Apoc 1:7), será um evento
literal (At 1:11), audível (I Tess. 4:16 e 17) e universal (Mat 24:27). Quando isso acontecer, haverá apenas dois grupos de pessoas na Terra: aqueles que esperavam isso acontecer e se prepararam para isso, saudando Jesus, para quem aquele será o dia mais glorioso de todos, e os outros, que, segundo Apocalipse 6:16, pedirão às rochas e aos montes que caiam sobre eles para os esconder de Jesus, num misto de vergonha e medo.

A volta de Jesus é um fato bíblico, dito e repetido como nenhum outro. Tudo o que a Bíblia previu para acontecer até agora aconteceu à risca, daí a confiabilidade do rosto que apareceu lá em cima, no buraco em que caímos. Podemos confiar nele! E, se confiamos que alguém está vindo com a corda para nos tirar do buraco de dor, separação, solidão, angústia e culpa em que caímos, já vivemos diferente da forma como vivemos até ouvir essa mensagem. Você expressa essa alegria no rosto?

Ou vai continuar vivendo como sempre, rumando para a tempestade que foi anunciada porque não quer desviar do seu conveniente caminho?

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Declaração de dependência

Um tempo houve nesta terra em que as leis eram feitas por pessoas que não nasceram aqui. Pior, pessoas que jamais haviam pisado aqui. Nesse tempo, as leis visavam quase que exclusivamente proteger os interesses deles, os de lá, d’além mar. Os barcos chegavam, entupiam-se do melhor que por aqui havia, e rumavam de volta para lá. Por caprichos do destino os tais legisladores locupletadores vieram dar aqui, terra de muita luz, mosquito e calor, mas nada mudou, o sumo da terra continuava a ser canalizado para eles e os que protegiam. Assim foi até o dia em que declaramos nossa independência.

É a data mais importante de nosso calendário cívico, feriado nacional, cantada em vetustos e imponentes versos logo no começo do hino nacional, merecedora até de um hino próprio, onde se canta a plenos pulmões que “já raiou a liberdade no horizonte do Brasil”.

Agora estamos livres. Livres para não ser mais espoliados por outros. Agora podemos nos espoliar nós mesmos. Agora os que se locupletam são filhos desse solo, não temos mais a vergonha de
entregar o ouro ao estrangeiro. E os filhos da terra se mostram exímios nessa arte, não devemos nada a ninguém. A liberdade deste mundo é sempre precária.

Ainda assim, independência é algo que nos soa positivamente, ao passo que dependência tem sempre um aspecto negativo. Ser dependente de alguém é ser fraco, é não ter personalidade.

E, no entanto, é o único caminho para salvação e para vida eterna. “Sem mim nada podeis fazer”, diz Jesus Cristo (Jo.15:5). A diferença para a dependência ruim que estamos acostumados a
encontrar é que Jesus não nos espolia. Temos um “colonizador” que quer efetivamente nosso melhor, quer que nosso ouro, o ouro que Ele mesmo planta em nós, reverta para nossa vida e dos que nos rodeiam. Mais que isso, Ele quer que retenhamos o ouro que vale a pena reter.

A ilusão da liberdade é que ela nos faz usá-la para coisas altamente perecíveis. Submetendo-a a Jesus, somos verdadeiramente independentes da morte e de seus sub-produtos. Nesse caso, amigo, é
dependência ou morte.

Esta é minha declaração de dependência. Confesso ante todos que sem Cristo eu não sou nada e que O seguirei por onde pedir, porque experimentei a Vida e me apaixonei por ela.

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Esse povo dos direitos humanos

Uma parcela substancial de nossa angústia e frustração advém da confusão sobre quem é nosso inimigo. Paulo, em um de seus mais inspirados insights, não deixou margem para dúvidas: “Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais” (Efe. 6:12). E, no entanto, posicionamos o alvo na cabeça de gente e de coisas de gente. Tratamos o cônjuge, o filho, o pai, o chefe, o empregado, os outros motoristas, o marxismo, o evolucionismo, a ideologia de gênero, a corrupção, etc. e etc., como O Inimigo.

Equivocar-se contra quem ou o que é o real inimigo nos leva a distorcer tudo. Veja, por exemplo, a questão dos direitos humanos. Eles só existem por causa do cristianismo. Foi a mensagem de Cristo, especialmente através da luz que a Reforma Protestante jogou sobre ela, que fez germinar a ideia de que seres humanos detém direitos inatos (à vida, à saúde, ao livre desenvolvimento da personalidade, à honra, à integridade física, à educação, etc.). Mas, como geralmente quem levanta a bandeira dos direitos humanos são ativistas de esquerda e como os cristãos geralmente se alinham mais à direita, e como elegemos o marxismo como o maior inimigo a ser combatido, passamos a odiar os direitos humanos de um jeito que, se eles foram inventados pelo cristianismo, possivelmente serão soterrados pelo mesmo cristianismo. O mesmo acontece com o respeito aos homossexuais, a ecologia, políticas assistenciais e tantas outras coisas.

Note que, fazendo isso, nos tornamos contradições ambulantes. Nos dizemos seguidores de Cristo e odiamos quem prega ajuda aos mais pobres. Seguimos Aquele que foi preso, torturado e morto injustamente e ainda assim pediu perdão para Seus algozes e que nos conclamou a amar indiscriminadamente, mas aplaudimos o político cristão que defende abertamente a tortura e a execução sumária de bandidos. Dizemos seguir Aquele que tratou as mulheres com uma dignidade que beirava o escândalo e, no entanto, nos escandalizamos quando aqueles que confudimos com o inimigo pregam igualdade salarial entre os sexos. E por isso destilamos ódio contra o alvo errado, enquanto o alvo certo, as potestades e principados, dão risada desse toda essa energia aplicada em espancar aquilo pelo que Jesus Cristo morreu.

Não nos iludamos. Ainda temos muito que aprender.

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A resposta

Embora não precisem antagonizar-se, fato é que a fé e a razão parecem habitar universos diferentes, ou pelo menos partilhar de naturezas diferentes. A fé deu as cartas durante muito tempo. Aí, ali pelo Iluminismo, os caras olharam para trás e viram que o reinado da fé não tinha sido bom. A sociedade era dividida em estamentos estanques, no qual os menores deles oprimiam a imensa maioria dos estamentos inferiores, havia um monte de guerras, havia hipocrisia e todo tipo de abuso. Pegaram a fé, amassaram e jogaram no lixo. Era a época das luzes. Chega de obscurantismo. Agora a razão imperaria. Passados 300 anos, embora a razão não tenha reinado absoluta como a fé o fez, as pessoas olham pra trás e não gostam do que vêem. Há uma enorme insatisfação pelo fato de a razão não haver inaugurado o tempo de felicidade plena e abundante que prometeu. Falta o espiritual nesse mundo em que a matéria não satisfaz.

Ora todos têm aqueles momentos de epifania, de catarse, aqueles momentos em que a beleza extrema os atinge no peito e eles sentem que a razão não dá conta disso. Todos têm aqueles momentos em que sentem um mundo maior que eles pulsando dentro deles. Uma paisagem estonteante. O momento imediatamente anterior ao primeiro passo no salão em que acontecerá o seu casamento. O nascimento do filho. A paz inoculada na tormenta pela simples presença de amigos. O lembrete deixado pela morte repentina de alguém importante. E então as pessoas buscam o espiritual, mas de preferência sem Deus. Mindfullness, yoga, meditação, alguns tipos de terapias, a devoção a um artista, a relação de dependência com um coach, mil obsessões (com a saúde, com o dinheiro, com a política, etc). São tentativas de suprir o que a razão e a matéria sós, está provado, não podem fazer pela humanidade.

C. S. Lewis precisou lutar contra o seu confortável ateísmo para concluir que alguma coisa estava errada nisso tudo e aqui está sua conclusão: “Se eu encontro em mim um desejo que nenhuma experiência desse mundo possa satisfazer, a explicação mais provável é que eu fui feito para um outro mundo”. Feito à imagem e semelhança de Alguém maior. E então percebemos que o problema nunca foi a fé, mas a fé sem o seu autor e consumador. NEle e por Ele, tudo que é incompleto encontra a completude, tudo que é insatisfatório encontra a plena satisfação, tudo que é limitado encontra o que é eterno. O nome da resposta, senhores, segue sendo Jesus Cristo.

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Expressões

– Quer casar comigo?
– Tanto faz.

O diálogo absurdo acima está registrado, possivelmente não com essas palavras exatas, em O Estrangeiro, romance do premiado com o Nobel de literatura Albert Camus, e serve como bom resumo da personalidade do protagonista. Sua mãe morre e ele não esboça qualquer emoção. É dele o “tanto faz” acima, pois para ele, um filhote do existencialismo, tudo parece ser indiferente. Fico imaginando o que eu sentiria se a Tatiana reagisse com esse descaso quando lhe propus casamento. Fico imaginando o que ela sentiria se essa fosse minha reação quando me contou que estava
grávida.

São hipóteses absurdas e que causam um grande desconforto por uma razão simples: fomos criados à imagem e semelhança de um Ser social, que projetou Sua criação para interagir, para reagir a todo estímulo vindo do outro. A alegria mais completa da Tatiana ao descobrir-se grávida foi alimentada e aumentada ao ver a minha alegria em saber da notícia e a minha alegria foi exacerbada ao ver a reação que ela causou nela. São ondas que formam mais ondas, como as da física, que foi inventada pelo mesmo Deus.

Tenho uma amiga que parece ser incapaz de esboçar qualquer emoção. Certa vez passamos um feriado em um sítio no caminho para Iguape-SP, umas doze pessoas, e no domingo fomos tomar um banho de rio. A gente se soltava na correnteza e deixava o rio levar, uma delícia, embora o rosto dessa minha amiga não demonstrasse qualquer prazer. Mas eu notei que à frente havia uma queda d’água que poderia ser perigosa. Como estava à frente do grupo, consegui ficar de pé na rocha e avisei a todos que dessem um jeito de brecar, mas alguns não conseguiram, porque a pedra era muito lisa. Segurei um com um pé e outro com uma mão e essa minha amiga parecia estar rumando inexoravelmente para a ribanceira, muito embora ninguém pudesse ver qualquer reação de medo no seu rosto. A muito custo consegui segurá-la com a mão livre pela bóia que ela estava usando e lá ficamos até ela conseguir firmar os pés e levantar-se como se absolutamente nada houvesse acontecido.

Lembrando meu estranhamento com a situação, calculo então o sentimento do Deus que me criou à Sua imagem quando coloca uma flor especial, uma pessoa especial ou uma notícia especial no meu caminho e eu reajo como se tudo fosse normal e indiferente. Fico imaginando o que Ele sente quando interpreto como sorte o que é benção, como coincidência o que é resposta a oração.

Estimulando um sentimento de gratidão constante percebi uma coisa: ver uma benção e agradecê-la me faz notar outra benção, e ao agradecê-la vejo mais uma e mais uma e isso não cessa. Me apazigua, me faz sentir genuína e incodicionalmente amado. A gratidão tem muito evidentes efeitos terapêuticos, porque foi inventada pelo Deus de relacionamentos.

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Maquinalmente

No meio dos preparativos para o natal, a senhora recebe uma ligação da filha, do outro lado do país. “Mãe, o Caio tá me perguntando uma coisa que eu não sei responder. Ele me viu cortando aquelas duas tiras dos lados do peru antes de levar ao forno, como eu sempre vi você fazer, e perguntou por que eu faço isso. Por que eu faço isso?” Desconcertada, a mulher responde: “Caramba, essa dúvida nunca me ocorreu. Sua vó está aqui, vou perguntar a ela. Mãe, a Isabela tá preparando um peru e quer saber porque eu sempre corto dos lados. Eu aprendi isso contigo, mas pra que serve isso? Realça o sabor, assa melhor…?” A moça ouve a voz indistinguível da vó ao fundo e então a risada de sua mãe. “O que foi que ela disse, mãe?” “Ela explicou que só fazia isso porque o peru não cabia no forno dela, que era muito estreito!”

Essa história, que li em algum lugar, me lembra uma profecia registrada por Isaías descrevendo o destino triste da nação que deveria ser o Seu povo na terra. Eles seriam pilhados, derrotados e espalhados pelo mundo e a razão, basicamente, era esta: “Este povo se aproxima de mim e com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim, e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, que maquinalmente aprendeu” (29:13).

Tudo o que a mulher que passou anos cortando os lados do peru, sem nunca refletir a razão de ser disso, perdeu, foi alguns gramas de peru. Seu equivalente religioso, contudo, perdeu muito mais. Uma religião de repetição irrefletida, de reprodução dos valores e costumes dos antepassados sem qualquer atenção ao propósito e sem qualquer busca honesta na Bíblia da confirmação daquilo, deságua em destruição. Estou convicto de que a religião é responsável pelo melhor que há no homem, mas há certos tipos de religião que trazem à tona o pior, também. E não estou pensando em radicais islâmicos terroristas. Não é para eles advertências como a de Isaías, ou como a de Jesus: “Há três anos venho procurar fruto nesta figueira e não acho; podes cortá-la; para que está ela ainda ocupando inutilmente a terra?” (Luc. 13:7)

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As torres

Todo silêncio é maior e mais profundo se depois de muito barulho, assim como a luz brilha mais depois de uma grande escuridão. O barulho da borrasca havia passado. Os animais desciam monte abaixo e o que restou da humanidade olhava extasiado o arco-íris. Silêncio, enfim, e dos mais profundos.

Mas parece que houve nostalgia do barulho. Gênesis 6 diz que o dilúvio veio porque “toda a imaginação dos pensamentos de seu coração [dos homens] era mau continuamente” (v. 5). Na Terra
repaginada do pós-dilúvio a ordem foi: espalhem-se e povoem a terra (9:7), mas a resposta foi: vamos fazer uma cidade e uma torre… para que não sejamos espalhados (11:4); e a estrada estava
pavimentada para que voltasse o estado de coisas de antes do dilúvio.

A torre deveria tocar o céu, porque assim eles não teriam mais medo de dilúvio. Veriam como as coisas acontecem lá de cima, de onde vem a água. Desenvolveram uma tecnologia nova, com tijolos e argamassa e estavam indo muito bem, mas você conhece o final da história: Deus confundiu as línguas deles e Sua vontade inicial acabou sendo cumprida, eles foram espalhados segundo suas línguas pela terra. Se houvessem obedecido, teriam poupado o sofrimento da ruptura forçada – e provavelmente os professores de idiomas teriam outras ocupações hoje.

A tentação do povo de Babel é a mesma que temos todos os dias: de achar que nossa ideia pode ser melhor que a de Deus. De desobedecer francamente por amor a alguma conveniência que nos pareça mais vantajosa. Mas nossa relação tortuosa com a lei é bem conhecida. O que acho mais curioso nesse relato é como ele mostra nossa relação com a promessa. Deus disse: nunca mais destruirei a terra com água. Dilúvio nunca mais. E aí eles se juntam para se proteger do dilúvio. É como se dissessem: olha, nem precisamos da Tua promessa, a gente dá um jeito por aqui, com nossa argúcia e habilidade. A Torre de Babel acaba sendo, portanto, uma banana para a promessa.

Podemos construir outras torres hoje. Se em lugar de reivindicar a vitória sobre o pecado prometida, usamos de auto-justificativas, muletas retóricas, conformismo, etc. Se em lugar da paz prometida, buscamos válvulas de escape, qualquer iniciativ artificial de auto-apaziguamento. Se em lugar da confiança que podemos nutrir nos cercamos de pílulas. Estamos construindo torres o tempo todo porque não cremos nas promessas. E descobrindo, às vezes tarde demais, que nossas torres são ineficazes, ridículas e frustrantes.

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