-

Caindo sobre a pedra

Jesus disse, meio engimaticamente, que era preciso cairmos sobre a pedra e sermos despedaçados. A pedra aí é uma referência a Si próprio, mas em 2009 eu tomei a orientação muito literalmente.

Estava com meu filho mais velho e meus sobrinhos caminhando pelas pedras da ponta de uma praia. Era o que eles denominaram uma exploração arqueológica e, ao que parece, o alvo da exploração eram conchas interessantes. Não havíamos achado nenhuma ainda quando meu filho perdeu o equilíbrio e começou a escorregar numa pedra. Rapidamente olhei para um vão que me separava dele, cortado apenas por uma pedra fina, mas ao alcance dos meus pés. A próxima coisa de que me lembro é de estar despedaçado sobre a pedra.

Por ficar olhando para ele, ao invés de para o lugar onde deveria estar pisando, meu pé não alcançou a pedra fina. Afundei dois dentes, sofri escoriações pelo corpo todo e herdei uma aguda dor nas costas.

Engraçado que eu costumava me ufanar da minha habilidade para andar por aquelas pedras. Desde menino estou familiarizado com elas e penso haver adquirido uma técnica refinada de locomoção nesse terreno irregular. Trata-se de, numa fração de segundo, conseguir determinar qual o melhor ponto para posicionar o seu pé e para onde arremessar o corpo, de um jeito que o centro de equilíbrio lhe garanta continuar sempre de pé – e não com a boca na pedra.

Descobri do jeito mais doloroso – para ser bem literal – que as coisas mudam quando se tem filhos. Ok, eu caí não foi por essa razão nobre, de estar indo socorrer meu filho (que fez só um cortezinho de nada no dedo), foi porque fui imperdoavelmente desastrado e desatento, e isso é algo de que não se pode orgulhar, definitivamente. Mas ainda assim o fato é que descobri que sou capaz de atitudes automáticas, mal calculadas e instantâneas pelo bem estar de uma outra pessoa.

Eu sempre ouvi dizer que ter filhos é uma excelente escola sobre o sentimento que Deus tem por nós. É evidente que Deus jamais calcularia mal um passo, mas Ele também demonstrou ser capaz de Se deixar despedaçar por um filho que caiu e explica isso dizendo, simplesmente, que é porque Ele muito amou. O amor seria um impulso suficiente para esse grau profundo de sacrifício.

Eu já descobri que amo meu filho, tive a prova disso, mas fico aqui pensando em o que mais me levaria a tomar esse impulso de me colocar em perigo para ver protegido? Eu retribuo o amor de Quem Se despedaçou quando eu caí, amando-O numa medida minimamente semelhante?

Talvez seja exatamente o tipo de atitude que Ele sugeriu que eu deveria, espelhando-me nEle, desenvolver, quando disse que eu deveria cair sobre a pedra que é Ele, e se deixar despedaçar, deixar meu ego, meu egoísmo, serem pulverizados.

Marco Aurélio BrasilCaindo sobre a pedra