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Espírito e entendimento

Imagine um jovem que nasceu e cresceu no Himalaia, budista ou hindu, aportando em uma de nossas cidades. Imagine que ele tem uma profunda curiosidade a respeito do cristianismo e aproveita que está num país cristão para saciá-la. Ele começa a andar pela rua e vê uma igreja. Ao entrar, assiste a um culto com muito barulho, pessoas falando ao mesmo tempo, muitas delas dando altos brados, levantando as mãos espalmadas, e tambores, e lágrimas e pessoas de olhos muito fechados batendo no peito. Nosso estrangeiro sai dali e vê uma outra igreja quase em frente. Ao entrar, assiste a um culto muito frio, com pessoas cantando juntas, talvez em vozes, mas sem nenhum acento emocional; depois um pregador se levanta e discorre sobre palavras vertidas do grego antigo e sua real acepção, ou então sobre um encadeamento complexo de textos bíblicos.

Essa pessoa imaginária ficaria confusa sobre qual o tipo de culto que os cristãos dão a Seu Deus. Eu também fico. A minha igreja nasceu no auge do racionalismo do século XIX, é muito apegada a formas estanques de liturgia e detesta demonstrações de emoção. As coisas têm que ser racionais. Deus nos pega pela razão e só depois pela emoção. Pastores que apelam para a emoção são um pouco mal falados e cantores que têm alguma expressão corporal são desincentivados. Como algumas modelos que se tornam atrizes e que empregam o mesmo tom de voz e a mesma expressão facial para qualquer tipo de fala, minha igreja é capaz de cantar uniformemente coisas como “sempre alegre/é o viver do bom cristão” ou “rude cruz se erigiu/dela o dia fugiu/negro manto de trevas e dor…”. Portanto, minha igreja está muito mais para a segunda das igrejas retratadas acima.

Se olho para a igreja que Jesus formava ao redor de Si, vejo uma outra coisa; nem um modelo nem o outro. Se Ele vivia condenando orações que eram vãs repetições, pessoas que O enalteciam sentindo em seus corações um sentimento bem diferente e outras formas vazias de adoração, infladas de uma emotividade ôca, por outro lado Sua pregação apelava à razão, através de parábolas e citações das Escrituras.

Paulo capturou à perfeição o modo de adorar que agrada a Deus: “Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento; cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento” (I
Cor. 14:15). Uma adoração meramente racional é mutilada. Uma adoração de êxtase apenas, também. É preciso que o que cantamos e oramos brote da razão e encontre eco no coração, é preciso crer que estamos nos dirigindo ao Rei do Universo e que não podemos falar palavras vazias diante dEle.

Que nossa adoração seja holocausto a Deus, ou seja, integral, sem reter nem emoção nem razão, tudo colocado aos pés de Quem nos criou, salvou e vem buscar.

Marco Aurélio BrasilEspírito e entendimento

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