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Mestres

Nesses tempos de incerteza, em que chegamos a invejar secretamente os convictos (ainda que sua convicção esteja impregnada de ingenuidade), costumo lembrar da promessa grafada em Isaías 30:21: “Quanto te desviares para a direita e quando te desviares para a esquerda, os teus ouvidos ouvirão atrás de ti uma palavra, dizendo: Este é o caminho, andai por ele.” Gosto desse verso há muito tempo. Costumava pensar nele como uma coisa meio sobrenatural, tipo a força de Star Wars (“desligue o computador, Luke…”), uma voz do além me dizendo claramente o que fazer nas encruzilhadas da vida.

Ai topei com Jeremias 17:9, com sua veemente advertência contra se apoiar na intuição e nos desejos: “Enganoso é o coração, mais que todas as coisas, e perverso; quem o poderá conhecer?” E os dois versos ficavam brigando um com o outro. A crença na “força” contra a razão fria, uma briga feia. Aí esses dias notei o verso que vem bem antes de Isaías 30:21: “Embora o Senhor vos dê pão de angústia e água de aflição, contudo, não se esconderão mais os teus mestres; os teus olhos verão os teus mestres”. Logo, a tal voz que fala atrás de mim é a voz dos mestres, que, conforme a promessa feita por Deus a Israel, é a voz dos mestres, e não a de um Obi Wan Kenobi esverdeado e translúcido. Apelar para a razão ativa nossa necessidade de confiar em um semelhante e confiança é o objetivo maior de Deus. Ele quer que identifiquemos os mestres, que manejam com sabedoria e honestidade intelectual Sua palavra e vivem de acordo com seu discurso.

Fico pensando se essa promessa era específica para a Judá do Velho Testamento ou se ainda está de pé. Em tempos de informação em excesso, a oferta de “mestres” está superabundante. E assim como informação de mais é informação nenhuma, mestres demais são mestres nenhuns. Desconfiamos dos acadêmicos, porque a academia produz muita bobagem. Preferimos crer nas palavras de ordem, nos clichês confortáveis e nas fake news nossas de cada dia e as passamos adiante.

Talvez, portanto, a oração para este tempo, a verdade presente, é rogar que Ele nos abra os olhos para ver. Para ver os mestres. A quem ouvir. Antes de se desviar para a direita ou para a esquerda.

Marco Aurélio BrasilMestres

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