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Morra!

Somos, em geral, criaturas muito apegadas à vida. Ainda que na maior parte das vezes, vida seja sinônimo de mera sobrevivência ou, pior, de uma sucessão infindável de pequenos ou gigantescos prazeres alinhados sem muito sentido. Não conseguimos chegar a um consenso sobre a definição da palavra vida, mas nos apegamos ao “que-quer-que-seja” com unhas e dentes.

Então Jesus chega e diz: “Digo-lhes verdadeiramente que, se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, continuará ele só. Mas se morrer, dará muito fruto” (João 12:24). O que Jesus quis dizer?

Primeiramente, reconheço pelo Seu discurso que, para o Criador, vida é sinônimo de dar muito fruto. Viver só, viver para si, é existência, não vida de fato. Segundamente, sei que preciso, em algum ponto de minha existência (quanto mais cedo melhor), me esvaziar para poder ser cheio do que realmente interessa. Preciso cair no chão. Cair no chão e então morrer. Preciso desesperadamente tirar, ainda que com dor, minhas unhas e dentes disso a que chamo vida.

No clássico Os irmãos Karmázovi, de Dostoievski, o padre Zózima explica assim o texto de João:

“Muitas coisas na terra nos estão ocultas, mas, em compensação disso, foi-nos dado um misterioso senso interior do nosso vínculo vivo com o outro mundo, com o mundo mais alto e celestial, e as raízes dos nossos sentimentos e pensamentos não estão aqui, mas em outros mundos. É por isso que os filósofos dizem que não é possível
compreender a natureza essencial das coisas da terra. Deus tomou sementes de outros mundos e as semeou aqui nesta terra e fez a sua horta crescer, e tudo o que podia vingar vingou, mas tudo o que cresce está vivo e vive apenas por meio do sentimento do seu contato com outros mundos misteriosos: se esse sentimento se enfraquecer ou
for destruído dentro de vocês, então o que dentro de vocês cresceu também vai morrer. Então vocês ficarão indiferentes à vida e até passarão a odiá-la”.

Não odeie o que é vida de verdade. Morra!

Marco Aurélio BrasilMorra!