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Mutilados

Não assisti a Encaixotando Helena, um filme de 1993, mas pelo que sei se trata da  história de um cara tímido que é apaixonado por um mulherão, que, contudo – adivinhe – , não lhe dá muita coisa além de desprezo. Bom, ele faz o que qualquer um na sua situação faria, claro: sequestra a beldade e a cada sinal dela de rebeldia e desamor ele lhe amputa um membro. Até que ela fica sem braços e sem pernas. E tem mais: na medida em que ele pratica essas crueldades, o sentimento dela por ele vai mudando, até que, só tronco e cabeça, descobre-se apaixonada por seu algoz.

Bom, se você ainda não tinha ouvido falar nesse filme e ainda está lendo isto aqui, parabéns. Podemos passar ao estágio seguinte. Veja, o realmente estranho no roteiro desse filme não reside exatamente no fato de o cidadão decidir resolver suas carências com sequestro e uma faca de açougue (perdoem-me os sensíveis). Não, porque nos dias em que vivemos toda sorte de crueldade e horror parece já ser conhecido de cor. O cinema encontra-se numa crise desgraçada porque ninguém consegue mais imaginar mortes horripilantes para vilões, todas já foram filmadas. Os noticiários cospem dia após dia as mais infames barbaridades, as mais repugnantes atrocidades com fleuma profissional de quem, logo em seguida, precisa falar “boa noite”. Assim, mais uma história de psicopata celerado não haveria de causar qualquer espanto.

Sim, o estranho da história, o que nos faz balançar a cabeça e achar tudo muito bizarro é a moça apaixonar-se por quem lhe fere.blind

E, no entanto, somos todos Helenas nas mãos do pecado. Ele nos mutila, ele nos fustiga, nos queima, nos machuca, ele nos retalha, acaba com nossa auto-estima, nossa saúde, nosso senso do correto, nossa relação com Deus e quanto mais age, mais nossas afeições se escravizam por ele.

O que me leva a outro filme, Monty Python em busca do cálice sagrado. Deveria ser um filme sobre o Rei Arthur, mas é um amotoado de piadas sem nexo (que eu, particularmente, acho muito engraçadas). No começo do filme o Rei Arthur vem trotando em seu cavalo invisível, com seu fiel escudeiro atrás batendo duas metades de coco para imitar o som do cavalo, até que encontram o temível Cavaleiro Negro. Ele não deixa ninguém passar pela sua floresta sem duelar com ele, nem o próprio rei! Sem alternativa, Arthur põe-se a duelar e logo corta um braço inteiro do temível Cavaleiro Negro, por onde começa a esguichar sangue. O vencedor começa a embainhar sua espada, mas o Cavaleiro Negro reclama: – Que é que há? Lute como homem! O rei manifesta sua surpresa e pondera que o seu oponente estava sem um braço e então o temível Cavaleiro Negro olha pro ombro, de onde esguicha de forma estudadamente exagerada todo aquele sangue e diz: “Não estou nem, quer me enganar, é?” e se atira sobre o rei Arthur com o outro braço. O fim do Cavaleiro Negro é parecido com o de Helena, sem braço e sem pernas, mas mesmo lá, caído ao chão, fica vociferando, chamando o rei de covarde, que está fugindo da luta, que ele está em perfeitas condições, etc.

Pois é, não basta que sejamos escravizados e mutilados, ao nos olhar no espelho não vemos nada. Vemos uma anatomia perfeita, sem um só arranhão.

Mágica? Não, cegueira.

Spoilers ahead. No Encaixotando Helena parece que o tal rapaz apaixonado, ou então a Helena, não sei, no final acorda e percebe que tudo não passou de um sonho.

Nós, no final da história, vamos acordar também. E perceber que nossa real imagem no espelho é tétrica e o tempo de fugir do algoz já passou.

Queira Deus que acordemos antes. Hoje, quem sabe? 

Marco Aurélio BrasilMutilados