Últimas Publicações

Nascer de novo

Naquela noite especialmente escura e silenciosa o dr. Nicodemos procurou Jesus e começou a desfiar um rol de elogios que vinha ensaiando no caminho, mas seu interlocutor cortou o papo furado e foi logo ao ponto: Nicodemos, você precisa nascer de novo. Mas Nicodemos queria papo furado e tentou racionalizar o que Jesus lhe tinha dito, mas Jesus tornou ao ponto: você precisa nascer de novo. E, por outras palavras: todo aquele que crê no filho de Deus tem a vida eterna. Entendeu?

Nicodemos decerto voltou para seus confortáveis lençóis com uma profunda inquietação. Jesus lhe havia dito que ele precisava começar tudo de novo, o que era definitivamente um grande problema, já que ele gostava da maior parte das coisas que havia construído.

Desde esse diálogo a palavra conversão – uma espécie de abreviação de “nascer de novo” tem sido uma obsessão para muitos cristãos fervorosos. O que aconteceu quando alguém se converte? Será que eu já me converti? O que eu sinto quando me converto?

Morris Venden afirma que “conquanto possamos não saber quando ou aonde fomos convertidos, certamente podemos afirmar se fomos convertidos ou não”. E isso faz sentido, pois conversão significa
mudar de caminho. Significa estar indo numa direção e de repente passar a ir em outra direção, muitas vezes uma direção diametralmente oposta à anterior.

Entretanto, conversão não significa beatificação. O converso não se transforma de repente em um guia místico e sua vida pode talvez mudar muito pouco exteriormente. Um homem convertido continua tendo que colocar o lixo para fora, que escovar os dentes, que arrumar o armário de vez em quando. O carro do homem convertido continua amassando quando bate e se um cano no banheiro estoura, a água jorra igualzinho quando ele não convertido. Se ele gagueja, possivelmente continue a gaguejar, se é um grande jogador de futebol, não vira um perna-de-pau de repente.

Que tipo de conversão é essa, então? Posso falar pela minha experiência pessoal que a conversão é algo a um só tempo sutil e subjetivo mas tambem bombástico. O converso experimenta (às vezes de
repente, às vezes mais lentamente) uma inversão na sua escala de valores e gostos. Coisas que ele odiava, passa a amar e coisas que amava se tornam indiferentes. Atitudes que pareciam normais e banais passam a incomodar profundamente o converso, ao passo que outras atitudes, que ele costumava considerar ridículas, passa a adotar com satisfação.

Precisamos nascer de novo. Precisamos experimentar uma conversão de caminhos. Se Cristo diz que precisamos passar por isso é porque isso é possível. Mas ninguém se auto-converte. Conversão altera nosso íntimo, mas não nasce espontaneamente do nosso íntimo. É um processo externo, é uma força maior, pois só algo assim poderia mexer tão eficientemente na escala de gostos de alguém.

Ora, se é possível e se é algo que não fazemos por nós mesmos, é porque é uma promessa. E promessas, quando feitas por um Pai explodindo de amor, devem ser reivindicadas.

Marco Aurélio BrasilNascer de novo

Artigos Relacionados