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O essencial é

Minha Bíblia narra eventos ocorridos na vida de duas pessoas fundamentalmente diferentes uma da outra. Enquanto a primeira é caricatural, bonachona, explosiva capaz de fazer as promessas mais
estapafúrdias que depois não cumprirá, capaz de às vezes sacar uma espada e arrancar umas orelhas, sempre o primeiro a falar e metido a líder, a outra é uma pessoa sensata, corajosa, mais apta a agir do que a falar que vai agir, capaz de correr enormes riscos para defender a causa em que acredita e de proclamá-la mesmo em face de castigos físicos extremamente dolorosos e até da própria morte, enfim, um dos maiores líderes de igreja de que há registro. Sim, ambas as pessoas atendem pelo nome de Pedro.

O primeiro Pedro dá a impressão de estar profundamente satisfeito consigo mesmo e com sua vida espiritual. Ele não era mais um simples pescador, era um dos milhares de seguidores daquele líder
extraordinário que surgiu na Galiléia. Ele estava feliz com a causa que abraçava, fazia parte de uma comunidade interessante, participava mesmo da cúpula dessa comunidade. Sua vida tinha
sentido, ele sentia suas necessidades de aprovação, de direcionamento e de aceitação satisfeitas e tinha suas ambiçõezinhas, já: planejava agora dar voos muito mais altos do que seus sonhos de pescador permitiriam.

Pedro acompanhou Jesus por aproximadamente três anos e meio, mas por que razão ele continuava tão distante do Pedro que aparece mais à frente, no livro de Atos, aquele líder religioso realmente confiável, um mártir e do qual só se tem notícia de um único deslize? Não preciso tergiversar, Jesus tem a resposta a essa pergunta. Está em Lucas 22:32: “mas eu roguei por ti, para que tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, fortalece teus irmãos”. Simples: embora Pedro fosse comprometido com a causa, embora tivesse sido guindado a um posto de destaque nela (Jesus sempre o chamava quando queria um grupo diminuto de pessoas para testemunhar coisas como a ressurreição da filha de Jairo ou Sua transfiguração), embora Pedro houvesse testemunhado dezenas de milagres, ouvido centenas de sermões eloquentes de Jesus, embora ele estivesse literalmente muito próximo da pessoa de Cristo, ele ainda não era convertido. Jesus estava orando para que aquilo acontecesse.

Isso me ensina que é plenamente possível ser um rato de igreja, ser mesmo um líder nela, defendê-la renhidamente, conhecer todo mínimo detalhe teológico-bíblico, sentir-se bem em sua igreja, sentir que sua vida tem sentido e que a comunidade da igreja satisfaz suas carências sociais e lhe dá ambições boas e nobres e no entanto não ser uma pessoa convertida. E, no entanto, o diferencial entre os dois Pedros é a conversão, o Pedro a ser imitado é o segundo. Jesus não deixa margem a dúvidas: o essencial é ser convertido.

Parafraseando Morris Venden, a gente pode até não saber quando e como se converteu, mas dificilmente consegue se enganar quanto a isso haver acontecido ou não. E embora a gente não possa operar a nossa própria conversão, pode pavimentar o caminho ou preparar o ambiente para que isso aconteça.

Para Pedro, preparar o ambiente para a conversão envolveu um grande fracasso – quando ele negou a Jesus, mas depois disso ele simplesmente parou de raciocinar nas palavras de Jesus como sendo
passíveis de submeterem-se a suas próprias noções de certo e errado, de bom e mau. Ele passou a admitir o que Jesus falava como verdade e o que Ele ordenava como precisando ser obedecido. A lembrança do triste olhar do Jesus espancado mas cheio de amor sobre ele derrubou as ambições mesquinhas de Pedor e colocou no lugar o desejo de servi-lo. A partir daí, e só então, em algum momento naquele período de cinqüenta dias entre a morte de Jesus e o Pentecostes, foi que Pedro converteu-se e passou a confirmar seus irmãos.

Jesus está rogando pela sua conversão hoje, porque ainda é tempo. Porque o essencial é ser mais que meramente comprometido, é ser convertido.

Marco Aurélio BrasilO essencial é

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