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# O Tempo do Verbo

Com a famosa frase – “Era uma vez…” – começam as estórias que ouvimos quando crianças, contando-nos as aventuras vividas pelos personagens que se tornaram inesquecíveis, quando não, nossos próprios heróis. No momento em que era pronunciada, alçávamos voo que nos levaria a viajar pela imaginação. Naquele instante vivenciávamos a descrição de um lugar comum, tanto quanto surpreendia-nos o chamado à aventura, carregando-nos de expectativas marcadas pela expressão inicial; assim, a ela se designou abertura das portas da imaginação através dos contos, reflexo, em sua maioria, da realidade do comportamento humano que buscam reproduzir.

Ao observarmos o tempo verbal da frase, ele nos remete ao passado, longínquo ou em um tempo imaginário, e ainda assim, à época, imersos na intimidade do herói, não raro éramos transportados para o presente, emprestando-nos uma carga real tamanha que tínhamos a certeza de estar acontecendo naquele instante ou em alguma ocasião congelada na linha do tempo. Diante de nossos olhos, reagíamos emocionalmente de diversas maneiras, tornando-se aquelas ações, referência na qual meditávamos, influenciando nossos atos racionais.

“Agora eu era o herói…” – Assim o personagem João, criado pelo compositor Chico Buarque, inicia seu caminho lírico. Ali, distorcendo o sentido do tempo, João, a criança que empresta a voz à narrativa, se entrega à vivência de um tempo verbal que Chico chamou de passado-onírico, contrapondo ao sentido adulto que permite ao agora, apenas o poder sê-lo, enquanto, parece-nos, a criança transporta para o momento presente a sua realidade que permanece. Como algo que existe fora do mundo físico, vivo dentro dela.

Ainda que seja essa linguagem temporal, a realidade da ludicidade mental de uma criança, traz consigo uma carga de verdade inconteste ao seu mundo, através da existência da essência daquilo que de fato esteja incorporado ao seu universo; e, isso pode ganhar transformações através de desdobramentos em outras histórias, por outras possibilidades, aumentando, inclusive, a ramificação neuronal da criança e a sua capacidade de viver e pensar, tanto que João, o protagonista, permite à personagem que habita sua realidade onírica, a transformação dele, de rei, bedel ou juiz, em um brinquedo, talvez um pião ou um bicho preferido, pois do contrário, o que a vida vai fazer de mim.

O livro de Eclesiastes diz assim: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu”. Referindo-se a tal fragmento, um professor da língua portuguesa, natural da bela e literária cidade de Parati, afirmou: Talvez seja “a mais exata epígrafe para as várias possibilidades do uso semântico dos tempos verbais e os seus propósitos explícitos e implícitos”. E, continua o professor, “alguns tempos podem indicar valores e noções bem diversas das expressas nos tempos reais, permitindo-nos atingir com mais eficiência o propósito daquilo que anunciamos”.

Utilizando da mesma linha de exemplo empregada pelo professor, pegue, por exemplo, o dito no decálogo bíblico: “Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não farás nenhuma obra”. (Êxodo 20:9-10). Ele como especialista, nos relembra ser o tempo verbal, futuro do presente do indicativo, empregado para indicar uma ação em um tempo ainda não ocorrido, no entanto revela-nos que a sua utilização na frase tem um valor equivalente ao imperativo (modo verbal que expressa mandamento).

Aponta-nos, também, que o emprego desse tempo verbal, com essa nuance, se mostra mais definitivo que o modo imperativo por si mesmo, ao que exemplifico pela hipótese que acompanha o pensamento original: “Trabalhes seis dias, e faças toda a tua obra, mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não faças nenhuma obra”. Desta forma, sua lição nos leva a pensar pela percepção de o quanto a mensagem tenha perdido sua força, tivesse sido escrita desta forma.

Tomamos o mandamento como eterno, ainda que por um lado ele terá seu fim, no entanto, quando este acontecer, não deixará de existir simplesmente, mas completará o próprio início que lhe deu ensejo, dando vida ao todo. Há uma particularidade na mente hebraica que compreende a ação como algo que, mesmo concluída, poderá estender-se no futuro. O exemplo a seguir ilustra o entendimento. Se um judeu diz –”meu pai me ensinou sobre a vida” – sabe-se, a frase está escrita no pretérito, no entanto, ainda que aquilo o que o pai tenha lhe ensinado cristalizou-se no tempo como ação concluída, esta existe tanto no passado quanto no presente e no futuro. Ele aprende com o pai à medida que relembra tudo o que lhe fora ensinado, permitindo-o, inclusive, no desenrolar da vida, continuar a aprender ainda que o pai já não mais exista.

O termo – “Agora eu era o herói…” – pode encontrar seu lugar no contexto bíblico, não como uma situação onírica que simplesmente ainda deseja apresentar-se no presente, como o faz João no poema; não se trata disso, mas através da compreensão de como o contexto físico vivencia a realidade narrativa do protagonista messiânico, existente desde sempre na dimensão atemporal. Algo que tenha sido e terminado, antes mesmo que se materializasse no mundo físico. A jornada do nosso herói existiu completa antes mesmo de ter sido escrita a primeira palavra de Gênesis, ponto este inicial que esclareceu e conduziu a história até seu primeiro ponto de virada, vivenciado por ele há dois mil anos no plano físico.

A história, no entanto continua e, por essa existência da narrativa ser e estar devidamente resolvida na eternidade dos tempos, é que a frase inaugural da história foi – “No princípio…”, e não – “Era uma vez”.

O sentido de – “No princípio” – é de tal forma real, que o início e o fim da narrativa estão perfeitamente ajustados. Essas primeiras palavras escolhidas pelo autor se conectam à última sentença que encerra o último capítulo, quando o autor a confirma pelo selo que entrega ao narrador quando diz: “Aquele que testifica estas coisas (Messias) diz: Amém”, ou seja, “Ele é fiel para cumprir” a história.

A narrativa bíblica, por todo seu propósito e passando pelas nuances a que se viu submetida, justamente pela vontade do autor em interagir com o leitor para revelar-lhe a essência de sua vontade, alarga as estacas à medida que a compreensão do leitor se expande. A verdade como ela é, existente além deste plano físico-temporal, se prontifica, convida-nos, a repensarmos a realidade como a imaginamos, independente de um tempo verbal acabado, sobretudo para que possamos vivenciar e compreender a linha existencial atemporal em que se apoia tudo aquilo que houve, que há e ainda que está por vir.

Shalom!

Ṣadi – Um Peregrino da Palavra

 

Sady Folch# O Tempo do Verbo

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