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# Os caminhos da vida

O repertório da sabedoria oriental oferece-nos um cabedal de contos maravilhosos. Frutos que saltam da observação dos gestos mais simples, se tornaram tábua de reflexão em todo o mundo. Um deles conta uma história em que dois homens seguiam cabisbaixos por um caminho, cada qual em direção contrária ao outro.

Ao encontrarem-se, perceberam que traziam consigo uma quantidade de diversa de sementes. Resolveram fazer uma troca e assim seguiram sua rota. Mais a frente, um deles, o mais velho, mais observador que o outro, percebeu que o jovem homem que acabara de encontrar carregava algo além. Ao recordar-lhe o semblante, esclareceu-se uma tristeza por detrás daqueles grandes olhos. Virou-se para trás, mas as colinas já o escondiam.

Pensou – “Talvez perdido em seus pensamentos; mas, que siga em paz”. Passou o tempo e os homens cruzaram-se mais uma vez no mesmo caminho, agora a carregarem um fardo de pães. A troca mais uma vez fora feita, contudo, o homem que atinara dos sentimentos do mais jovem iniciou uma conversa. De fato, aquele era um homem triste. A solidão, em uma região de homens que tinham esposa e filhos, fora a sorte tecida pelo destino em sua vida.

Estava diante de um homem bastante tímido, porém íntegro, e também um bom pastor de cabras, conhecedor dos cuidados que a elas se deve para crescerem fortes, pelo que se revelou no pouco que disse ao responder sobre o que fazia. Por este motivo, também, foi que então o convidou para cear com ele em sua casa, pois sua mulher estava na casa de parentes, e assim, no dia seguinte poderia conhecer o seu rebanho e dar sua opinião. Aceito o convite, seguiram juntos, conversando sobre a criação, até que o anfitrião achou de lhe contar sobre a agrura que se abateu sobre sua família.

Desta feita, o destino, caprichoso, não havia trazido alguém como se espera aconteça, mas, retirado. Quatro de seus filhos tinham sido mortos por ladrões em uma emboscada. Restara-lhe a esposa, já avançada em idade como ele.

Este fato os aproximou mais ainda. O homem tímido sentiu a dor daquele que acabara de conhecer. Após a ceia, ficaram do lado de fora da casa observando a noite que estrelava as imensas possibilidades do universo. Após algumas horas de conversa, perceberam na experiência de cada um, o equilíbrio vital que os impelia continuar a viver.

O homem solitário encontrou escondido em si mesmo, as razões que o fortaleciam sem que as vislumbrasse, sendo a vida, ainda que solitária, a oportunidade de estender a mão a quem precisasse, tornando-a repleta de familiares como as estrelas daquele céu. O mais velho, por sua vez, revelou também a si próprio, não apenas a beleza que ainda encontrava nos olhos de sua mulher, sem se dar conta, mas, inclusive, de quanta vida há para ser conhecida, ainda que a noite caia em meio ao caminho.

Ocorreu-lhes nesse momento a lembrança de uma passagem do evangelho, em que Jesus, que não teve esposa e nem filhos, pois sua vida voltou-se ao plano divino, a ele reservado para carregar um fardo que só ele o poderia fazê-lo, em determinada ocasião, ao estar com pessoas que o ouviam falar do reino de Deus, precisou repreender ao interlocutor que o interrompia insistente, avisando-lhe que sua mãe e irmãos se encontravam do lado de fora da casa, dizendo: “Quem é minha família senão os que fazem a vontade de meu Pai que está nos céus?”. Razão que exemplificava a necessidade imediata a ser suprida aos que têm fome espiritual.

Ao final, ao recolherem-se para descansar a espera do dia, compreenderam que, de fato, os laços familiares são em si, as oportunidades mais próximas que temos para revelar o sentido da vida. Contudo, se não os temos, igualmente os homens em nossos caminhos, solitários ou ávidos por um conforto, são aqueles a quem devemos voltar nossos pensamentos, tornando-nos conscientes do peso do ego e da força do amor, este, o alimento legítimo a ser trocado por onde quer que se vá, da maneira como se esteja vivendo, pois sempre haverá alguém que precise de algo mais do que nós.

Shalom!

Sadi – Um Peregrino da Palavra

Sady Folch# Os caminhos da vida

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